sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Os americanos do Porto (2)

«Fazia gosto no Inverno visitar essas estâncias, pois ouvia-se cantar o mar num sossego terreal, sem a sineta dos eléctricos, o barulhos das fábricas, o sinal acústico dos autos, o movimento intensivo comercial ou industrial. Vivia-se a vida do marítimo, quando em terra a cuidar das suas rêdes.

Com que saudade me lembro de ir até Cadouços com meus pais, almoçando-se no restaurante que havia no edifício que se encontra em tal largo, em meia-laranja, agora habitação de empregados da Companhia, infelizmente deterioradissimo(1). Num sossego paradisíaco, via-se o oceano, ouvindo-e o seu marulhar!
Esperava-se a vinda do americano que tinha ido a Matosinhos.

Para dar facilidade aos passageiros, como não dispunham de uma ponte de pedra no términus, como os da Carril, a Carris estabeleceu uma rampa de madeira até ao rio; aí, uma barcaça à vara, com assentos ao comprido, laterais e centrais, transportava os passageiros à outra margem, onde se subia uma escada para o areal, unicamente coberto nas marés; depois é que a ponte se ligou, fazendo-se o percurso seguido e em plano horizontal. Um grande melhoramento!

A colónia balnear de Leça e Matosinhos era limitada a gente quase toda cá do Porto, de modo que pela manhã, principalmente nos comboios das 8 horas e meia, 9 horas, de Matosinhos, (pois eram de meia em meia hora), viajavam sempre as mesmas pessoas, que, constituindo assim um agrupamento conhecido, vinham a esta cidade aos seus negócios ou empregos. Nesses comboios formados por três ou quatro carros, era em Matosinhos logo tomado o carro da frente, por ser o único que vinha à Praça. Regressava-se pelas três, quatro horas da tarde. Viver feliz em que se jantava às três, quatro horas - pois às cinco era luxo de que se desconfiava ou causava admiração!... A colónia inglesa é que jantava mais tarde.

Os americanos eram de várias cores, sem a uniformidade dos actuais eléctricos; iluminados a estearina aos cantos superiores direitos, tais luminárias davam uma luz mortiça para dentro; para fora, a luz era coada por vidros de cores, que deslizavam entre dois encaixes metálicos e horizontais, e combinavam as cores que indicavam os destino, lembrando-me que vermelho e verde era Matosinhos; tais cores condiziam com as das tabuletas, indicando o mesmo destino, embora tivessem o nome do lugar para onde os carros seguiam.

Foi um sucesso o novo carro 58, pintado a vermelho e branco e que apareceu iluminado a petróleo. Até parecia dia, lá dentro! Nem o bico Auer, quando surgiu nos candeeiros de iluminação pública, na rua de Santo António!(2) Que saudosos tempos!

A municipalização dos transportes(3) levou-me a recordar o passado e a pensar no que será o futuro. Pelo menos, o aumento populacional exige que os carros se multipliquem, pois ao presente é um incomodo neles andar, especialmente a certas horas; não satisfazem as necessidades públicas. Devem-se prolongar para Ramalde, Barreiros, Oliveira do Douro, igreja de Paranhos, Boa-nova e Lavadores; devem descongestionar-se as linhas usadas por eléctricos na mesma direcção, e que podem servir outras ruas alcançando o seu destino, pois os transportes colectivos são para servir o público - e por isso se municipalizam.»
Dr. Wendel dos Reis in O Tripeiro Série V, ano I, pág. 197 (Jan/1946)

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(1) Esse edifício já não existe
(2) Actual 31 de Janeiro
(3) Ver nota 1 do post anterior

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