domingo, 13 de dezembro de 2009

Entretenimentos das ruas e cafés

Apesar da estação correr pouco favorável para as diversões nas ruas e praças, o Porto está actualmente inçado de um enxame de arlequins, tocadores ambulantes, e outros indivíduos de igual género, que todos à porfia empregam os melhores meios de arranjar alguns vinténs.
O povo reune-se, gosta, diverte-se e também paga, às vezes.
São pois de todos os géneros e classes esses passatempos, verdadeiramente populares, e para enumera-los todos seria necessário dispor de mais espaço do que podemos.
No entanto ai vai uma ligeira resenha deles:

Principiando pelos arlequins, mencionaremos em primeiro lugar a companhia do Cavalo, como lhe chamam.
Compõem esta de dous ginastas, ou o que quer que seja, um dos quais executa jogos malabares e outro dá cabriolas, e faz dançar nos pés uma tranca. Faz parte da companhia um cavalo amestrado, que, sob a indicação do mestre, diz as horas que são e indica a mulher mais bonita do grupo que se forma em torno, o que é sempre uma honra galhofeira para a indicada, que às vezes cora e baixo os olhos, quando o cavalo para defronte dela a fazer-lhe cumprimentos na cabeça. Há grande risota entre os espectadores, algumas mordidelas de beiços de inveja das excluídas e tudo isto acompanhado ao som da orquestra, que se compõem de um cornetim e um tambor.

Segue-se outra companhia, composta de dois arlequins e dois garotos, que acarretam, o primeiro um tambor e o outro uma mesa e todos os aprestos precisos para as sortes.
Esta companhia nada oferece de notável, senão as figuras, quasi horripilantes, dos dous artistas. Ao vê-los, dir-se-iam mais dous esqueletos movidos por desconhecidas molas, do que seres viventes.
Estes desgraçados, para conseguirem fazer alguma cousa, chafurdam-se na lama da rua, e ao levantarem-se, tornam-se ainda mais horrendos pela desordem e hediondês dos vestuários.

Vem em seguida a companhia da mulher das forças, de que já tivemos ocasião de falar em tempo; desde então a companhia não sofreu alteração, a não ser uma criança que a mulher das forças traz sempre ao colo, e que parece ser seu filho, companheiro já dos trabalhos dos seus pais, e herdeiro das lantejoulas e farrapos vermelhos dos mesmos, com que um dia se adornará talvez para honrar a arte dos seus progenitores.

Sucedem-se uma série de especuladores, entre os quais ocupa o primeiro lugar a dos pássaros sábios.
Este procura sempre pelo teatro das suas exibições as entradas dos mercados, e os lugares de mais trânsito.
Os pássaros, que são todos canários, acham-se engaiolados, estando as gaiolas montadas sobre uma tripeça. Próximo da gaiola há uma pequena caixa de folha, cheia de papeis impressos e fechada, contendo, em 4 linhas, as sinas ou a revelação do futuro de qualquer indivíduo.
Chega-se, e este é o caso mais ordinário, uma criada de servir, dá 10 reis ao homem, produto quasi sempre da economia que fez nas compras, aquele abre a porta da gaiola, sai um pássaro e com o bico tira um dos papelinhos da caixa de latão, que o homem entrega à criada, dando depois alguns grãos de painço ao sábio passarinho.
Esta recompensa, é o segredo do engenho das pequenas aves.
A criada, com o papel na mão, como quasi sempre não sabe ler, pede a alguém que lho leia e acha sempre quem se encarregue de lhe explicar as misteriosas palavras do conteúdo no bilhetinho. Feito isto, lá vai, ora risonha, ora triste, conforme a revelação ministrada pelo inocente canarinho.
Esta especulação produz sempre bons lucros para os donos dos pássaros, o que quer dizer que há sempre um crescido número de parvos a consultar o oráculo.

Ocupa o segundo lugar a especulação dos barquilhos, verdadeiro engodo da rapaziada, que acha meio de arranjar os cinco reis, para os empregar naquela gulodice.
O homem dos barquilhos para em qualquer lugar mais concorrido, e poe diante de si uma caixa, que tem na tampa uma espécie de roda da fortuna. O rapaz dá cinco reis, move a roda que faz girar uma pequena esfera; esta vai cair em uma cavidade, e segundo o número que ela tem pintado, ganha outros tantos barquilhos, que ele bem depressa faz chegar ao estômago.
Os barquilhos são umas pequenas pastas feitas de massa de obreias com açúcar. Este petisco é a suprema palavra de pastelaria para o rapazio.

Há finalmente os músicos dos cafés, entre os quais merece o primeiro lugar a orquestre do Boca Seca.
A orquestra do Boca Seca compoem-se de uma família; pai, mãe e uma filha. Aquele a a filha tocam ambos rebeca, e a mãe viola francesa.
Entram todas as noutes nos principais cafés e tocam diversos trechos de óperas, marchas e músicas de dança, algumas pelos papeis que trazem.
Chamam-lhe a orquestra do Boca Seca em consequência do regente, que é o chefe da família, estar a cada passo a dizer que tem a boca seca, mesmo depois de beber dez ou quinze, e às vezes mais, copos de cerveja, que os ouvintes lhe oferecem. Torna-se notável este homem senão pelo género musical, pela quantidade de cerveja que bebe em cada noute.
Toda a família traja com bastante decência, e como alem disso se extremam do vulgar no que tocam, tem entrada em todos os cafés.

Seguem-se ainda dous outros músicos ambulantes espanhóis, pai e filha, que tocam, o primeiro bandolim e a segunda violão. Esta chama-se Manuelita e também canta.

Alem destes vagueia pela cidade uma multidão de crianças que onde quer improvisam concertos de harpa e rebeca, tormento tão flagelador como o dos realejos.

in O Commércio do Porto, 13 de Janeiro de 1870

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