quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Campo Martires da Pátria

Excertos de um texto de Horácio Marçal publicados n' O TRIPEIRO, volume 2, Série VI (1962), referente a um casario já desaparecido no Campo dos Martires da Pátria:

“(...) Vamos agora, então, com a requerida meticulosidade, informar os nossos amáveis leitores acerca do que foi este desaparecido largo do burgo portuense[o largo do Olival], que hoje (...) está incorporado no Campo dos Mártires da Pátria, pelo simples motivo de se ter libertado, no ano de 1853, de uma possante barreira que o separava deste campo.
Constituía essa grossa barreira, uma série de prédios que corria sobre a linha da muralha de D. Fernando, que ali tinha uma porta – a Porta do Olival – e duas altas torres, no meio das quais, em 1693, segundo a letra do testamento com que faleceu o Padre Baltazar Guedes (...) havia um Cemitério. (...)

Como iamos dizendo, essa série de casas, ficava entre o actual prédio onde funciona a farmácia Antiga da Porta do Olival, no alto da Rua da Assunção, e a Igreja de S. José das Taipas, e apenas era interrompida pela citada Porta do Olival, que ficava fronteira à Rua de S. Bento da Vitória e por uma curta ladeira ou rampa que dava acesso imediato À Cadeia da Relação.
Pelo espaço vazio dessa rampa, que ficava mesmo defronte das janelas das enxovias, assistiam os presos às execuções da pena última em forca levantada para o efeito no centro da Praça da Cordoaria.
(...)

Dessa correnteza de casas, ainda podem ser vistas duas do lado da Rua da Assunção e outras duas da banda da Rua do Barbosa de Castro que, por um feliz acaso, escaparam à acção demolidora do camartelo municipal.
As duas primeiras, assentes num patamar de pedra com três degraus, têm presentemente os números 123 a 128. Numa funciona uma barbearia e noutra, na que contorna para a Rua de Trás, permanece, com uma existência muito razoável, o velho cafá Porta do Olival.
Qualquer delas mostra bem a sua ancianidade.
As duas últimas, de dois andares e também precdedidas de um patamar ou plataforma acima do nível da rua, têm actualmente os números 164 a 169 e situam-se junto da chamada Casa Sandeman, começada a construir no ano de 1853.
Estas moradias, que se apresentam relativamente conservadas no seu exterior, pertenciam, em meados do século passado, a umas escalvadas, conhecidas no lugar pela antonomásia de “as do Linhol”, que ali dirigiam um bom estabelecimento de mercearia e quejandos.

Todos esses prédios fronteiriços à Cadeia da Relação, num total de 16 e com a numeração – da época, entenda-se – de 70 a 107, começaram a ser demolidos em 11 de Outubro de 1853.
A primeira casa das arrasadas, que ficava entre a Porta do Olival – para onde também fazia frente – e o actual e já aludido prédio do Café Porta do Olival, tinha os nºs 70 e 71. Na loja exercia a sua actividade uma louceira; e, nos andares superiores, viviam os descendentes de um Domingos Vitória, que era pintor e fabricante de polimento e de lamparinas.
A face voltada à Porta do Olival, com três portas e três janelas, do meio para baixo, era parte do antigo muro da cidade.

Do outro ângulo da Porta do Olival, par ao poente, seguiam-se quatro prédios de três andares, tendo os dois últimos varandas de madeira. Todos elas possuíam loja com duas portas, à excepção do segundo que mostrava uma janela além das portas, e neles comerciavam várias louceiras.
Entre o 3º e 4º prédio, havia um vão ou pequena viela tapada comportas nos extremos, onde os soldados da Guarda da Cadeia, tinham uma cloaca (ou instalações sanitárias, como agora se diz e escreve) para a qual subiam, pelo lado da Cadeia, por uma escada de madeira.
O sexto prédio, igualmente de três andares e com estabelecimento, de três portas ocupado também por uma louceira, era dos melhores deste correr, porquanto era o único que ostentava varandas de ferro – um luxo nesse tempo.
Na altura da destruição rendiam anualmente, 19 moedas (91$200 réis) e antes chegara a render 25. A Câmara, aquando da expropriação, deu pelo prédio à sua proprietária - uma senhora D. Joana viúva de um cirurgião que lá chegara a viver – a quantia de 1.200$00 réis.

Desta casa até à rampa de comunicação à Cadeia, seguiam-se mais cinco moradias de dois andares, todas elas com estabelecimentos ao rés-do-chão.
Daqui para baixo, seguiam-se mais sete moradas de casas.
A primeira fazia ângulo com a tal rampa de acesso à Cadeia, para onde se abria uma porta – nº 97 – e uma janela de sacada com varandas de madeira e nela habitava uma toucinheira.
Para este lado, devido ao acentuado declive da rua, só tinha um andar; e, para a banda da Cordoaria, apresentava dois.



As três casas seguintes, com varandas de madeira nos primeiros andares e janelas de peitoril nos segundos, de igual modo tinham lojas ao rés-do-chão e todas elas se mostravam sobremaneira arruinadas. A quinta casa, em estado ruinoso, só tinha um andar e loja, e as suas traseiras, correspondiam exactamente às traseiras de uma outra casa que de igual forma fora demolida (em Dezembro de 1853) à esquina da Rua das Taipas, frente À Travessa de São Bento.

As duas restantes, que eram as duas últimas desta carreira não chegaram a ser demolidas por estarem em bom estado de conservação e por não implicarem em nada, como o projectado alargamento da Praça da Cordoaria, nem com o desafogo que pretendiam dar ao severo edifício da Cadeia da Relação.
Como é notório, estas duas casas de aparência modesta para a actualidade e que na altura haviam sido, ambas elas, avaliadas em 6.000$00 réis, ainda existem relativamente bem conservadas.

Foram portanto, nesse ano de 1853, destruídos 16 prédios (assim como um no cunhal da Rua das Taipas), cujas traseiras de madeira enegrecida, davam para o antigo Largo do Olival.
Todas essas casas, bastante velhas, estavam arrendadas a vários comerciantes e industriais, que, nos baixos, tinham as suas lojas ou as oficinas.
Contudo, aos restantes místeres, sobrelevavam-se as vendedeiras de louça de barro amarelo, vermelho ou preto, que ali estavam representadas em larga escala."

Hoje, em 2009, as duas casas do lado das Taipas já não existem. No seu local ergue-se duas fiadas de árvores bem como o arruamento que foi puxado um pouco mais a sul, depois da granitização do Campo Mártires da Pátria.
Numa dessas casas, existia nos anos 80/90 uma tabacaria, onde cheguei a comprar algumas revistas ou doces quando vinha da Escola.
Subia-se para essa loja precisamente por uns degraus de pedra, tal como na outra banda - única que agora existe - onde se encontra o café Porta do Olival.

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