terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uma achega para a história da Extinção do Convento de S. Domingos

Vasculhando o books.google.pt em busca de referências ao convento de S. Domingos, surge, no Diário do Governo de Quarta-feira, 16 de Outubro de 1822; uma indicação do deputado(?) Ferreira Borges, referente à cidade do Porto, que, nas suas palavras "carece essencialmente de algumas cousas, que em parte estão ao alcance do governo e em parte cumpre que ele seja autorizado por este Soberano Congresso". Esta divide-se em várias alienas, e a §8 reza assim:

Que o Governo exija da Comissão Fiscal o resultado da diligência, que lhe incumbira por portaria de 24 de Novembro de 1821, acerca do local, e plano de edificação de uma nova alfândega, com capacidade própria a receber, e guardar todos os géneros, havendo-se em contemplação a indicação,que já fiz lembrando o Convento de S. Domingos, como o mais adaptado pela sua proximidade ao lugar da descarga, sua grandeza, e pouca despesa, na redução à forma de armazéns, à qual se acha reduzido desde o incêndio o Corpo da Igreja Velha (...)

Seguem-se uma enumeração de benefícios quer para o Estado, quer para as pessoas que de alfândega fazem uso; tais como a secessão de pagamentos de aluguer de armazéns que se encontravam dispersos pela cidade, causando transtorno ao próprio despacho do serviço da alfândega, e mesmo o alívio do incomodo dos negociantes, que tem muitas vezes de beneficiar seus géneros em desvairados(1), e às vezes mui distantes lugares, e sempre despacha-los em lugar diferente.

Daqui vemos que, também ao estado interessaram aqueles chãos, que os dominicanos tinham já arrendado a vários inquilinos, inclusive a sua Igreja (gótica) Velha, arruinada depois do incêndio de 1778 (outro a arruinaria de vez em 1832, aquando do episódio do cerco do Porto, durante a guerra civil).

Quanto à nova alfândega, essa só nos meados dos anos 50 daquele século se iniciaria a sua construção, no areal de Miragaia (também conhecido como praia), arrastando-se a sua construção por várias décadas. Hoje, esse edifício alberga o Museu dos Transportes e Comunicações.

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1) - palavra de saboroso sabor medieval, com o significado do actual variado, e ainda em uso na boca das pessoas mais influentes do país no século XIX!

3 comentários:

  1. Caro,

    Sim, chamava-se Soberano Congresso às Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa que tiveram início em 24 de Janeiro de 1821 no Palácio das Necessidades, resultado das eleições de 20 de de Novembro de 1820 e fruto da Revolução liberal de 24 de Julho do mesmo ano.

    E com efeito o Convento de S. Domingos, na altura ainda habitado por alguns frades, esteve para ser o novo edifício da Alfandega. As lutas políticas, as guerras civis e a instabilidade do país adiaram o projecto até à Regeneração (1851), quando finalmente o país encontrou paz e pode dar andamento a uma série de projectos que há muito aguardavam resolução. a alfandega foi um desses, mas na altura, já o velho edifício não era conveniente, nem solução de recurso, como no tempo de Ferreira Borges, optando-se por projecto novo, de raiz.

    Ferreira Borges deveria ter alguma coisa pessoal com os dominicanos, pois uma vez no poder, de imediato e pela calada de uma noite de 1835 mandou destruir a igreja dos Terceiros na embocadoura da rua que veio a receber o seu nome...

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  2. Caro Gabriel,

    Obrigado pelo esclarecimento em relação a este ponto.

    Concordo consigo quanto à motivação "oculta" que a moveu, para que esta se desse daquela forma.

    É um pouco anacrónico, a meu ver, que essa rua tenha o nome de uma pessoa que, à luz do pensamento do século XX/XIX, cometeu um crime patrimonial contra a cidade.
    Mas estavamos em pleno século XIX, e nessa altura, como facilmente qualquer pessoa que se interesse pela história do Porto poderá constatar, isso era de menor importância.

    Eventualmente esse senhor terá deixado obra no Porto que o justifique.

    Quanto à igreja, resta-nos o desenho de Vilanova...

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  3. Bem, tirando esses pontos infelizes que devem ser lidos à luz da época, na verdade o Ferreira Borges foi uma personalidade importante, mesmo para a cidade.
    Foi um dos revolucionarios de 1820, criou o tribunal de comercio, na bolsa, foi redactor do codigo comercial e um importante pensador economista.

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