quarta-feira, 21 de julho de 2010

O antigo cais dos Guindais


Pormenor de um postal antigo mostrando a extremidade Este do cais dos Guindais, onde hoje passa - a cota mais alta - a Avenida de Gustavo Eiffel. As casas à esquerda ainda existem, encontrando-se no sopé da escarpa.
A avenida actual segue grosso modo através dos edifícios presentes em primeiro plano.
Ao fundo vislumbra-se a Calçada da Corticeira, também ainda existente; que sobe em rampa (e que rampa!) para a Alameda das Fontainhas.


Nesta segunda - também ela pormenor de um postal - o mesmo cais mas desta vez com uma perspectiva mais abrangente, se não em paisagem ao menos em actividade humana, reveladora da azáfama da carga e descarga das mais diversas mercadorias.
Atente-se aos vários barcos Rabelo atracados, bem como ao facto de se encontrarem vazios, talvez à espera de um possível frete...

Uma fotografia tirada deste local e olhando na mesma direcção será por ventura possível nos nossos dias, dado que esta zona do cais (a que se encontra em primeiro plano) ainda existe, por baixo da ponte D. Luís! A paisagem é que já será completamente diferente...

domingo, 4 de julho de 2010

Duas relíquias do passado

Num passeio pelo parque da Pasteleira, descobri duas preciosidades que dava já como apenas existentes numas poucas fotografias captadas ainda em vidro e eventualmente na memória de algum portuense mais ancião que neles tivesse saciado a sua sede...

Dois fontanários, velhinhos, encontram-se lá colocados distanciados uns 15 metros um do outro, sendo claramente do Porto de outros tempos tendo ido para ali vindos eventualmente de qualquer depósito da CMP ou mesmo do SMAS...
Quando para eles olhei a minha boca abriu-se de espanto (e alegria) pois nunca esperava encontrar semelhante relíquia histórica naquele local!

Dando a volta ao "miolo" onde é que eu já vira uma "coisa" daquelas, vim para casa consultar as minhas fontes e eis que deparo com um deles (ou um seu semelhante) na antiga Praça de Santa Teresa (hoje de Guilherme Gomes Fernandes) a pp. 66 do livro Fontes e Chafarizes do Porto de Germano Silva.

As relíquias que descobri tem uma inscrição em pedra (ao estilo tumular) que já não se encontra legível, pelo menos "de cá de baixo".
São bonitas peças de arquitectura urbana, como já não se fazem nos nossos dias. Apresentam bicas de água quer para as pessoas bem como para os animais (são por isso da altura em que muares, cavalos e bois eram comuns nas cidades) e outras até quem sabe, para encher vasilhas(?) e em baixo uma pequenina para lava-pés dado que as pessoas andavam na sua maioria descalças(?) ou para cães (menos provável...?).

Em baixo podem ver a foto de um desses fontanários, porventura o mais completo. Algum dos leitores terá mais informação sobre os mesmos?

sábado, 19 de junho de 2010

O Beco do Cadavai

"Beco do Cadaval ou Cadavais

Era uma viela estreita e imunda que começava nas imediações dos aloques, ou anoques da Biquinha, e terminava na rua do Souto, na parte que fica entre a rua do Mouzinho da Silveira e rua das Flores.

A viela foi quase toda demolida para abertura da rua do Mouzinho, e a parte que não foi demolida na rua do Souto está fechada com uma porta de arco abatido que tem o nº 103."

T. de M., 16-04-909, publicado na Correspondência entre leitores da revista O Tripeiro, 1º ano, 2º semestre, página 207.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O eléctrico e o Passeio Alegre

Este blog não é um instrumento de contestação mas sim um espaço para ir "falando" da história da cidade do Porto. Dessa forma o post de hoje foge completamente à regra. Ou talvez não completamente pois os eléctricos são por si peças históricas.

A Câmara decidiu - e muito bem - efectuar obras de repavimentação na zona do Passeio Alegre. Para isso e como as condutas de água precisavam de ser renovadas; em sinergia com as Aguas do Porto optou pelo 2 em 1 esventrando os arruamentos apenas uma vez - e mais uma vez, a meu ver, muito bem.

Mas não é que se esqueceram dos eléctricos?! Então não era de aproveitar a sinergia com a STCP e prolongar a linha os três(?) centos de metros que falta para a levar ao Castelo da Foz? A maior parte do carril já lá estava, a maior obra seria na colocação da catenária. Mas para um espaço tão curto com certeza não seria empreitada demorada nem muito dispendiosa...

Assim o eléctrico continua a ir apenas até á "boca" do Passeio Alegre. Isto é, não lhe "penetra nas entranhas". Fica ali como quem foi só ao virar da esquina espreitar, dizendo aos seus passageiros "Agora faz o resto a pé!".

A ciclovia que vão instalar não ficava bem melhor acompanhada ao lado do eléctrico a circular em leito próprio do que ao lado dos omnipresentes e poluidores veiculos movidos a motores de explosão?

Seria uma mais valia, do ponto de vista turístico, aproveitar "o lanço" e colocar o eléctrico a dar novamente a volta à raquete do Passeio Alegre e colocar o términus da linha ao lado do chalet. A cidade ficava a ganhar e fazia justiça a este meio de transporte ao qual deve em grande parte o seu desenvolvimento e expansão.

Como está actualmente a chapa PASSEIO ALEGRE usada pela linha 1 fazia mais sentido ser substituida por CANTAREIRA...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Um antes e depois da Boavista

Entroncamento da Av. da Boavista com a Rotunda do mesmo nome, no início do século XX:


O mesmo local na penúltima década do século XX:

domingo, 6 de junho de 2010

Uma notícia curiosa.

Pelo menos para mim, que nunca foi assistir a uma corrida de touros nem tenciono; não que seja fundamentalista do que quer que seja, simplesmente não acho piada à coisa.

De volta ao assunto, não tenho ideia se nas corridas de touros actuais o que se relata abaixo se passa ou não, nem se seria uma particularidade das corridas deste cadinho de terra à beira mar plantado. Contudo aconteceu (e acontecia regularmente pela maneira como está referenciado, numa das corridas de touros inaugurais da Praça de Touros da Boavista (mencionada num dos posts anteriores) e que reza assim:

"Na corrida de 3 de Abril houve um número cómico. O quinto touro foi destinado para o intervalo cómico. Foi protagonista desta diversão cómica, que entreteve alegremente os espectadores, o França, criatura de uma elasticidade admirável, que, vestido borlescamente, umas vezes espera o touro, e quando este insiste, vira-lhe as costas, deita-se-lhe entre as armas e deixa-se bolear por ele, outras farpea-o, mas em vez de lhe fugir, deita-se no chão e o touro passa-lhe por cima.
O vestuário e as cabriolas deste cómico personagem provocaram a hilaridade do público, que o recompensou do tempo de desenfado que lhe fizera passar, não só aplaudindo-o, mas lançando-lhe dinheiro em abundância.
O último touro reservado aos curiosos foi o remate verdadeiramente cómico da corrida.
Ao princípio nenhum curioso se animou a saltar à praça, porem depois em vez de um apareceram uns poucos. Foram numerosos os trambolhões e boleus e à força de insistir alguns ferros recebeu o touro. A maior parte deles foram-lhe metidos por um curioso, que entre outros se destingiu notavelmente, sendo vivamente aplaudido. Um acrescido número de espectadores entusiasmados saudaram-no agitando os lenços e os aplausos não tinham termo.
A concorrência foi numerosíssima. A praça tem sido melhorada, tendo-se aberto mais entradas, para galerias e colocado portas em alguns camarotes, trabalhos que ainda continuam."

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A Antiga entrada da Rua do Bonjardim



Na fotografia acima vemos a desaparecida secção inicial da Rua do Bonjardim. Esta área é hoje em dia ocupada pelo início da Rua de Sá da Bandeira; que faz também ela cotovelo tal como a anterior, se bem que um pouco deslocada da área daquela a que sucedeu constituindo por isso uma remodelação total do lugar a todos os níveis: edificado e rua.

A propósito desta rua, foram na revista O Tripeiro de Abril de 1948 e na secção Comunicação dos Leitores, dados a conhecer pelos anciãos à época, do que estava por detrás da imagem que esse velho negativo em vidro fossilizou, ai pelos inícios do século XX.
Vejamos pois o que havia por detrás daquelas portas e janelas nesses tempos tão recuados:

1)
(...) Foi um dos pontos frequentados pela boémia de há trinta anos. Olhando para a fotografia, do lado esquerdo, vê-se o Café Madrid, a seguir o Restaurante Monteiro, depois a Relojoaria, o célebre Restaurante Adriano, com esplêndidos almoços a quatro ou cinco tostões, o lindo Café Lisbonense, com um esplêndido terceto, com concertos ao domingo, à uma hora da tarde, restaurante no primeiro andar, com entrada por um largo portão à direita do Café e ainda pela Rua de Santo António [hoje 31 de Janeiro). A seguir, havia ainda a Sapataria Mota, Barbearia Barradas, salvo erro, Ourivesaria Boneville, Quiosque Espírito Santo, etc. Olhando ainda a fotografia, há direita, havia o Café Portuense, o Café Liberal, o Restaurante Mesquita, Mercearia Maia, Farmácia, Barbearia Tinoco, uma Confeitaria, o velho Café Moreira e, na casa grande, que se vê ao fundo, havia umas alfaiatarias de fato feito, onde hoje [1948] está uma barbearia e um estabelecimento de óptica [isto é que não pode ser verdade porque o prédio já não existe!?]. Fazia esta rua, do lado de Santo António, um cotovelo que não deixava ver dali a Rua de Sá de Bandeira.
Comunicação de: Tripeiro Luis - Porto

2)
"(...)Os prédios que faziam parte da referida rua eram, na sua maioria ocupados por cafés, restaurantes e hotéis. Do lado direito haviam os cafés Portuense, Braga e Moreira, o Novo Hotel Portuense e o Hotel Real. Este era no local onde hoje [1948] está instalado o Peninsular Hotel.
Em tempos idos, já bastante recuados, à porta do Hotel Real faziam estação os almocreves, diligências e estafetas. As estafetas, nome porque eram conhecidos uns pesados e avantajados carroções cobertos de lona (...), faziam recovagem entre vários pontos da província e, de quando em vez, transportavam um ou outro passageiro que tivesse coragem e resistência para suportar tais jornadas. Estes carroções eram puxados por cavalos e traziam sempre, durante a viagem, atrelado na traseira do carro um cão de guarda com coleira de picos compridos e acerados, isto, já se vê, para o que desse e viesse...É que os tempos eram outros...
Do lado esquerdo, existiam os Restaurantes Monteiro e o Adriano, que teve a sua fama, e os Cafés Madrid e Lisbonense. Este Café foi um dos mais frequentados da época, não porque fosse luxuoso, como actualmente os há, mas por nele se realizarem, principalmente no inverno, excelentes e apreciadíssimos concertos de boa música, executados por artistas de real merecimento. (...)
A rua em referência, depois das modificações a que foi sujeita [na realidade foi construído um arruamento novo], foi integrada na Rua de Sá da Bandeira, e à parte da citada rua, entre as Ruas do Bonjardim e de D. Pedro [que já não existe nem existia à escrita destas linhas], foi dado o nome de Sampaio Bruno (...)
Existiu, no ângulo direito das ruas do Bonjardim e Sá da Bandeira uma fonte, que foi demolida, tendo-se construído no local uma marquise envidraçada, que ainda lá está.
E fico por aqui.
Comunicação de: Velho tripeiro - F.M.N.J. - Porto

domingo, 30 de maio de 2010

As primeiras praças de touros no Porto (III)

Embora colocada aqui com o nº III, pois é o terceiro post referente a este assunto, a notícia abaixo descreve um pouco do que foi a inauguração da primeira praça de touros (de madeira) permanente na cidade do Porto. Foi levantada na "rua da Boavista", num local que era, à data, longe do centro da cidade.
Para quem tiver paciência de a ler, vale a pena, pelo pitoresco do que descreve, ao qual ajuda também o tipo de escrita.

27 de Março de 1871
"Inaugurou-se na 6ª feira, com a primeira corrida, como estava anunciado, a praça de touros que se acaba de construir na rua da Boavista.
O gado, segundo requerem as exigências tauromáticas, em geral foi mau, o que tornou a corrida destituída de interesse para os amadores. Apenas dous ou três dos touros foram sofríveis, havendo principalmente um, que era destemido e fino, dando que fazer aos capinhas.
Pontes e Calabaça meteram bem alguns ferros, fazendo o segundo, além disso, alguns saltos à vara curta.
Ambos foram muito aplaudidos, especialmente o último.
O cavaleiro Batalha fez bem as cortesias e meteu alguns ferros curtos com muita destreza. Foi por isso muito vitoriado, recebendo um bouquet.
Os outros capinhas pouco se distinguiram, porque o gado não se prestava a isso.
Os homens do forcado portaram-se bem, e fizeram algumas boas pegas de cara e uma de cernelha.
Os touros que se não prestaram ás sortes foram recebidos com apupos e assobios.
Tocaram duas bandas, sendo uma a de caçadores 9 e outra particular.

A praça achava-se inteiramente adornada de bandeiras e festões de flores, e exteriormente de grande número de mastros com bandeiras. Estas estendiam-se igualmente pela rua da Boavista até ao Campo de Sto Ovídio [hoje Praça da República] e até parte da rua de Cedofeita.
Em volta havia um perfeito arraial: barracas de comida, pipas de vinho, etc, Custava a transitar com a grande multidão que ali afluía, apesar do vento que fazia.

A praça é vasta. Além de quarenta e tantos camarotes, tem uma galeria no sol, ao correr destes, e outros à sombra e ao sol por baixo dos camarotes e daquela outra galeria.
Por cima da pare reservada ao cavaleiro acha-se o coreto para a música e defronte dele o camarote da autoridade, tendo pintadas por baixo as armas da cidade.
Defronte do touril fica o camarote destinado aos Srs. Governador Civil e geral da Divisão, e por baixo os lugares reservados para a imprensa.
Há também um camarote real, onde na 6ª feira, apareceu o retrato do Sr. D. Luiz, depois de se tocar o hino de S. M.
Ao lado do touril, que tem vários compartimentos para o gado, acha-se uma enfermaria com os medicamentos necessários para quando suceda algum desastre, e os outros compartimentos destinados a diversos usos.
Além disto há botequins ou restaurantes nos corredores que ficam por baixo das galerias do sol e da sombra.
Em diversos pontos vêem-se dísticos com a data da fundação e inauguração da praça, e o nome do fundador, que o foi também da da Foz, o Sr. Augusto César Calhamar."

Como curiosidade, e para encerra o post, refira-se que surgiu, no jornal de Sábado logo a seguir à corrida, uma notícia de um rapaz que tinha sido atropelado por um qualquer trem que passava naquela zona. Pelos vistos, no meio da confusão de pessoas e trens a passar de um lado para o outro, no meio do reboliço; a pessoa fugiu! Um "atropelamento e fuga" portanto, já naquele relativamente longínquo tempo de década de 70 do século XIX!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Praça de Guilherme Gomes Fernandes



Praça de Guilherme Gomes Fernandes, onde se realizava a Feira do Pão, no início do século passado.
As casas ao fundo ainda existem! Escondido pelo arvoredo está o palacete onde Garret passou bons momentos de convívio ao serão. Hoje essa mesma área é povoada por um inestético edifício de apartamentos digno de cidade-satélite ou de uma qualquer freguesia mais exterior do próprio Porto, mas não daquela zona e não àquele custo...
Não desfazendo, é claro, a qualidade da Livraria do Estado, que povoa o seu rés-do-chão e primeiro andar!

sábado, 15 de maio de 2010

A Rua de Cedofeita


Rua de Cedofeita com a Torre dos Clérigos em segundo plano.
Capa de O Tripeiro, 1952.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Missa campal



Missa campal no Campo da Regeneração, actual Praça da República.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Avenida dos Aliados antes de o ser...

Esta foto retrata o progresso das demolições do "Bairro do Laranjal" para abertura da Avenida dos Aliados e que creio terá sido tirada ai por 1916...
Do lado direito podemos ver o famoso (à época) Hotel Francfort, que mesmo com o camartelo à Porta ainda laborava(!).


Na imagem abaixo feita com a ajuda do BingMaps e do Paint, tento ilustrar a minha ideia de onde a foto terá sido tirada. Não estando elas localizadas com a precisam de um GPS, seria contudo naquele local que as antigas estruturas se encontravam.


LEGENDA:
X vermelho > local da foto
Azul > Rua do Laranjal
Verde > Rua Elias Garcia (anteriormente R. de D. Pedro)
Amarelo > Hotel Franqcfort

Note-se que desta visão de "avião" podem-se ver que algumas casas que antes da construção da nova avenida davam para a Rua (de Elias Garcia) e que estão agora escondidas, meras traseiras dos imóveis que as substituíram na fachada da actual avenida.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A apanha dos cães no Porto (conclusão)

"Às vezes acontecia, o cão, ao ser perseguido pelos "homens da rede", refugiar-se no primeiro estabelecimento que encontrava. Se o dono do dito era pessoa humanitária, não consentia que os "caça-cães" pusessem os pés dentro da sua casa de negócio para o aprisionarem. Estes, perante a atitude assumida pelo comerciante, enfureciam-se, reclamavam em altos berros a entrega do "mais fiél amigo do homem" e, depois de muito esperarem e para fugirem aos apupos revoltados do povo, lá se iam embora, resmungando um português pouco decente.

Mas casos piores, mais ridículos se davam, e estes terminavam quase sempre em desagradáveis conflitos, porquanto o público não podia deixar de intervir energicamente a favor do possuidor do cão. Aconteceu, muitas vezes, senhoras da alta sociedade portuense levarem ao colo lindos cachorros de pura raça, pelos quais tinham grande estimação. Mas, porque estes não trouxessem coleira, e não viessem açamados, os zelosos empregados deixavam de ter a indispensável urbanidade para com elas, e de uma maneira brusca, selvagem mesmo, chegavam a tirá-los das suas próprias mãos. As senhoras, furiosas, protestavam contra tal violência, os transeuntes aglomeravam-se e criticavam asperamente o acontecimento, barafustavam também e dirigiam impropérios aos empregados por se terem excedido demasiadamente no cumprimento das suas obrigações e, dentro em pouco, o mantedor da ordem via-se embaraçado para dispersar o povo, tendo de por o comprido e pesado chanfalho em acção para acalmar os ânimos, quando não levava aos empurrões, para as fétidas prisões do Aljube, sito à Rua de S. Sebastião, à Sé, os indivíduos que se tinham manifestado contra o incorrecto procedimento dos "caça-cães".



Terminadas as horas de serviço, os cães apanhados durante o dia eram levados para casotas reservadas, existentes nos serviços de limpeza pública, ao tempo na Rua do Visconde de Bóbeda e traseiras da Biblioteca Pública Municipal do Porto, os quais podiam ser libertados por seus donos mediante uma multa e depois de cumpridas outras formalidades. No caso de não serem procurados eram abatidos.

O código de posturas de há cinquenta anos não permitia que os habitantes do burgo tripeirinho possuíssem cães sem a devida licença da Câmara; e os cães, cujos donos tivessem a respectiva licença, tinham de trazer, sempre que saíssem à via pública, uma coleira com a designação do nome e morada do dono e número da licença, sob pena de ter de pagar o triplo da multa.

Além da coleira mencionada, os cães tinham de andar sempre açamados, sob pena de 2$ooo réis de multa. Se fossem encontrados na rua sem coleira nem açamo, eram considerados vadios, e como tal, abatidos.

Nunca é demais relembrar o passado. E a estudiosa juventude hodierna fica a ter conhecimento, por intermédio d' O Tripeiro, das mudanças a que se têm sujeitado os hábitos do Porto antigo."

Texto escrito por Manuel Pedro e publicado n' O Tripeiro, Série 5, ano VII (Março de 1952), página 249/250.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A apanha dos cães no Porto

"Na velha e gloriosa cidade do Porto, todos os antiquados costumes têm passado por uma metamorfose completa, dando lugar a outros mais modernos, mais dinâmicos e económicos.

Vamos, pois, em sucintas palavras, explicar à mocidade de hoje como eram apanhados em tempos decorridos os cães que vagueavam de dia e de noite por todas as artérias da cidade invicta.


Dois funcionários municipais, de inferior categoria, deselegantemente uniformizados, conduziam pelas ruas da acidentadas da urbe, num passo vagaroso, sonolento, um carro de duas rodas e, sobre o eixo destas, poisava um grande e alto caixão de madeira, de figuração rectangular, interiormente dividido em compartimentos, onde se recolhiam os cães. Mais dois funcionários do município, de igual classe e indumentária, a par, com os olhos fixos em todos os vultos que se mexiam, seguiam por um dos passeios laterais, levando um deles uma rede de corda delgada aos ombros. Os primeiros que enxergassem um cão desaçamado, davam sinal, assobiando, e os que puxavam o carro logo paravam, pegavam na rede que geralmente ia sobre o tejadilho do do pequeno carro celular e apressadamente, não fosse o cachorro escapulir-se pela demora, estendia-na de lés a lés da rua, chegando por vezes a impedir todo o trânsito.

Os modestos funcionários, ou melhor dizendo, na gíria popular da época, os "caça-cães" que seguiam pelo passeio, com receio de que fossem notados pelo cão, escondiam-se por detrás das costas das pessoas que passavam e, após o canino ter tomado a direcção dos empregados que já tinham a rede preparada, avançavam na cauda deste e uns e outros iam-se juntando até que o animal ficava envolvido nas redes.

Agarrado espectacularmente o cão - espectáculo este que não deixava de ser cómico, triste e irritante, desagradavelmente comentado pelas pessoas de coração, pois a liberdade não foi somente dada ao género humano -, era depois enclausurado numa das divisões do supracitado carro.

Porém, nem sempre os referidos funcionários eram bem sucedidos no seu ingrato modo de vida, pois os cães mais espertos, desconfiados - em virtude dos grandes saltos que formavam -, conseguiam transpor as redes, fugiam e punham-se a olhar para trás, como quem diz: "ainda não foi desta vez".

Quando isto acontecia, o rapazio endiabrado, principalmente, que não deixava de acompanhar atentamente e encolerizado as evoluções desenhadas em ziguezagues dos "caça-cães", batia palmas de contente, saltitava entusiasmado e não poupava a respectiva zombaria.

Conflitos, questões sérias se travavam de quando em vez entre os empregados e o povo, por este, quando via o carro da rede, dar-se ao cuidado de afugentar os cães. Para terminar com a caçoada dos garotos e com as desordens originadas pela apanha dos cães, que se tornavam em espetáculos vergonhosos e aviltantes para a cidade do trabalho, o carro dos cães começou a andar acompanhado por um polícia civil.

A história da apanha dos cães no burgo tripeirinho de à meio século, ficaria incompleta se deixássemos de descrever os casos deveras extraordinárias que vamos passar a expor."

in O Tripeiro, Série V, Ano VII, pág. 249
(continua)

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Graham's travel's..."

Eis um pequeno texto pescado através do Google Books. Trata-se de um livro publicado em 1820 e que relata a viagem que um senhor de nome William Graham fez durante a guerra peninsular, percorrendo Portugal e Espanha.
Aqui apenas coloco a parte que diz respeito à cidade do Porto.

(página 38)
"...when we marched for Oporto, sixteen miles [vindo de Sta. Maria da Feira], a city far surpassing Lisbon and Coimbra, in point of beauty. The first which that strikes a traveller, is a general cleanliness,-also the evenness of the houses, and uniformity which reigns in each street. It is situated on the Duoro(sic), a few miles from the sea, and has a bridge of boats which open in the middle, for the passage up to St. Joas de Pisqueri(sic), Lamego, & c. The convents here are superior to any I have yet seen, and, as usual, occupy the greatest part of the town. On the northern side of the river is a part called Vila Nuevo de Oporto(sic), or the new town, inhabited by coopers and smiths, of whom the number is immense. Oporto is very large and our English company reside here. They generally purchase the vintage some months before it is pulled; making the wine on the spot, and floating it down to Oporto, were they doctor it for our market. As to their wine the juice of the grape alone is not so capital as is imagined, being rather insipid. There is one street here called Rua des Ingleses(sic), which may, perhaps, rival any in Europe; the houses, numbers 1, 2, 3, compose the English hotel, and a noble one it is. Oporto very much resembles the towns in England, and one-eight of the inhabitants are thought to be English-the one company giving employment to so many; and to this company may be imputed the commercial prosperity of Oporto.

Throughout Portugal, the orders of Santa Cruz and Santa Francisco(sic) appear to be richest. The chapels, in general, are the greatest ornament about them, and the gardens are laid out in a superb style. On convent here is on an immense perpendicular rock, on the south side of the town, and has a truly grotesque appearance; I was billeted just under it. The town lies on the side of a hill, like Lisbon and Coimbra, slanting to the river. The streets are very good, with many fine houses. There is a great trade and shipping can come up to the merchant's doors with ease. The streets are lighted with lamps, in the English mode, and the houses don't look so much like prisons as those of Lisbon(!!!). The great iron bars to the windows are not much in use. They are built with stone, very high, many being seven stores. There is an excellent fish market here, and a good landing place, almost all along the northern bank of the river. The inhabitants are less reserved then those of the south, as their intercourse with the English makes them acquainted with our manners and customs, some of which, they adopt. It is rather singular that the port wine is very bad here--nor is it like the wine we have in England; the English company monopolize the best for exportation. Adeney and I refreshed with a bottle on the morning we started; but it was not at all to our taste."

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Hospital de Santo António

Vista das traseiras do Hospital de Sto António, nesta época ainda em construção (que durava à décadas); de Frederick W. Flower.



O "descampado" que vemos em primeiro plano encontra-se hoje ocupado pelo novo edifício do Hospital.

Pare a sua construção foi necessário atulhar com milhares de metros cúbicos de terra toda uma área que seria um lodaçal com as nascentes a céu aberto do carregal, seguindo as águas encosta abaixo, formando o Rio Frio que desaguava no areal de Miragaia.
O projecto inicial, como se sabe, propunha um edifício que se fechava sobre si próprio, de forma quadrada; o qual nunca chegou a ser completado.
O arquitecto inglês que desenhou o seu risco, projectou-o para ser construído de tijolo (como seria na Inglaterra) e ficou chocado e admirado por o estarem a construir em pedra(!).(1)

(1) Informação pescada do Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Igreja de Cedofeita

A fotografia abaixo é produto do mesmo fotógrafo do post anterior, Frederick W. Flower; activo no Porto na década de 50 do século XIX.

Desta vez apresenta-se-nos a Igreja de Cedofeita. Muito provavelmente uma das igrejas mais antigas de Portugal, a Igreja de Cedofeita estava tão isolada do Porto ainda nos finais da idade média, que os seus páracos se queixavam não ter gente para assistir à missa (entre outras queixas); pois essa gente vinha de locais bem distantes.



Nos anos 40 já do século XX, o Estado Novo, por meio da DGEMN empreendeu uma "reintegração" da Igreja no seu aspecto medievo "original"; espoliando-a de tudo ou quase todo o que a época do barroco, mais que qualquer outra, lhe acrescentara.

Talvez alguns dos mais velhos habitantes do Porto ainda se lembrem dela não como na foto (seria pedir o impossível), mas com o seu pequeno claustro e outras edificações do século XVIII que a rodeavam e até complementavam...
Tudo isso se foi, ficando-nos uma igreja que sendo bonita na sua traça singela (ilustradora de uma era bem mais frugal e que à muito passou) é hoje apenas um pastiche dessa mesma era.

terça-feira, 9 de março de 2010

A Afurada



A Afurada fotografada na década de 50 do século XIX por Frederick William Flower.
Atente-se na tipo de embarcações pesqueiras, hoje apenas encontradas, sensivelmente, de Espinho para sul(?).

Estes barcos, de origem e tipo mediterrânico, contrastam com os do tipo nórdico usados no Douro dos quais o Rabelo e o Valboeiro são os modelos mais conhecido (mas havia mais..). A grande diferença "à vista desarmada" entre uns e outros está na construção por tábuas lisas nos primeiros e em tábuas sobrepostas (casco "trincado" tal como os navios Vikings) dos segundos.

Ao fundo, do outro lado do rio vê-se Lordelo do Ouro, à época uma singela aldeia isoldada e separada da cidade do Porto.
Neste tempo, Gaia e Vila Nova eram e seriam ainda coisas distintas.. mas, a que concelho pertencia a Afurada? Alguém ajuda?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

As primeiras praças de touros no Porto (II)

Continuando o relato da inauguração das primeiras praças de touros permanentes do Porto em 1870, ficamos agora com alguns apontamentos noticiosos sobre a primeira delas, a da Boavista, inaugurada umas semanas antes da da Aguardente.

A fonte é, como sempre, o Commércio do Porto, nesta notícia temos a chegada do gado que iria ser corrido:

22 de Março
"Ante-ontem à noute atravessou a cidade o gado que vem para ser corrido na [inauguração] da praça de touros da Boavista.
A manada compunha-se ao todo de 22 cabeças, entrando neste número 4 chocas. É portanto de 18 o número de touros que tem de entrar nesta corrida(1).
Informam-nos que são dos campos de Tentúgal, das manadas pertencentes aos lavradores os Srs. Bento Pena e Francisco Maria Correia Soares e Brito.
Alguns amadores e outras pessoas foram esperar o gado.
Os proprietários do circo tencionam dar a primeira corrida de touros na próxima 6ª feira.
Chegou também ao Porto o gosto por este bárbaro divertimento. E foi tão intenso este acesso de paixão tauromática, que, em vez de um circo, se levantaram logo dous, para adoçar os costumes do povo com estes espectáculos de sangue.
Ò civilização, repugnante seria o teu destino, se fosses isto!"

O gado ficava guardado nos campos pertencentes ao lavradores da zona da Foz enquanto esperava para ser corrido. Tratam-se, provavelmente, de terrenos hoje ocupados pela "Foz nova" e Nevogilde e poente da Avenida da Boavista, que nessa altura não tinha a extensão que hoje lhe conhecemos.

Como facto curioso (pelo menos para o leigo autor destas linhas) aqui fica uma outra notícia, do mesmo jornal, onde se dá a conhecer como foi atribuído o alvará da Praça de Touros da Boavista:

24 de Março
"Pelo governo civil foi passado o competente alvará de licença ao empresário da praça de touros na rua da Boavista para dar espectáculos na mencionada praça.
O empresário obrigou-se a depositar no governo civil 30$000 réis PARA QUALQUER ESTABELECIMENTO DE BENEFICÊNCIA em seguida a CADA CORRIDA que ali tenha lugar, sendo com esta clausula que lhe foi concedida a licença"
(As maiúsculas foram propositadamente usadas por mim)

Será que actualmente este género de situações ainda se passam?


(1) Na verdade este número de touros repartiu-se por corridas que tiveram lugar nos dias subsequentes à inauguração da Praça.

domingo, 24 de janeiro de 2010

As primeiras praças de touros no Porto (I)

Em 1870 encontravam-se em construção as duas primeiras praças de touros permanentes da cidade do Porto: uma na Boavista e a outra no Largo da Aguardente (actual Praça Marquês de Pombal).
As notícias que se seguem são retiradas, como vem já sendo recorrente, d' O Comércio do Porto, neste caso do primeiro semestre de 1870.
Abaixo vem a descrição da praça de touros da Aguardente publicada a 31 de Março, aquando da ultimação dos trabalhos de construção:

"O espaço reservado às corridas mede 36m de largura; a distância da primeira à segunda trincheira é de 1,2m e o espaço desta ao tapamento; isto é, à largura das galerias é de 7,5m.
Além de uma ordem de 52 camarotes, tem no correr destes uma galeria superior. Em frente da porta do cavaleiro fica o camarote da autoridade.
Por baixo desta ficam a enfermaria, o escritório e outros compartimentos. O camarote real fica superior ao da autoridade.
Por cima da porta do cavaleiro fica o camarote da empreza (sic) e por cima deste o coreto de música.
Nos corredores, por baixo das galerias ficam as cavalariças e quartos para os moços e homens de forcado.
A praça é toda construída de madeira de forma quase idêntica à da Boavista e tem lugar para 8.000 pessoas."

Na altura em que esta notícia era publicada já a praça da Boavista tinha sido inaugurada. Tendo sido portanto essa e não esta a primeira, pela diferença de uns dias.

Não conheço qualquer iconografia destas praças. Das praças de madeira apenas me recordo de ver da praça da Rua da Alegria que precede estas em décadas.
Apelo a quem tiver alguma fotografias destas praças mais primitivas de madeira para, por exemplo postar no seu blog, ou enviarem para o e-mail da Porta Nobre para que as possa colocar aqui.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Uma inovação da era pré-SMAS

"Acham-se terminadas as obras de melhoramentos na fonte do largo de S. Domingos mandadas fazer pela exma. camara.
Estas obras consistiram em adaptar aquela fonte a um novo sistema, em virtude do qual a água, em vez de correr permamentemente, como até agora, está represada, fazendo-se a extracção dela, quando é precisa, por meio de umas válvulas que se abrem puxando uns botões de metal amarelo, colocados um pouco abaixo das bicas e fora dos tanques.
Para este fim foi substituído o antigo tanque, que tomava toda a largura da fonte, isto é, as duas bicas, por dous pequenos, em arco de circulo, aos cantos, por baixo de cada uma das bicas.
Estas não estão completamente estanques, deitam, porém, apenas a porção de água necessária para encher os pequenos tanques, a fim de servir quando seja necessária para os incêndios ou outro qualquer uso não proibido pelas respectivas posturas.
É a primeira fonte deste género no Porto e constitui de certo um melhoramento de grande vantagem para o abastecimento regular de um dos elementos mais indispensáveis à vida.
A transformação das fontes da cidade segundo o novo sistema parece ser o que asseguraria uma regularidade a todos os habitantes.
Com efeito é como tentativa para esse fim, segundo nos informam, que a exma. camara mandou proceder à inovação que noticiamos.
Oxalá que esta produza os resultados que se tiveram em vista, e os quais se tornem a mais persuasiva prova da vantagem de a adaptar geralmente.
Como tudo que tem o sabor da novidade atrai os curiosos, a fonte de que nos ocupamos, com as alterações que se fizeram, tem sido o ponto de reunião de um não pequeno número deles, a verem como funciona o novo sistema.
Os aguadeiros é que, totalmente alheios à combinação dele, dão ao démo a engenhoca, atribuindo aos defeitos do sistema o que apenas é efeito do desajeitado modo de se servirem dele.
O Commércio do Porto, 10 de Abril de 1870

Esta fonte estava embutida no prédio hoje ocupado pela Papelaria Araújo e Sobrinho, na montra quem tem o trabalho de cantaria, adorno da própria fonte. Desta apenas resta o brasão da cidade, colocado à entrada do jardim do Edifício do SMAS.

Era nos baixos do actual Palácio das Artes que se encontrava, à época, uma autobomba dos bombeiros nesta era pré-automóvel; pelo que, provavelmente terá sido essa proximidade a razão da escolha da fonte de S. Domingos para teste desta inovação...?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Alameda de Massarelos


Nos finais do século XX



E no início do mesmo século.