domingo, 6 de dezembro de 2009

O Botequim do Pepino

"Houve na rua de Cima do Muro, nesta freguezia de S. Nicolau, um pouco ao poente do Postigo dos Banhos, um botequim, que se tornou celebre e conhecido como nenhum outro no Porto e fóra do Porto, até mesmo na Inglaterra, na Russia, na Alemanha, na França, etc.

Era publico e notorio, que n'aquelle botequim ou casa de café e bebidas, foram roubados e mortos muitos marinheiros inglezes e d'outras nações, e é certo que aquella casa esteve muitos annos debaixo da vigilancia das auctoridades locaes, persistindo, a despeito de toda a vigilancia policial, os boatos mais aterradores: até que a casa foi expropriada e demolida pela camara, como todas as circumvisinhas, para a abertura da rua da Nova Alfândega - sem se apurar o fundamento de tão sinistros boatos.

É certo que aquelle botiquim, todas as noites se enchiam de mulheres perdidas, marujada, principalmente estrangeira, e homens de má nota; que alli havia musica e danças (cancan) deshonestas, e um arruido infernal até deshoras; - que alli houve por vezes rijo bofetão e grossa pancadaria, - e que muitos dos freguezes, nomeadamente maritimos russos, inglezes e allemães, lá pernoitavam, estirados no chão, com o peso do vinho, até ao dia seguinte, - dizendo as más linguas que eram embriagados artificialmente, e de proposito, pelo dono da casa, para os roubar, quando levavam consigo dinheiro, e que depois os lançava ao rio. E acrescentavam - que muitos cadaveres appareceram no Douro, que se disse serem maritimos estrangeiros que se afogaram casualmente, quando a verdade era - que haviam sido roubados e assassinados no maldito botequim...

Nunca pôde averiguar-se bem a cousa, mas parece vir a proposito o aphorismo - vox populi, vox diaboli!...

O proprietario d'este... botequim, enriqueceu com o seu ignobil negocio, e era tão astuto que adivinhava sempre o dia e hora em que a policia vinha dar-lhe busca...

Chamava-se António Pereira Porto, por alcunha o Pepino, e por isso o seu botiquim ganhou o titulo de Botiquim do Pepino.

O tal Pereira Porto, falleceu aproximadamente em 1850, mas a viuva conservou o celebre botiquim (mas já muito decadente) até 1870 a 1871, data da demolição d'aquela rua e das ruas adjacentes."

in Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, Vol. VI, pág. 62.

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