quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Bairro dos banhos - demolição em curso

Desta feita, e para variar da palavra escrita, trago um pormenor de uma foto que mostra parte das obras para a abertura da rua da alfândega nova, depois baptizada Rua Nova da Alfândega. Ajudando assim a ilustrar algumas das notícias que aqui tenho divulgado surgidas no Comércio do Porto da época.



Aqui podemos ver, por exemplo, um pouco à esquerda em baixo o Forno Velho, onde ainda se consegue descortinar pequenas ruas e escadas (vielas cujas casas do lado do rio foram já demolidas). Parte dessas casas ainda existe... é só subir as escadas do Recanto e eis que damos com um singelo mas bonito edifício que funciona agora como escola primária, precisamente um dos que aparece nesta foto.

Também à esquerda mas agora em baixo vamos o fortim da Porta Nobre. Fortim esse que foi parcialmente demolido e o restante entulhado para elevar a cota para o novo arruamento, estando hoje mesmo por baixo da entrada para o parque de estacionamento da alfândega, no antigo terminal ferroviário. A seu lado a porta que lhe dá nome, ou o que resta dela...

Correndo pela muralha (também ela soterrada, sendo aquela área todo um fóssil da cidade do século XIX) vemos uma reentrância na mesma; e nela uma outra abertura: é o postigo dos Banhos, tendo o pequeno areal que se formou na zona usado como cais para embarcações mais pequenas mas também para cargas e descargas de produtos (aquela parte de muralha fernandina que apareceu aquando das sondagens no cais da alfândega em 2004 são precisamente desta área). Toda este correr de muro ia ligar ao denominado Muro dos Bacalhoeiros. E, mesmo antes da parte desse muro que sobreviveu à hecatombe ficava o Postigo da Lingueta ou do Pereira (que não aparece na foto).

Também desaparecidos, vemos em segundo plano uma capela, dedicada a Santo Elói, que se encostava à igreja do convento dos Franciscanos, cujas pedras foram levadas para a Foz e em 1884 usadas na edificação da capela de Gondarem.

Na rua do Infante, reparemos na escuridão que a ensombra. Isso dever-se-á eventualmente à luz da altura do dia em que foi tirada a fotografia, mas também porque a clareira proporcionada pela Praça do Infante ainda não existia, sendo o espaço ocupado por casas que corriam de São Francisco até à esquina com a também desaparecida rua das Congostas.

Em terceiro plano, muito daquele casario que vemos na parte superior esquerda da foto foi também ele já derrubado, sendo agora ocupado o espaço por parte da rua Mouzinho da Silveira e suas respectivas edificações do lado nascente, com frente para o Infante e mercado Ferreira Borges...

E mais se calhar se poderia dizer. Fica em aberto para os comentários, observações e eventuais rectificações que haja a fazer a este breve comentário a uma fotografia que é em si mesma, um documento histórico de grande valor.

1 comentário:

  1. Preciosíssima imagem. Há poucos anos fiquei preocupado quando vi o grande buraco que estavam a abrir no local da antiga Porta dos Banhos, por perceber que as fundações lá continuam soterradas. Imaginei que se preparasse ali alguma obra que fosse destruir um vestígio daquela importância. Mal por mal que deixassem estar enterrado como estava. Pior foi ver o tempo passar e o buraco continuar aberto, o lixo acumular-se, as ervas a crescerem. Isto esteve assim durante muito tempo, tempo que parecia arrastar-se infinitamente. Por fim lá taparam tudo outra vez. Ao menos deixem assim. No Porto, infelizmente, destruiu-se muitas coisas do seu passado histórico que, hoje, tornariam a cidade sem dúvida muito mais interessante. Mas temos de viver com as vontades de gente que não valoriza senão o dinheiro que lhe entra no bolso. O progresso não tem de significar a destruição ou desaparecimento do que existe. O progresso passa sobretudo pela adaptação às exigências do tempo que evolui. O património torna~se intemporal e deve prevalecer. Não é o que acontece, muitas vezes.

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