segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Os americanos do Porto (1)

«A municipalização dos transportes eléctricos, que está em curso(1), trás-me à lembrança o que foram tais serviços já que tão velho sou, e que não fujo à regra de a minha amnésia ser dos factos de ontem - não dos da infância.

Eu sou do tempo das duas companhias de americanos: Carril do Porto à Foz e Matosinhos, e a actual Carris. A primeira tinha a via desde os Ingleses à Alameda de Matosinhos, com um ramal de Massarelos à Cordoaria; a segunda desenvolvia-se pela cidade sem os longos percursos que hoje tem, mas já ia a Matosinhos, pelo antigo Juncal de Baixo, até ao rio Leça. o salgado, hoje, substituído nesse ponto, pela doca.

Da Cordoaria partia o americano para Massarelos; a ordem de partida era dada com uma corneta, que era usada no percurso como sinal acústico.

A Carris usava o apito.

Os trilhos das duas não se ligavam; eram vias independentes, a certa altura as Companhias fusionaram-se.
O serviço era perfeito. Punha-se então em contraste com o péssimo da capital. Não havia o movimento de passageiros que hoje há, o povo não utilizava os carros; a vida decorria sem pressas.

Na linha de Circulação e Ingleses a Costa Cabral, faziam serviço uns americanos pequenos, que ainda hoje, aumentados nas plataformas , se vêem rebocados como bagageiros(2).

O acidentado da cidade impunha os sotas em diversos sítios, até para subir a pequena rampa da Carvalhosa, havendo mudas de muares no Bolhão, onde hoje está a continuação de Sá da Bandeira, cujo lado ocidental era quase todo ocupado por cocheiras.

Mas tudo era perfeito, matemático.

Naqueles americanos pequenos parecia ir-se em família! Levavam a subir da Praça até ao Marquês de Pombal uma boa meia hora - só esta enormidade! - mas porque os carros eram frequentados por pessoas que tinham residência para tais lugares, então considerados muito afastados, viajava-se com satisfação em companhia amiga.

A dificuldade de tiragem dos americanos grandes, com dez pessoas em cada bancada lateral, pelos Clérigos e Carmelitas, exigia três e quatro sotas em parelha. Não obstante, o serviço, era pontual, e da Praça de D. Pedro a Matosinhos era uma hora precisa e só custava 120 rs.

Na Rotunda, sede da Companhia, ligavam-se os carros, pois outros partiam do Carmo; formava-se o comboio, rebocado por uma máquina, que no Inverno só ia, nesses longínquos tempos, até Cadouços; aqui, a um carro engatava a parelha de muares que o levava a Matosinhos, enquanto a máquina esperava. Depois, com o desenvolvimento populacional de Matosinhos e Leça, seguia o comboio até ao final.

Que beleza a das Carmelitas, com o túnel formado pelos ramos de árvores! Um céu de folhas! Era a cerca do Recolhimento do Anjo. Beleza que a civilização repeliu...

Foz, Matosinhos, e Leça não eram os aglomerados populacionais de hoje; antes constituíam lugares tranquilos, de pouca gente, que se não deslocava como agora, mas só por uma absoluta necessidade. Os meios de transporte e o tempo perdido a tal não convidavam...»
Dr. Wendel dos Reis in O Tripeiro Série V, ano I, pág. 197 (Jan/1946)

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(1) - Aquando da escrita destas linhas a Câmara Municipal efectuava o resgate da concessão de exploração das linhas de eléctricos à CCFP (Companhia Carris de Ferro do Porto), passando esta a ter a designação que perdura de STCP. Só em 1948 é que a STCP introduziu autocarros no seu serviço.

(2) - No Museu do Carro Eléctrico podemos ver um desses carros, o 22, se bem que restaurado na sua traça original.

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