quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Campo Martires da Pátria

Excertos de um texto de Horácio Marçal publicados n' O TRIPEIRO, volume 2, Série VI (1962), referente a um casario já desaparecido no Campo dos Martires da Pátria:

“(...) Vamos agora, então, com a requerida meticulosidade, informar os nossos amáveis leitores acerca do que foi este desaparecido largo do burgo portuense[o largo do Olival], que hoje (...) está incorporado no Campo dos Mártires da Pátria, pelo simples motivo de se ter libertado, no ano de 1853, de uma possante barreira que o separava deste campo.
Constituía essa grossa barreira, uma série de prédios que corria sobre a linha da muralha de D. Fernando, que ali tinha uma porta – a Porta do Olival – e duas altas torres, no meio das quais, em 1693, segundo a letra do testamento com que faleceu o Padre Baltazar Guedes (...) havia um Cemitério. (...)

Como iamos dizendo, essa série de casas, ficava entre o actual prédio onde funciona a farmácia Antiga da Porta do Olival, no alto da Rua da Assunção, e a Igreja de S. José das Taipas, e apenas era interrompida pela citada Porta do Olival, que ficava fronteira à Rua de S. Bento da Vitória e por uma curta ladeira ou rampa que dava acesso imediato À Cadeia da Relação.
Pelo espaço vazio dessa rampa, que ficava mesmo defronte das janelas das enxovias, assistiam os presos às execuções da pena última em forca levantada para o efeito no centro da Praça da Cordoaria.
(...)

Dessa correnteza de casas, ainda podem ser vistas duas do lado da Rua da Assunção e outras duas da banda da Rua do Barbosa de Castro que, por um feliz acaso, escaparam à acção demolidora do camartelo municipal.
As duas primeiras, assentes num patamar de pedra com três degraus, têm presentemente os números 123 a 128. Numa funciona uma barbearia e noutra, na que contorna para a Rua de Trás, permanece, com uma existência muito razoável, o velho cafá Porta do Olival.
Qualquer delas mostra bem a sua ancianidade.
As duas últimas, de dois andares e também precdedidas de um patamar ou plataforma acima do nível da rua, têm actualmente os números 164 a 169 e situam-se junto da chamada Casa Sandeman, começada a construir no ano de 1853.
Estas moradias, que se apresentam relativamente conservadas no seu exterior, pertenciam, em meados do século passado, a umas escalvadas, conhecidas no lugar pela antonomásia de “as do Linhol”, que ali dirigiam um bom estabelecimento de mercearia e quejandos.

Todos esses prédios fronteiriços à Cadeia da Relação, num total de 16 e com a numeração – da época, entenda-se – de 70 a 107, começaram a ser demolidos em 11 de Outubro de 1853.
A primeira casa das arrasadas, que ficava entre a Porta do Olival – para onde também fazia frente – e o actual e já aludido prédio do Café Porta do Olival, tinha os nºs 70 e 71. Na loja exercia a sua actividade uma louceira; e, nos andares superiores, viviam os descendentes de um Domingos Vitória, que era pintor e fabricante de polimento e de lamparinas.
A face voltada à Porta do Olival, com três portas e três janelas, do meio para baixo, era parte do antigo muro da cidade.

Do outro ângulo da Porta do Olival, par ao poente, seguiam-se quatro prédios de três andares, tendo os dois últimos varandas de madeira. Todos elas possuíam loja com duas portas, à excepção do segundo que mostrava uma janela além das portas, e neles comerciavam várias louceiras.
Entre o 3º e 4º prédio, havia um vão ou pequena viela tapada comportas nos extremos, onde os soldados da Guarda da Cadeia, tinham uma cloaca (ou instalações sanitárias, como agora se diz e escreve) para a qual subiam, pelo lado da Cadeia, por uma escada de madeira.
O sexto prédio, igualmente de três andares e com estabelecimento, de três portas ocupado também por uma louceira, era dos melhores deste correr, porquanto era o único que ostentava varandas de ferro – um luxo nesse tempo.
Na altura da destruição rendiam anualmente, 19 moedas (91$200 réis) e antes chegara a render 25. A Câmara, aquando da expropriação, deu pelo prédio à sua proprietária - uma senhora D. Joana viúva de um cirurgião que lá chegara a viver – a quantia de 1.200$00 réis.

Desta casa até à rampa de comunicação à Cadeia, seguiam-se mais cinco moradias de dois andares, todas elas com estabelecimentos ao rés-do-chão.
Daqui para baixo, seguiam-se mais sete moradas de casas.
A primeira fazia ângulo com a tal rampa de acesso à Cadeia, para onde se abria uma porta – nº 97 – e uma janela de sacada com varandas de madeira e nela habitava uma toucinheira.
Para este lado, devido ao acentuado declive da rua, só tinha um andar; e, para a banda da Cordoaria, apresentava dois.



As três casas seguintes, com varandas de madeira nos primeiros andares e janelas de peitoril nos segundos, de igual modo tinham lojas ao rés-do-chão e todas elas se mostravam sobremaneira arruinadas. A quinta casa, em estado ruinoso, só tinha um andar e loja, e as suas traseiras, correspondiam exactamente às traseiras de uma outra casa que de igual forma fora demolida (em Dezembro de 1853) à esquina da Rua das Taipas, frente À Travessa de São Bento.

As duas restantes, que eram as duas últimas desta carreira não chegaram a ser demolidas por estarem em bom estado de conservação e por não implicarem em nada, como o projectado alargamento da Praça da Cordoaria, nem com o desafogo que pretendiam dar ao severo edifício da Cadeia da Relação.
Como é notório, estas duas casas de aparência modesta para a actualidade e que na altura haviam sido, ambas elas, avaliadas em 6.000$00 réis, ainda existem relativamente bem conservadas.

Foram portanto, nesse ano de 1853, destruídos 16 prédios (assim como um no cunhal da Rua das Taipas), cujas traseiras de madeira enegrecida, davam para o antigo Largo do Olival.
Todas essas casas, bastante velhas, estavam arrendadas a vários comerciantes e industriais, que, nos baixos, tinham as suas lojas ou as oficinas.
Contudo, aos restantes místeres, sobrelevavam-se as vendedeiras de louça de barro amarelo, vermelho ou preto, que ali estavam representadas em larga escala."

Hoje, em 2009, as duas casas do lado das Taipas já não existem. No seu local ergue-se duas fiadas de árvores bem como o arruamento que foi puxado um pouco mais a sul, depois da granitização do Campo Mártires da Pátria.
Numa dessas casas, existia nos anos 80/90 uma tabacaria, onde cheguei a comprar algumas revistas ou doces quando vinha da Escola.
Subia-se para essa loja precisamente por uns degraus de pedra, tal como na outra banda - única que agora existe - onde se encontra o café Porta do Olival.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Planta da Cordoria



Nesta planta de Setembro de 1850 vemos alguns edifícios que chegaram até aos nossos dias, como é o caso da Cadeia da Relação, o Hospital de Santo António (vê-se uma nesga, em baixo à esquerda) ou a igreja de S. José das Taipas.

Outros também se vêem, no rol dos edifícios já desaparecidos temos: a Igreja dos Padres Trinos (segundo a designação que Pinho Leal lhe atribui); a seu lado, o edifício da Roda; temos também o Mercado de Peixe (ainda não construído e apenas inaugurado em 1874); e finalmente no lado superior esquerdo vemos a igreja da Graça e suas dependências anexas, em parte já "engolidas" pelo edifício da Faculdade de Ciências, edifício esse que levaria quase 100 anos a completar-se, sendo a Igreja da Graça apenas demolida no início do século XX.

A planta revela também como era o traçado das ruas naquela zona. Em frente ao Hospital de Santo António verificamos que parte daquele casario ainda sobrevive, indo do Largo do Professor Abel Salazar, até à Praça de Parada Leitão.
Constata-se que existiam uma rua bem delineada que saia da antiga Porta do Olival em direcção à Praça Carlos Alberto e Cedofeita...
O casario em frente à Cadeia da Relação ainda existia, casario este que substituíra in loco a muralha fernandina, adivinhando-se-lhe o traçado pela linha marcada pelas casas a nascente da rua Barbosa de Castro, as atrás mencionadas (e demolidas), ligando com o Largo do Olival.

Notar também que, no casario entre o Hospital e a Igreja da Graça, quer o quarteirão mais a poente, quer o mais a nascente já não existem; estando o primeiro ocupado pelo Largo Professor Abel Salazar e a área do segundo incorporada na Praça de Parada Leitão, sendo o correr de casas onde está o famoso Piolho pertencente a esse antigo arruamento (viela?).

Na legenda da planta, são apontados quase todos os edifícios que aqui mencionei, declarando numa pequena nota que os que se encontram em frente à cadeia da relação vão ser demolidos, o que veio efectivamente a acontecer três anos depois.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Feira dos Criados

A propósito da feira dos criados de lavoura que tinha iniciado no dia anterior, dá O Commércio do Porto a seguinte nota pitoresca na sua edição de 29 de Março de 1870:

"O criado que quer ser contratado pega em si, embrulha em um lenço alguma roupa que constitui toda a sua riqueza e bens, e dirige-se à Praça Carlos Alberto, onde se posta à espera que algum lavrador o vá assoldadar.
Se chega um proprietário, mede-o de alto a baixo, avalia por esse exame o seu grau de robustez e agilidade e pergunta-lhe por quanto o quer servir, no caso de lhe agradar o tipo. Entra então em ajuste, e se o contrato se efectua, lá segue o criado atrás do seu novo amo, tendo-se antes legalizado o contrato em alguma das tabernas próximas da feira, por meio de um copo de vinho e de algum petisco."

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uma achega para a história da Extinção do Convento de S. Domingos

Vasculhando o books.google.pt em busca de referências ao convento de S. Domingos, surge, no Diário do Governo de Quarta-feira, 16 de Outubro de 1822; uma indicação do deputado(?) Ferreira Borges, referente à cidade do Porto, que, nas suas palavras "carece essencialmente de algumas cousas, que em parte estão ao alcance do governo e em parte cumpre que ele seja autorizado por este Soberano Congresso". Esta divide-se em várias alienas, e a §8 reza assim:

Que o Governo exija da Comissão Fiscal o resultado da diligência, que lhe incumbira por portaria de 24 de Novembro de 1821, acerca do local, e plano de edificação de uma nova alfândega, com capacidade própria a receber, e guardar todos os géneros, havendo-se em contemplação a indicação,que já fiz lembrando o Convento de S. Domingos, como o mais adaptado pela sua proximidade ao lugar da descarga, sua grandeza, e pouca despesa, na redução à forma de armazéns, à qual se acha reduzido desde o incêndio o Corpo da Igreja Velha (...)

Seguem-se uma enumeração de benefícios quer para o Estado, quer para as pessoas que de alfândega fazem uso; tais como a secessão de pagamentos de aluguer de armazéns que se encontravam dispersos pela cidade, causando transtorno ao próprio despacho do serviço da alfândega, e mesmo o alívio do incomodo dos negociantes, que tem muitas vezes de beneficiar seus géneros em desvairados(1), e às vezes mui distantes lugares, e sempre despacha-los em lugar diferente.

Daqui vemos que, também ao estado interessaram aqueles chãos, que os dominicanos tinham já arrendado a vários inquilinos, inclusive a sua Igreja (gótica) Velha, arruinada depois do incêndio de 1778 (outro a arruinaria de vez em 1832, aquando do episódio do cerco do Porto, durante a guerra civil).

Quanto à nova alfândega, essa só nos meados dos anos 50 daquele século se iniciaria a sua construção, no areal de Miragaia (também conhecido como praia), arrastando-se a sua construção por várias décadas. Hoje, esse edifício alberga o Museu dos Transportes e Comunicações.

______________
1) - palavra de saboroso sabor medieval, com o significado do actual variado, e ainda em uso na boca das pessoas mais influentes do país no século XIX!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Entretenimentos das ruas e cafés

Apesar da estação correr pouco favorável para as diversões nas ruas e praças, o Porto está actualmente inçado de um enxame de arlequins, tocadores ambulantes, e outros indivíduos de igual género, que todos à porfia empregam os melhores meios de arranjar alguns vinténs.
O povo reune-se, gosta, diverte-se e também paga, às vezes.
São pois de todos os géneros e classes esses passatempos, verdadeiramente populares, e para enumera-los todos seria necessário dispor de mais espaço do que podemos.
No entanto ai vai uma ligeira resenha deles:

Principiando pelos arlequins, mencionaremos em primeiro lugar a companhia do Cavalo, como lhe chamam.
Compõem esta de dous ginastas, ou o que quer que seja, um dos quais executa jogos malabares e outro dá cabriolas, e faz dançar nos pés uma tranca. Faz parte da companhia um cavalo amestrado, que, sob a indicação do mestre, diz as horas que são e indica a mulher mais bonita do grupo que se forma em torno, o que é sempre uma honra galhofeira para a indicada, que às vezes cora e baixo os olhos, quando o cavalo para defronte dela a fazer-lhe cumprimentos na cabeça. Há grande risota entre os espectadores, algumas mordidelas de beiços de inveja das excluídas e tudo isto acompanhado ao som da orquestra, que se compõem de um cornetim e um tambor.

Segue-se outra companhia, composta de dois arlequins e dois garotos, que acarretam, o primeiro um tambor e o outro uma mesa e todos os aprestos precisos para as sortes.
Esta companhia nada oferece de notável, senão as figuras, quasi horripilantes, dos dous artistas. Ao vê-los, dir-se-iam mais dous esqueletos movidos por desconhecidas molas, do que seres viventes.
Estes desgraçados, para conseguirem fazer alguma cousa, chafurdam-se na lama da rua, e ao levantarem-se, tornam-se ainda mais horrendos pela desordem e hediondês dos vestuários.

Vem em seguida a companhia da mulher das forças, de que já tivemos ocasião de falar em tempo; desde então a companhia não sofreu alteração, a não ser uma criança que a mulher das forças traz sempre ao colo, e que parece ser seu filho, companheiro já dos trabalhos dos seus pais, e herdeiro das lantejoulas e farrapos vermelhos dos mesmos, com que um dia se adornará talvez para honrar a arte dos seus progenitores.

Sucedem-se uma série de especuladores, entre os quais ocupa o primeiro lugar a dos pássaros sábios.
Este procura sempre pelo teatro das suas exibições as entradas dos mercados, e os lugares de mais trânsito.
Os pássaros, que são todos canários, acham-se engaiolados, estando as gaiolas montadas sobre uma tripeça. Próximo da gaiola há uma pequena caixa de folha, cheia de papeis impressos e fechada, contendo, em 4 linhas, as sinas ou a revelação do futuro de qualquer indivíduo.
Chega-se, e este é o caso mais ordinário, uma criada de servir, dá 10 reis ao homem, produto quasi sempre da economia que fez nas compras, aquele abre a porta da gaiola, sai um pássaro e com o bico tira um dos papelinhos da caixa de latão, que o homem entrega à criada, dando depois alguns grãos de painço ao sábio passarinho.
Esta recompensa, é o segredo do engenho das pequenas aves.
A criada, com o papel na mão, como quasi sempre não sabe ler, pede a alguém que lho leia e acha sempre quem se encarregue de lhe explicar as misteriosas palavras do conteúdo no bilhetinho. Feito isto, lá vai, ora risonha, ora triste, conforme a revelação ministrada pelo inocente canarinho.
Esta especulação produz sempre bons lucros para os donos dos pássaros, o que quer dizer que há sempre um crescido número de parvos a consultar o oráculo.

Ocupa o segundo lugar a especulação dos barquilhos, verdadeiro engodo da rapaziada, que acha meio de arranjar os cinco reis, para os empregar naquela gulodice.
O homem dos barquilhos para em qualquer lugar mais concorrido, e poe diante de si uma caixa, que tem na tampa uma espécie de roda da fortuna. O rapaz dá cinco reis, move a roda que faz girar uma pequena esfera; esta vai cair em uma cavidade, e segundo o número que ela tem pintado, ganha outros tantos barquilhos, que ele bem depressa faz chegar ao estômago.
Os barquilhos são umas pequenas pastas feitas de massa de obreias com açúcar. Este petisco é a suprema palavra de pastelaria para o rapazio.

Há finalmente os músicos dos cafés, entre os quais merece o primeiro lugar a orquestre do Boca Seca.
A orquestra do Boca Seca compoem-se de uma família; pai, mãe e uma filha. Aquele a a filha tocam ambos rebeca, e a mãe viola francesa.
Entram todas as noutes nos principais cafés e tocam diversos trechos de óperas, marchas e músicas de dança, algumas pelos papeis que trazem.
Chamam-lhe a orquestra do Boca Seca em consequência do regente, que é o chefe da família, estar a cada passo a dizer que tem a boca seca, mesmo depois de beber dez ou quinze, e às vezes mais, copos de cerveja, que os ouvintes lhe oferecem. Torna-se notável este homem senão pelo género musical, pela quantidade de cerveja que bebe em cada noute.
Toda a família traja com bastante decência, e como alem disso se extremam do vulgar no que tocam, tem entrada em todos os cafés.

Seguem-se ainda dous outros músicos ambulantes espanhóis, pai e filha, que tocam, o primeiro bandolim e a segunda violão. Esta chama-se Manuelita e também canta.

Alem destes vagueia pela cidade uma multidão de crianças que onde quer improvisam concertos de harpa e rebeca, tormento tão flagelador como o dos realejos.

in O Commércio do Porto, 13 de Janeiro de 1870

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Cais da Ribeira 2

Início do século XX...


Finais do século XX...

O Cais da Ribeira

Início do século XX...


Finais do século XX...


Verdade seja dita que esta segunda imagem, dos anos 80, já não é verdadeira actualmente e também ela pertence à história. Por um lado ainda bem, a década de 70 e 80 foram as mais porcas (é esse o termo mesmo) das ruas da cidade. Pela de 80 falo eu que tinha olhos para ver, pela outra falam meus conhecidos que são, obviamente, mais velhos do que eu. Seria um reflexo do "agora sou livre e faço o que bem me der na telha" do 25 de Abril?
Ainda bem que isso já pertence ao passado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A Ponte Pênsil

"Vê-se ainda sobre o Douro a Ponte Pênsil, um pouco mais ao nascente do local onde esteve anteriormente a ponte das barcas(...). Fica entre os Guindais, do lado do Porto, e o sítio denominado o Penedo, na margem fronteira.

Está suspensa por oito grossas correntes, feitas de fios de arame de ferro queimado, cobertas de uma espessa crusta de verniz, as quais, divididas em dois grupos, assentam sobre quatro elegantes obeliscos ou colunas de granito, que se erguem das margens do rio nos dois extremos da ponte, sendo cada par de colunas ligado entre si por pranchas de ferro junto aos capitéis, e vendo-se nas ditas pranchas a seguinte legenda: “D. Maria II – 1842”. As oito correntes atravessam as quatro colunas, e descendo até ao solo, são chumbadas com grande solidez em rocha viva muito abaixo do nível de superfície com enormes chumbadouros dentados, que alargam por largo a rocha. Destas correntes pendem perpendicularmente outras da mesma espécie, mas muito mais delgadas, em número de 211, ficando 108 do lado do nascente, e 103 do lado do poente, e dispostas em iguais distâncias seguram pela extremidade inferior as vigas sobre que assenta o pavimento da ponte, que é de madeira, variando o comprimento destas correntes na razão da curva que descrevem as oito correntes principais. No centro das duas colunas do lado da cidade há uma casa, cujo pavimento inferior serve de quartel para a guarda militar, que faz a polícia da ponte, e no pavimento superior há uma espécie de salva-vidas com uma maca, uma cama, roupas e aparelhos próprios para socorrer as vitimas de qualquer naufrágio ou desastre; e do lado de Vila Nova há outra casa igual àquela, que serve de habitação para alguns dos empregados na cobrança das passagens, e armazém de utensílios da ponte. Há também nas extremidades da ponte duas casinhas, onde se cobra o imposto de trânsito, e que é, com pequena diferença, o mesmo que se pagava na antiga ponte de barcas.

A ponte é iluminada a petróleo nas noites em que não há luar, por seis candeeiros, além dos da casinha do lado da cidade, pois de noite só nesta casinha se paga o imposto do trânsito.

O pavimento da ponte tem passeios e varandas de madeira, e destas a do lado deo nascente mede desde a coluna do sul até à casinha de arrecadação do lado norte, 154m, e a casinha 4,5m; e desta casinha até à coluna que fica do mesmo lado, 8 metros e dois centímetros – total, 166 metros e 70 centímetros. A varanda do lado poente, por causa da entrada da cidade para a ponte, é menos extensa, e mede 153 metros; a altura destas varandas é de um metro e dois decímetros; o passeio tem de largo um metro, e a ponte 6 metros de abertura. Os obeliscos, que são perfeitamente iguais, medem desde a base até à sua extremidade superior, que é decorada por um globo metálico, 18 metros de altura; cada um daqueles globos tem um metro de diâmetro, e os tirantes, ou pranchas de ferro que ligam as colunas, medem de comprimento 7 metros e dois decímetros, e de largura 5 decimetros, cada um.

Deu-se principio a esta ponte no dia 2 de Maio de 1841, aniversário da coroação da rainha, ao tempo a senhora D. Maria II. No dia 1 de Fevereiro de 1843 já se achavam completas as obras principais e esperava-se apenas ordem do governo para a inauguração e abertura da ponte, dispondo-se os representantes da companhia construtora para tornarem aquele acto solene e aparatoso; mas sobrevindo uma cheia no Douro, que obrigou a retirar, na forma do costume, a velha ponte de barcas no dia 17 de Fevereiro daquele ano, abriu-se para o trânsito público a nova ponte no dia 18 de Fevereiro de 1843.

Foi feita esta ponte sob a direcção do engenheiro de Claranges Luccotte, a expensas de uma companhia de accionistas que a devia fruir por espaço de 30 anos, entregando-a no fim deles ao Estado, de quem é propriedade, e foi construída na praia de Miragaia, no mesmo local que hoje ocupa a nova alfandega; e para aquele efeito, a empresa construtora levantou ali um amplo abarracamento para montar as forjas e mais oficinas necessárias, precedendo licença da Câmara Municipal, e assinando a companhia um termo pelo qual se obrigava a demolir tudo, e repôr aquele chão no estado em que o encontrou, apenas terminasse a obra, cláusula que a empresa por último não queria cumprir, mas a Câmara recorreu ao poder judicial, oficiando ao juiz eleito da freguesia de Miragaia, a fim de compelir (como compeliu) a empresa a satisfazer o estipulado."


Pinho Leal in Portugal Antigo e Moderno, Artigo S. NICOLAU, vol. 6, pp. 66 a 68

domingo, 6 de dezembro de 2009

O Botequim do Pepino

"Houve na rua de Cima do Muro, nesta freguezia de S. Nicolau, um pouco ao poente do Postigo dos Banhos, um botequim, que se tornou celebre e conhecido como nenhum outro no Porto e fóra do Porto, até mesmo na Inglaterra, na Russia, na Alemanha, na França, etc.

Era publico e notorio, que n'aquelle botequim ou casa de café e bebidas, foram roubados e mortos muitos marinheiros inglezes e d'outras nações, e é certo que aquella casa esteve muitos annos debaixo da vigilancia das auctoridades locaes, persistindo, a despeito de toda a vigilancia policial, os boatos mais aterradores: até que a casa foi expropriada e demolida pela camara, como todas as circumvisinhas, para a abertura da rua da Nova Alfândega - sem se apurar o fundamento de tão sinistros boatos.

É certo que aquelle botiquim, todas as noites se enchiam de mulheres perdidas, marujada, principalmente estrangeira, e homens de má nota; que alli havia musica e danças (cancan) deshonestas, e um arruido infernal até deshoras; - que alli houve por vezes rijo bofetão e grossa pancadaria, - e que muitos dos freguezes, nomeadamente maritimos russos, inglezes e allemães, lá pernoitavam, estirados no chão, com o peso do vinho, até ao dia seguinte, - dizendo as más linguas que eram embriagados artificialmente, e de proposito, pelo dono da casa, para os roubar, quando levavam consigo dinheiro, e que depois os lançava ao rio. E acrescentavam - que muitos cadaveres appareceram no Douro, que se disse serem maritimos estrangeiros que se afogaram casualmente, quando a verdade era - que haviam sido roubados e assassinados no maldito botequim...

Nunca pôde averiguar-se bem a cousa, mas parece vir a proposito o aphorismo - vox populi, vox diaboli!...

O proprietario d'este... botequim, enriqueceu com o seu ignobil negocio, e era tão astuto que adivinhava sempre o dia e hora em que a policia vinha dar-lhe busca...

Chamava-se António Pereira Porto, por alcunha o Pepino, e por isso o seu botiquim ganhou o titulo de Botiquim do Pepino.

O tal Pereira Porto, falleceu aproximadamente em 1850, mas a viuva conservou o celebre botiquim (mas já muito decadente) até 1870 a 1871, data da demolição d'aquela rua e das ruas adjacentes."

in Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, Vol. VI, pág. 62.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Brazão do Mercado do Peixe


Eis o brasão do Mercado do Peixe, mencionado num post anterior como estando em construção em 1871.

Que será feito desta belíssima pedra?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Barredo (segundo Pinho Leal)

É, segundo o autor, o bairro mais imundo do Porto. Está todo iluminado a gás, é bastante povoado e quase exclusivamente por Vareiras, Regateiras, Vendilhões e Carrejões.

Escreve ainda Pinho Leal:

“Não há muito que o autor destas linhas, com sol claro, e por mera curiosidade, atravessou este bairro, só para poder falar dele; e creiam os leitores que nunca vi no Porto, nem na capital, uma série de ruas(?), vielas, escadas e barracões, que se assemelhassem àquilo. Tudo transudando água e imundice, obrigando-me o fétido a acelerar o passo, e arrepiando-se-me o cabelo o imaginar-me metido em semelhante labirinto, em uma noite de inverno, mesmo no actual século, antes de montar-se a iluminação pública.
É este bairro um montão de lixo e um sorvedouro de vidas, quando pesa a mais leve epidemia sobre a cidade, e por todas estas considerações façamos votos por que a câmara abra sem demora as ruas em projecto.
Pinho Leal in Portugal Antigo e Moderno (1875), Vol. VI, verbete S. Nicolau

NOTA: as ruas de que fala Pinho Leal nunca foram abertas; dai resultando que, por mais de um século, ficou sendo o Barredo - juntamento com a Sé - os locais de pior fama do Porto. Esses mesmos, agora classificados património mundial.
O contrário aconteceu precisamente no outro lado desta freguesia, no Bairro dos Banhos, onde toda a podridão de casas e de almas desapareceu. Tudo levando, um furacão de demolições e aterros que em pouco mais de um ano destruiu o que séculos de vida da cidade levara a criar. O que poderia esse bairro ser hoje?...

domingo, 29 de novembro de 2009

A Capela dos 3 Reis Magos

No antigo palacete onde se encontrava a Câmara Municipal do Porto, até 1915, existia uma capela privada para uso das gentes da casa mas com abertura para a rua. Esta capela teve também que ser demolida aquando da abertura da Avenida dos Aliados. Ela encontrava-se sensivelmente onde hoje começa a faixa de rodagem ascendente da mesma avenida. No entanto, e ao contrário da hecatombe que tudo ou quase tudo levou, a pedra desta capela foi comprada por um indivíduo e foi deslocada (em carros de bois com certeza) para Cantanhede, mais precisamente para uma terra chamada Pocariça, onde ainda pode ser admirada. Eis em baixo uma foto dessa mesma capela que já estava no local mais central da nossa cidade, mas que agora prossegue a sua vida - e ainda bem - num ambiente algo mais calmo. Não há, infelizmente, muitos exemplos desses.


Imagem extraida de: www.cm-cantanhede.pt

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mercado do Peixe

"Foi ontem colocado na fachada principal do Mercado do Peixe o brazão da cidade, que era o que faltava para concluir aquela parte do edifício.
Como já dissemos, o referido brasão está muito bem trabalhado, sendo feito em duas peças separadas, uma das quais compreende o escudo e o colar da Torre Espada e a outra a Coroa e o Dragão.
A imagem da Virgem padroeira, o Colar da Torre Espada e todos os outros lavores são de apurado trabalho.
Esta peça foi executada por 5 discípulos do Instituto Industrial (...)."

O Commércio do Porto, 5 de Janeiro de 1871


O Mercado do Peixe foi demolido em 1952 para dar lugar ao actual Palácio da Justiça. Terá esta pedra sido destruída? Ou levada para o Museu nacional Soares dos Reis onde se encontram outras pedras deste género? A quem o souber, agradecesse a informação do seu paradeiro.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ainda a Porta Nobre...

"Ao chegar-se perto do rio, próximo do lugar de Miragaia, abria-se outra porta, a que chamavam Porta Nobre ou Porta Nova, que devia erguer-se perto do ângulo formado pelo sector descendente da muralha com a porção que depois seguia, quase horizontalmente, ao longo do Douro.

Parece que no seu lugar existiria, primeiramente, um postigo, o Postigo da Praia, ou Postigo de Miragaia; e terá sido D. Manuel quem o transformou em verdadeira porta, porta ampla, majestosa, para que, por ela, entrassem no Porto, solenemente, pomposamente, os senhores graúdos - os Príncipes de sangue e os Príncipes da Igreja, os grandes Magistrados da Governação. Impossível dizer quantos figurões terão atravessado aquela Porta, com a solenidade inerente às coisas e às figuras solenes, ao correr dos seus três séculos de existência.

Qual terá sido a anatomia desta aparatosa porta, a anatomia que lhe deram os mestres de pedraria manuelinos?

Das duas imagens que aqui se reproduzem, pode concluir-se que os artistas desta obra manuelina não a marcaram com nenhum dos sinais característicos do seu estilo: nem cordas, nem esferas, nem cruzes, nem nada. Nem sequer ameias específicas, dado que, pelo menos as de Pedro Vitorino, são retintas medievais.

Nesta versão, desenhada por Gouveia Portuense "segundo dados fornecidos" pelo Mestre arqueólogo, trata-se de um torreão perfurado na base pela porta (...)



A outra imagem, que dizem ter sido copiada do natural pelo professor de desenho Francisco José de Sousa, ainda com ela convivente, em carne e osso, essa é de estrutura muito diferente.



Antes de mais, enquanto que a porta de Vitorino se abre num corpo saliente do torreão, a de Sousa é, ao contrário, num corpo bastante reentrante que ela está aberta. Em ambos os desenhos, a pedra de armas (...) encima o vértice das portas. Mas, ao passo que a pedra vitoriniana não tem, para cima dela, mais que paramento de silharia seguida, ininterrupta, a do outro exibe dois andares de janelas, com seus arcos apontados, janelas que ainda se repetem nas faces diedras da reentrância.

E é tão engraçado aquilo, que apetece pensar existir ali, um recantozinho bem adequado à bisbilhotice entre vizinhas desocupadas; e ainda adequado ao desdobramento festivo de colgaduras damasquinas, na hora do desfile de cortejos introdutores dos senhores conspícuos. Acontece, porem, que todas as fenestras estão reticuladas de fortes grades de ferro, que nem consentiriam o apoio regalado dos cotovelos mexeriqueiros, nem a fácil exposição dos estofos orientais. Para quê, portanto, aquelas tão lindas janelas?

Diz-nos o descritor deste desenho que "Sobre esta porta se construiu uma casa para a guarda[...]", e então as janelas gradeadas seriam as da moradia do mini-alcaide daquele torreão. Mas, o mesmo cicerone acrescenta ainda que "sobre o arco da Porta Nova estava uma ermida dedicada a N.ª Senhora do Socorro, templo de grande luxo pela grande devoção que o povo tinha à sua padroeira[...]"

Vê-se, assim, que estas janelinhas, destinadas, pela nossa fantasia, à coscuvilhice das comadres e ao cromatismo dos panos de Damasco, pertenciam afinal, a uma modesta alcaidaria e a Nossa senhora do Perpétuo Socorro. Acontece ainda que, segundo Rebelo da Costa, era por ali o Presídio dos Soldados, e, por isso, é de perguntar: como se arrumariam e como conviveriam habitantes tão heteróclitos, naquele torreão da Porta Nova? Como poderia, espaço tão exíguo, como aquele que a gravura denúncia, conter os aposentos do castelão com seus familiares, conter uma ermida, "um templo de grande luxo", a que concorriam multidões de peregrinos, e ser ainda prisão militar?

Também se sabe, ou se julga saber, que, quando o Rei-Venturoso ampliou, de postigo a porta, a abertura de Miragaia, mandou igualmente construir, entre ela e o rio, um baluarte extra-muros, um reforço da fortificação antiga. Luxo apenas, ou prevenção contra qualquer ataque fluvial à Muralha? Ataque de quem? Sabe-se lá...

Esse baluarte ameado, de configuração circular, está presente na gravura vitoriniana que se reproduz (...)

A Porta Nova e seu Baluarte, desapareceram, como todas as portas da muralha fernandina, sob o tufão do Progresso. (...)

Aqui, porém, o desaparecimento foi efectuado, segundo se diz, por um método diferente do, até então, habitual - a bota-de-elástico demolição a camartelo: foi feito pelo sistema, verdadeiramente percursor na época, da soterração.(...)

(...) Mas, não se diz que a técnica, então encarregada de fundamentar a actual Rua da Alfândega, para não arcar com as despesas da demolição daquelas construções castrenses, preferiu soterra-las no entulho do aterro, assim mesmo, inteirinhas, como estiveram, ao correr dos séculos, no exercício das suas funções?

Este soterramento não se nos afigura de uma possibilidade material muito persuasiva. Soterrar aquele alteroso bastião, com seus três andares, suas janelas alcaçarenas, sua Ermida do Perpétuo Socorro, tudo assim, de pé, integro e intocado, - é coisa custosa de engolir... Para mais o solicito informador acrescenta, ainda, que a engenharia da obra teve o amorável cuidado de mandar obturar, de pedra e cal, o vão da Porta Nobre, antes de, para sempre a abafar sob os acervos entulhantes!... Como que veste o pálio-rico ao morto querido que vai a enterrar."

in' O Tripeiro, série VI, Ano XII, nº 2; pela pena de Mário de Menezes.

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NOTA: A pedra de armas desta porta encontra-se no museu Soares dos Reis. Infelizmente quem lá for muito provavelmente não a verá. Isto porque ela ou se encontra em armazém, ou no jardim maior do museu; jardim esse vedado ao público.
O escudo desta pedra tem a particularidade bastante interessante de possuir 13 castelos, sendo por isso de uma altura de indefinição quanto ao número destes no escudo real.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O hotel Francfort

«Já não existe, como todos sabemos. Também não ficou a fazer falta aquele casarão inestético exteriormente, e que só se tornou célebre por durante muitos anos ser o hotel preferido pelos estrangeiros, pelas celebridades de todos os géneros e pelos endinheirados. Frequentar o Francfort dava tom e civilisava os que desejavam adquirir maneiras distintas.

Talvez o leitor desconheça que, antes de ser construído aquele prédio, a área por ele ocupada, uma nesga lateral do excesso do terreno, aonde foi aberta a rua do Bispo (depois D. Pedro e agora Elias Garcia[1]), foi destinada pela Câmara, em 1849, para cemitério dos cães. V. Ex.ª fica admirado por ter o Porto precedido várias cidades europeias e americanas na invenção de um local destinado à sepultura da população canina, o que talvez fosse motivado por haver aqui cães em abundância e não existir ainda fabrica de guano, ou congéneres, para onde se lhes removesse a carcaça, depois de mortos.

Esse destinou findou em 1851, ano em que o negociante Luiz Domingos da Silva Araújo requereu à Câmara a venda do terreno, para ali edificar o prédio, há dois anos demolido. Está portanto devoluto o terreno do antigo cemitério dos cães, provisoriamente sentina pública, ao natural, enquanto não se integrar na Avenida(2), por onde estadeiam o seu luxo e elagância os janotas e as gentis descendentes dos novos ricos.

Apenas se concluiu o edifício, logo se montou o hotel, em cujos baixos Paulo Podestá, falecido ai por 1869, instalou a sua livraria e tipografia Internacional, sendo aquela a mais bem organisada do Porto. Depois conheci ali a Cervejaria Schreck, e o café Chaves, que de anos a anos muda de poiso.

Pelo hotel passaram inúmeros forasteiros de nome, em especial gente de teatro, e muitas celebridades líricas, como a Ida Benza, a Isabella Schwichner, a gloriosa Ristori, a Darclée, a Elisa Hensler, que depois casou com o rei D. Fernando, a Chiaramonte, a Dealberti, etc., pois o Porto em tempos foi grande apreciador de bom teatro lírico, não se contentando com artista de segunda plana.

O penúltimo dos seus proprietários, François Babel, muito culto e de bastante iniciativa, quis torna-lo um hotel moderno, dotando-o até de balneário, mas a casa não se prestava a isso. Ainda assim, para o tornar conhecido fora do Porto, estabeleceu ali jantares de réclame, às quintas-feiras, bem servidos, e relativamente baratos, que lhe deram nome. A custo se ia tenteando, se não fosse o advento da república, que deslocou os políticos para o Grande Hotel do Porto, conservando-se-lhe apenas fiel, enquanto viajava, o Sr. Dr. António José de Almeida.

A morte do Conde de Alves Machado, que ali viveu durante cerca de 40 anos, produziu nele um imenso vácuo.

Babel faleceu, A casa ia em decadência. A freguesia foi-se retraindo e não primava pela generosidade; às vezes nem pontual era no pagamento das contas. Ainda nas vesperas do seu encerramento teve de penhorar as malas de uma conhecida actriz, que passava por trazer a carteira bem recheada. Já por vezes acontecera outro tanto com vários fregueses.

As obras da cidade vieram dar-lhe o golpe de morte: o prédio era necessário, a fim de melhor se desenhar o bacalhau(3), adoptado para modelo da sua planta.

Custou-lhe, porém, a deixar-se entregar ao município. Ainda lá havia hospedes e já o camartelo municipal lhe esmoucava os telhados e as cantarias. Parece que algo de saudoso lhe custava a desprender-se dali.; talvez os vários suicidas, que nos seus leitos se despediam da vida, como o espírito delicerado da noiva do filho de Urbino de Freitas, vinda do Alentejo ali amortalhar-se., para a colocarem, no jazigo da Lapa, ao lado da alma gémea da sua, que tanto sofrera, em tão curta idade!

O último cadáver que de lá saiu, foi o Dr. Teixeira de Sousa, o derradeiro chefe do Partido Regenerador e presidente do conselho, à queda da monarquia: não se suicidou, mas morreu torturado pelos caprichos do destino!»
António Lança in O Tripeiro, nº 109 (nº7 da 2ª série), 1 de Abril de 1919


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1) Rua demolida para abertura da actual Avenida dos Aliados.
2) a dos Aliados é claro.
3) refere-se obviamente ao formato da nova avenida vista de cima.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Bairro dos banhos - demolição em curso

Desta feita, e para variar da palavra escrita, trago um pormenor de uma foto que mostra parte das obras para a abertura da rua da alfândega nova, depois baptizada Rua Nova da Alfândega. Ajudando assim a ilustrar algumas das notícias que aqui tenho divulgado surgidas no Comércio do Porto da época.



Aqui podemos ver, por exemplo, um pouco à esquerda em baixo o Forno Velho, onde ainda se consegue descortinar pequenas ruas e escadas (vielas cujas casas do lado do rio foram já demolidas). Parte dessas casas ainda existe... é só subir as escadas do Recanto e eis que damos com um singelo mas bonito edifício que funciona agora como escola primária, precisamente um dos que aparece nesta foto.

Também à esquerda mas agora em baixo vamos o fortim da Porta Nobre. Fortim esse que foi parcialmente demolido e o restante entulhado para elevar a cota para o novo arruamento, estando hoje mesmo por baixo da entrada para o parque de estacionamento da alfândega, no antigo terminal ferroviário. A seu lado a porta que lhe dá nome, ou o que resta dela...

Correndo pela muralha (também ela soterrada, sendo aquela área todo um fóssil da cidade do século XIX) vemos uma reentrância na mesma; e nela uma outra abertura: é o postigo dos Banhos, tendo o pequeno areal que se formou na zona usado como cais para embarcações mais pequenas mas também para cargas e descargas de produtos (aquela parte de muralha fernandina que apareceu aquando das sondagens no cais da alfândega em 2004 são precisamente desta área). Toda este correr de muro ia ligar ao denominado Muro dos Bacalhoeiros. E, mesmo antes da parte desse muro que sobreviveu à hecatombe ficava o Postigo da Lingueta ou do Pereira (que não aparece na foto).

Também desaparecidos, vemos em segundo plano uma capela, dedicada a Santo Elói, que se encostava à igreja do convento dos Franciscanos, cujas pedras foram levadas para a Foz e em 1884 usadas na edificação da capela de Gondarem.

Na rua do Infante, reparemos na escuridão que a ensombra. Isso dever-se-á eventualmente à luz da altura do dia em que foi tirada a fotografia, mas também porque a clareira proporcionada pela Praça do Infante ainda não existia, sendo o espaço ocupado por casas que corriam de São Francisco até à esquina com a também desaparecida rua das Congostas.

Em terceiro plano, muito daquele casario que vemos na parte superior esquerda da foto foi também ele já derrubado, sendo agora ocupado o espaço por parte da rua Mouzinho da Silveira e suas respectivas edificações do lado nascente, com frente para o Infante e mercado Ferreira Borges...

E mais se calhar se poderia dizer. Fica em aberto para os comentários, observações e eventuais rectificações que haja a fazer a este breve comentário a uma fotografia que é em si mesma, um documento histórico de grande valor.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

da Praça de D. Pedro

Ainda na sequência do post anterior, eis uma pequena notícia referente a uma modificação "urbanística" da Praça de D. Pedro, actualmente Praça da Liberdade.

Embora singelas, estas notícias são sempre interessantes para quem se interessa - perdoem a redundância de palavras - pela evolução e modificação das ruas, praças e edifícios notáveis da cidade; desde as intervenções de grande vulto até aquelas que quase passariam despercebidas. Como é o caso desta.

Praça de D. Pedro (28 Fevereiro1871)
Principiou ontem a remoção dos pilares de pedra que circuitavam a praça de D. Pedro e que sustentavam as grades de ferro que há tempo também foram tiradas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Apontamentos para a história da Rua Nova da Alfândega

Notícias coligidas do Jornal O Comércio do Porto de 1871, sendo breves mas interessantes para a história desta rua.

Desmoronamento (28 Fevereiro)
Pelas 2 horas da manhã de ontem desmoronou-se parte do muro de suporte de algumas casas do Forno Velho, que deitam para a nova rua da Alfândega. O estrondo foi grande assustando bastantes pessoas.
Não houve desgraça alguma e ontem já os operários da Exma. Câmara trataram de fazer as obras necessárias para que as casas que estão superiores nada sofram com a falta de apoio que lhes causou o desmoronamento.

Arrematação de materiais (26 Abril)
No dia 2 do próximo mês terá lugar a arrematação de todos os materiais, excepto a pedra, das casas sitas na rua da Ferraria(1) com os números 6 e 8, 10, 12, 14 e 16, 18 e 20, 22, 24, 26, 28, 30 e 32 e da casa da rua de S. Francisco nº 71, 73 que têm de ser demolidas para a abertura da rua da nova Alfândega.
A arrematação verificar-se-há no próprio local dos prédios.

Cais da Porta Nobre (26 de Abril)
Principiaram os estudos para o cais que deve ligar a alfândega de Miragaia com a Porta Nobre (...)

Rua da nova Alfândega (1 Março)
Já principiaram os trabalhos por parte da respectiva comissão, para as expropriações dos prédios da rua do Forno Velho de Baixo, que têm de ser demolidos para a abertura da rua da nova Alfândega. Segundo nos informaram, alguns casos já estão ajustados.
As obras na rua continuam com actividade e o aqueduto(2) que se anda a construir, e que deve desaguar na Porta Nobre, está muito adiantado.
Continua a demolição de alguns prédios na antiga rua dos Banhos, do lado de Cima do Muro, e no grupo de casas denominadas de São Francisco apenas falta demolir completamente a que pertenceu ao Sr. Conde de Azambuja. Esta, porém, está já mais de metade demolida.

Arrematação de materiais (3 Maio)
Conforme estava anunciado procedeu-se ontem de manhã à arrematação dos materiais, excepto a pedra, das casas que tem de ser demolidas para a abertura da rua da nova Alfândega, sitas na rua da Ferraria, Reguinho e São Francisco (...)


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(1) Actual Rua do Comércio do Porto
(2) Será este o aqueduto que encanou o rio Frio? É que, me parece, o jornal entende como Porta Nobre o lugar e não propriamente a dita porta. Aliás, ainda hoje temos na Rua Nova da Alfândega uma mercearia denominada Porta Nova - nome pela qual também era conhecida esta abertura na muralha fernandina - que se encontra sensivelmente no local original da Porta (se bem que a uma cota superior)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Porta Nobre da Cidade do Porto

A Porta Nobre era uma das entradas medievais e renascentistas na cidade do Porto, situada grosso modo a meio da actual rua Nova da Alfândega (se bem que a uma cota inferior). Inicialmente um simples "postigo" da muralha que abraçava a cidade, foi alargada e elevada a categoria de porta durante o reinado de D. Manuel I.

Segundo se diz era por ela que entravam os mais altos dignitários que demandavam esta cidade, atravessando o rio vindos de Gaia ou aqui aportavam na já desaparecida praia de Miragaia. De seguida seiam pela rua dos Cobertos (em grande parte ainda existente com o nome de rua de Miragaia) até à dita porta e faziam a sua entrada na cidade pelo Bairro dos Banhos, quase completamente demolido no século XIX para dar lugar ao novo arruamento.

Esta porta, também chamada de Nova, existiu até 1871; ano em que foi sacrificada em nome do progresso e com ela um pouco mais da história e da memória da cidade. Porque mesmo às pedras, por vezes, só lhes falta falar...

Na imagem 1 podemos ver parte da rua Nova da Alfândega, precisamente a que interessa para esta situação. A linha recta vermelha, na vertical, parte das escadas do Caminho Novo seguindo até à área assinalada com um circulo onde existia um fortim construído já no século XVI e que foi ultimamente usado como prisão militar e depósito de armas(?). Dai a muralha seguia pela linha horizontal até à Ribeira. Desse troço de muralha apenas subsiste o denominado muro dos bacalhoeiros.


Imagem 1 do googelmaps.


Não escolhi esta imagem por acaso... vêem como a linha vermelha se interrompe algures? Deixei esse bocado assim pois que aquando do famoso projecto "DOCAS" da proprietária do terreno, a REFER, foi encontrada no âmbito de sondagens arqueológicas prévias, um troço desse velho e venerado muro!

Pelos vistos os nossos bisavós não deitaram tudo a baixo... parte da muralha ainda lá está! De facto talvez ficasse dispendioso - e até desnecessário - desmantelar pedra a pedra dado que a rua a abrir seria a uma cota mais alta. Por isso a certa altura bastou entulhar! Por consequência deixando parte do passado ali enterrado ad iternum, à guisa de sepultura.

Na imagem 2 algo diferente. Peço desculpa antes de mais pela fraca qualidade da ampliação. Mas ela é já de si de fraca qualidade quer pela antiguidade quer pelo método fotográfico usado bastante granuloso.
Com algum esforço podemos ver nessa imagem a Porta Nobre! Uma das poucas imagens fotográficas subsistentes em que e mesma é visível. À esquerda temos a actual rua de Miragaia com os seus arcos e à sua frente o já quase inexistente areal de Miragaia onde está a ser construída a sapata da nova alfândega. Precisamente ao centro da imagem, numa zona escura nota-se o recorte ainda mais escuro de uma abertura... a Porta Nobre! :-)

Imagem 2 de O Porto e os seus fotógrafos.

PS - Numa obra futura naquela zona, não seria descabido desentulhar o que se encontra no parque de estacionamento da Alfândega e colocar à vista, preservado e limpo, mais um troço dessa espectacular muralha que um dia circundou, defendeu e protegeu a cidade do Porto. No restante poderia, por exemplo, construir-se um espaço ajardinado, dando uma nova e refrescada imagem à rua Nova da Alfândega, parte integrante do postal ribeirinho da cidade. O parque de estacionamento talvez sofresse uma redução de alguns lugares, mas creio que valeria bem o sacrifício...

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(post reformado em 01/02/2017)