domingo, 22 de novembro de 2009

"Tem a palavra o nosso velho Porto"

"Estamos no Palácio de Cristal para cumprir as ordens de S. Majestade, El-Rei D. Pedro IV, que nos encarregou de falar ao Sr. Porto, guerreiro reformado, sem vencimento, e que vive por esmola num lugar triste, feio e ignorado dos jardins do mesmo Palácio.
- Quem anda aí? - perguntou o senhor Porto, quando nos sentiu os passos.
- Sou eu meu velho e querido amigo.
- Ah, logo vi. Parece que és a única pessoa que sabe o sítio do meu desterro.
- Desterro?! - repetimos nós a palavra, num arrepio confrangedor.
- Desterro, sim. Que é isto, senão a expatriação, o exílio, o degredo? Sou um exilado original, não achas? Desterrado dentro da minha própria terra... Tem graça!
- Vim em má ocasião. O senhor Porto está hoje muito pessimista.
- Pessimista? O que eu estou é desiludido. Transformaram-me num ceptro de pedra, com um escudo de papelão e uma lança de madeira. Que mal fiz eu aos meus filhos - ai queridos tripeiros da minh' alma - para receber a negra afronta de me sepultarem em vida? Olha para o triste cenário que me cerca. Por detrás, as grades de uma prisão; na frente, quase sempre, uma barraca de comes e bebes, e aos lados, troncos de árvores que, em noites de invernia, estendem para mim os seus tentáculos de insónia e desespero, fustigando-me com as folhas secas, amarelas, apodrecidas - tapete de lama e lodo, que me rodeia de humidade, de desconforto e de miséria. Porque me colocaram neste sítio, num sequestro de vilipêndio e de escárnio? Queriam trazer-me para o Palácio? Pois bem: colocassem-me no largo espaçoso e belo da entrada, ao centro, num pedestal elevado, rodeado de arbustos e flores, onde eu os visse a todos e todos pudessem ver este velho guerreiro que, desde 1819, é o símbolo sagrado desta antiga, muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto.
Sabes lá o que eu tenho sofrido durante a minha longa vida de 132 anos!
- Não esperava vir encontrá-lo tão azedo e revoltado senhor Porto.
- Eu logo vi! Até tu acompanhas a ladainha dos outros. Quando em me lastimo das afrontas que me fazem, quando eu exijo, com dignidade e razão, que me coloquem no sítio onde devo estar, atiram-me logo com o epíteto de revoltado. Irra, já é mania! Todas as outras minhas irmãs são tratadas com mimos e carinhos e rodeadas de mil atenções e obséquios. Nada lhes falta, é só pedir por boca. E eu, que sou o único homem da família, eu, que trabalho dia e noite para angariar o meu sustento e o delas, tenho de ver calar e sofrer. Ah, meu velho amigo, quando estava na Praça Nova, em cima do Edifício da Câmara, altivo, varonil, enérgico, senhor do meu valor e da minha força, as coisas corriam de maneira bem diferente.
Mas, em 1916, puseram-me fora de casa, deram-me ordem de despejo, e aí principiei a correr o meu calvário afrontoso, até chegar a esta situação triste e desoladora. Eu, que devia estar sempre mais alto que todos os outros, vejo-me aqui metido neste jazigo, nesta cova, para onde quem me visita tem de descer, quando devia subir, e subir muito, para poder chegar até mim. Verdade seja que ninguém me vem visitar. Nas noites de S. João, quando o picadeiro da Avenida se agita num mostruário de beleza e de encanto, aparece de longe a longe um parzinho que troca furtivamente um beijo, ou, então, alguma senhora que aproveita o esconderijo das árvores para repuxar a meia nylon e desembaraçar-se da cinta que a oprime e magoa, apertando-lhe o estômago e obstruindo a circulação do bacalhau cozido e da costeleta de porco. Nas noites de Feira Popular, as visitas são outras. Há muito ruído, mais alegria , mais vinho. E, por isso, à vontade, sem cerimónia, surgem fantasmas por todos os lados, que imitando os cães, e mesmo sem alçarem a perna, se entretém a humedecer-me o pedestal, cantando e rindo, numa atitude franca de irreverência de de alivio! Mas, quer seja a menina chique, ou simples gente do povo, o que é certo é sofrerem todos da mesma incultura, da mesma falta de educação e da mesma ignorância. Não sabem quem eu sou! Quem conhece o velho Porto? Ninguém!

Aproveitei aquele trágico "ninguém!" do Frei Luis de Sousa, para interromper o velho Porto e desempenhar-me da missão que me tinha incumbido Sua Majestade o Rei-Soldado.
-Ora bem! Essa reclusão, esse exílio, esse degredo vão terminar. O Senhor D. Pedro IV pretende abandonar o lugar que ocupa na Praça Nova. Trespassa o estabelecimento sem luvas e para qualquer negócio. E, como velho amigo e confidente do Sr. Porto, teria muita honra que fosseis vós quem o substituísse, encarregando-me de vos participar o seu desejo.
- Ah! Ah! Ah! - riu, com vontade, o nosso guerreiro - Quer ver-me no seu lugar, e para quê? Se não fazem caso de um rei, muito menos se dignarão reparar num pobre diabo como eu! Ele ainda tem o grande reclamo do bucéfalo, que é o maior atractivo do monumento; agora eu, que figura posso fazer, sem cavalo, sem patas, sem rabo e sem ter a carta na mão?! Nada, diz-lhe que não aceito. E tenho pena, porque ali, no centro da nossa querida Praça Nova, é que é o meu verdadeiro lugar. Quando o D. Pedro para lá foi, já eu estava à 47 anos em cima do edifício da Domus, vendo, analisando e presidindo a todas as manifestações de dor e de alegria, de amargura e de entusiasmo, de fracassos e de vitórias, de rebeldia e de perdão!
- Perdão! É o que peço por vos interromper, mas que pretendo saber é a resposta que hei-de dar ao senhor D. Pedro IV.
- Que ele continue na praça, ou que deixe o emprego, pouco me importa. Para lá é que eu não vou. E para onde tenciona ir sua Majestade?
- Não mo disse.
- Certamente irá para o Brasil. Foi de lá que ele veio, é de lá que ele deve voltar. Nas margens do Ipiranga, soltou o grito de: "Independência ou morte!"; depois, veio para as margens do Douro, gritar: "Liberdade e Constituição!"; e agora, com certeza, ao chegar ao Rio de Janeiro soltará outro grito qualquer, visto ser essa a especialidade de Sua Majestade. Diz que está desgostoso... Que hei-de dizer eu? Entre mim e ele há uma grande distância. O senhor D. Pedro IV foi uma figura que passou, eu sou uma figura eterna. O Rei-Soldado deve-me a mim, ao Porto liberal, o estar colocado no pedestal da fama e da glória. Custou-me muito. Perseguições, guerra, miséria, fome, tudo sofri para que ele subisse e triunfasse, alcançando a vitória que tantas vezes sentiu escapar-se e fugir-lhe para as hostes contrárias. Se não fosse eu, a minha indomável energia, a minha espartana coragem, quem estava na Praça, em cima do mesmo cavalo, com a mesma farda, com a mesma espada e com o mesmo chapéu era o mano Miguel, cuja falange de combatentes era também aguerrida e com muitos simpatizantes.
- O senhor D. Miguel estaria lá com isso tudo, como o senhor Porto diz, mas o que nunca podia, ter na sua mão direita, era a Carta Constitucional, verdadeira cartilha de regalias de um povo.
- Sim, é verdade. - confirmou o velho Porto - Não tinha essa tal carta, cartinha ou cartilha, como tu dizes, mas podia segurar na mão um livro de missa e um rosário, armas que ao senhor D. Miguel, serviam para conquistar a terra e o céu. E, agora, deixa-me em paz. Prefiro viver a minha dor a sós comigo. Passo horas e horas a relembrar o meu glorioso passado e, quantos mais recordo, mais choro o meu negro e amargurado presente. Para que havia eu de voltar para a Praça Nova se, como já te disse, ninguém sabe quem sou e ninguém me daria a esmola de um olhar!...
- Está o senhor Porto enganado. Eu não lhe vinha falar, se não tivesse dentro do cérebro uma ideia genial, um projecto maravilhoso que me garante a certeza de que toda a população da cidade o vai olhar com respeito e admiração.
- Isso é lá possível!
- É. O meu querido Porto vai figurar na Praça em substituição do senhor D. pedro IV, tal qual como está aí, com esse capacete, com essa clâmide, com essa lança, com esse escudo e...
E nada! - berrou o simbólico guerreiro, algo irritado - Se apareço tal qual como estou, continuo a ser um ilustre desconhecido.
- Confie em mim. Há só uma pequena alteração a fazer. É a seguinte: o escudo que o meu velho amigo tem à sua esquerda, e que está em branco e nada diz, será utilizado para publicarem nele as sensacionais notícias desportivas. E, quando aos domingos, o povinho tripeiro, no meio de intensa e febril curiosidade pudesse ler, nesse escudo glorioso: - "Porto, 5; Benfica, 2", o senhor verá com que alegria, com que entusiasmo, com que delírio o aclamam aos gritos de:- "Viva o Porto! Viva o Porto! Viva o Porto!"
- Olhe lá, ó menino, isso é verdade?
- Acredite no que lhe digo. Eu conheço a gente da minha terra.
- Se assim é, conta comigo. Vai dizer ao senhor D. Pedro IV que aceito a transferência e lhe agradeço a lembrança. Ah! E, já agora, pedia-te o favor a ver se conseguias mudar o nome à Praça. Como sabes, tem-se chamado muita coisa - Praça Nova das Hortas, Praça da Constituição, Praça de D. Pedro, Praça da República (só meia dúzia de dias) e, finalmente, Praça da Liberdade. Tudo títulos velhos, gastos e fora de moda.
- Tem razão. Eu já tinha pensado nisso. E arranjei um título bestial - "Praça da Bola"! Hein, que tal? Está contentinho?
- Se te parece! Isto é que se chama andar com sorte! - exclamou, sorridente, o nosso sempre amado Porto.
E, logo, numa reviravolta súbita, mostrando na face austera um ricto de amargura imensa, suspirou entre soluços de dor e lágrimas de sangue:
- Passei de guerreiro a guarda-redes!..."
Arnaldo Leite in O Tripeiro, 5ª Série, Ano VII (1951)


Ontem fui eu mesmo visitar o velho Porto. Encontrei-o, penso, mais triste e amargurado do que Arnaldo Leite à 58 anos atrás.
Deu-me dó ver o desprezo e o abandono a que votaram o Porto. Ali está ele, virado para uma parede de vidro, suja; uma casa(?!) fechada, onde nada se descortina lá dentro. Onde não há vida, não há movimento, não há nada!
Sempre era melhor o terem posicionado ao contrário, para poente. Pelo menos, quem passasse na rua de S. Sebastião poderia contempla-lo ali, altivo, mostrando com orgulho o seu peito pétreo! Fazendo com isso o que Arnaldo Leite tão bem evocou, dando-lhe, "a esmola de um olhar!"
Eu, confesso, não me atrevi sequer a dirigir-lhe a palavra! Notava-se na sua cara que ele estava revoltado. Revoltado com a cidade? Revoltado com as pessoas que a dirigiram, dirigem e... dirigirão? Com quem põe e dispõe em nome de um povo que na maioria das vezes está contra essas decisões arbitrárias, parciais e egocêntricas?... Cansado e farto desse tipo de gente estará já, certamente, este ancião de 190 primaveras. Imagino quanta vezes já não lhe deve ter passado pela cabeça que estaria em melhor lugar se armazenado no Museu Soares dos Reis, junto às outras suas irmãs não expostas... Ou, do mal o menos, voltar para os jardins do Palácio, a fazer companhia às carrancas da extinta fonte da Natividade; também elas habitantes despejas da Praça Nova...
Vim-me embora, mas não sem me aperceber de um leve sussurro. Como que um lamento ou queixume... Talvez fosse apenas o vento, roçando na pedra e produzindo aquele seu som tão característico e fantasmagórico... Ou talvez o velho fantasma de uma estátua a soluçar pelo seu fado forçado... Talvez...

Faço no entanto o apelo aos portuenses, os de coração ou de nacionalidade: Vão vê-lo! Revoltem-se! Ajudem o pobre Porto a poder de novo ser colocado em alguma praça, largo ou avenida. Enfim, num local digno do que aquela estátua já viveu e do que ela representa. Mas não ali de castigo, onde só lhe falta encaixar umas orelhas de burro na cabeça!

1 comentário:

  1. Velho Porto, vamos pugnar para que te levem para um local onde mereças ser visto e relembrado. Pelo povo real e não desses que passam a vida a esconder-te, como se fosses uma maldição

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