terça-feira, 27 de abril de 2010

A apanha dos cães no Porto (conclusão)

"Às vezes acontecia, o cão, ao ser perseguido pelos "homens da rede", refugiar-se no primeiro estabelecimento que encontrava. Se o dono do dito era pessoa humanitária, não consentia que os "caça-cães" pusessem os pés dentro da sua casa de negócio para o aprisionarem. Estes, perante a atitude assumida pelo comerciante, enfureciam-se, reclamavam em altos berros a entrega do "mais fiél amigo do homem" e, depois de muito esperarem e para fugirem aos apupos revoltados do povo, lá se iam embora, resmungando um português pouco decente.

Mas casos piores, mais ridículos se davam, e estes terminavam quase sempre em desagradáveis conflitos, porquanto o público não podia deixar de intervir energicamente a favor do possuidor do cão. Aconteceu, muitas vezes, senhoras da alta sociedade portuense levarem ao colo lindos cachorros de pura raça, pelos quais tinham grande estimação. Mas, porque estes não trouxessem coleira, e não viessem açamados, os zelosos empregados deixavam de ter a indispensável urbanidade para com elas, e de uma maneira brusca, selvagem mesmo, chegavam a tirá-los das suas próprias mãos. As senhoras, furiosas, protestavam contra tal violência, os transeuntes aglomeravam-se e criticavam asperamente o acontecimento, barafustavam também e dirigiam impropérios aos empregados por se terem excedido demasiadamente no cumprimento das suas obrigações e, dentro em pouco, o mantedor da ordem via-se embaraçado para dispersar o povo, tendo de por o comprido e pesado chanfalho em acção para acalmar os ânimos, quando não levava aos empurrões, para as fétidas prisões do Aljube, sito à Rua de S. Sebastião, à Sé, os indivíduos que se tinham manifestado contra o incorrecto procedimento dos "caça-cães".



Terminadas as horas de serviço, os cães apanhados durante o dia eram levados para casotas reservadas, existentes nos serviços de limpeza pública, ao tempo na Rua do Visconde de Bóbeda e traseiras da Biblioteca Pública Municipal do Porto, os quais podiam ser libertados por seus donos mediante uma multa e depois de cumpridas outras formalidades. No caso de não serem procurados eram abatidos.

O código de posturas de há cinquenta anos não permitia que os habitantes do burgo tripeirinho possuíssem cães sem a devida licença da Câmara; e os cães, cujos donos tivessem a respectiva licença, tinham de trazer, sempre que saíssem à via pública, uma coleira com a designação do nome e morada do dono e número da licença, sob pena de ter de pagar o triplo da multa.

Além da coleira mencionada, os cães tinham de andar sempre açamados, sob pena de 2$ooo réis de multa. Se fossem encontrados na rua sem coleira nem açamo, eram considerados vadios, e como tal, abatidos.

Nunca é demais relembrar o passado. E a estudiosa juventude hodierna fica a ter conhecimento, por intermédio d' O Tripeiro, das mudanças a que se têm sujeitado os hábitos do Porto antigo."

Texto escrito por Manuel Pedro e publicado n' O Tripeiro, Série 5, ano VII (Março de 1952), página 249/250.

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