domingo, 19 de fevereiro de 2017

As eleições para o Colégio Eleitoral e o vapor Porto

Não, não estou a falar das eleições americanas, coisa despropositada e descabida neste blogue! Este Colégio Eleitoral refere-se às eleições no nosso país. A título de exemplo e para os curiosos destas matérias embora não querendo fazer qualquer ensaio sobre história da política, aqui vão uns parcos dados de como se efetuavam as eleições, nomeadamente no segundo semestre de 1845 em plena vigência do cabralismo.

Com efeito, em 26 de junho a Câmara publicou um edital dividindo a cidade em quatro assembleias municipais da seguinte forma:

1ª Assembleia: Igreja da Sé Catedral - compreendendo as freguesias da Sé, São Nicolau e São Pedro de Miragaia;

2ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora do Carmo - compreendendo as freguesias de Nossa Senhora da Vitória e quase toda a de Cedofeita e parte da freguesia de Massarelos;

3ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora da Lapa - compreendendo as freguesias de Paranhos, Bonfim e Campanhã, várias ruas de Santo Ildefonso e a parte restante da freguesia de Cedofeita;

4ª Assembleia: Igreja Matriz de São João da Foz - compreendendo as freguesias da Foz e Lordelo e parte da de Massarelos.

Vem agora o tal "colégio eleitoral". Ora este dar-se-ia, segundo um decreto publicado em 28 de abril no seu n.º 28, da seguinte forma: toda a assembleia que compreender mil fogos dá um eleitor, e a que tiver dous mil dará dous e assim progressivamente pelo que no caso do Porto a 1ª assembleia daria quatro eleitores, a 2ª daria cinco eleitores, a 3ª daria quatro eleitores e a 4ª daria dois.

Como referi no início, isto são apenas uns apontamentos soltos para dar uma ideia ao caro leitor de um sistema atualmente caído em desuso no nosso país, mas que era pelo menos à época em que me reporto, o vigente.

E que época! Bernardo de Costa Cabral era já em 1845 muito contestado! De facto para uma pessoa que iniciara a vida política como um humilde advogado, vira o povo a sua riqueza aumentar a olhos vistos, para além das acusações de nepotismo, entre outras... (ver aqui)
Para dar uma ideia do montante gasto pelo seu partido para estas eleições a ocorrer em agosto, refira-se que nada menos do que o vapor Porto foi fretado até ao fim do processo eleitoral. O correspondente do jornal A Coalisão em Lisboa, de onde extraio estes excertos, afetado é claro pela sua "partideirite" escreve desta forma:
António Bernardo da Costa Cabral (via http://www.tcontas.pt/pt/ )
«Amanhã ou depois parte [o vapor Porto] com o José dos Cónegos: o Tibúrcio talvez não vá por impedimento reumático, que se acastelou nos ossos do ilustre pai da pátria; mas vão outros heróis de honrada fama; e honradissimos costumes; até se diz que vai o Ferrugento, e uma chusma de espiões. [O] Porto deve recebe-los bem; que são os seus salvadores. Quem vier ao desembarque, acautele as algibeiras, que nos apertos é que os tais exercitam a sua ligeireza.

Diz-se que o vapor é também destinado ao transporte de tropas; porque no dia das eleições há-de ser necessário esclarecer algumas opiniões obstinadas com o lume das baionetas: para responder a qualquer orador da oposição, serve melhor um granadeiro, do que todos os Cíceros do ministério.

Este serviço do vapor custa mais de três mil cruzados por viagem. Nisto se gasta o dinheiro da nação: e ainda gastam com a mão mais larga: para certo colégio eleitoral oferecem-se até 20 contos de reis por cada eleitor.»

Com efeito, uns dias depois o mesmo periódico anuncia a chegada do Sr. Silva Cabral desta fria forma:

«Ontem ás 10 horas e meia fundeou no rio Douro o vapor Porto, conduzindo a seu bordo o Sr. Cabral (José).

A entrada do barco, o desembarque de sua Exa., e o seu trânsito foram anunciados por foguetes, e repiques de sinos. A receção foi muda, não houve vivas, nem mesmo dos de encomenda.

Se houvesse de ajuizar-se da importância da receção pelo número de carruagens, poder-se-ia dizer que não foi má; porém como a popularidade se julga pelo cortejo pessoal, e não pelo aparato, ou asseio de berlindas, é força confessar que ainda nenhuma pessoa importante (como é hoje pelo cargo que exerce o Sr. José Cabral) teve no Porto uma receção mais chocha. De toda a gente que o acompanhou não nos apontaram, com verdade, seis pessoas que não sejam empregados, que mais ou menos diretamente estejam debaixo da ação do governo.

Fizeram um mau serviço a sua Exa. uns poucos de indivíduos que se lembraram de ornar as suas janelas com cobertores no ato da sua passagem; porque por seu diminutissimo número fizeram realçar mais o dos que olhavam com indiferença ou desprezo a chegada de S. Exa. Consta-nos que apenas haviam três casas com cobertores na rua de S. João, outras três na rua das Flores, e duas na rua do Almada. (...) »

No ano seguinte, em 10 de junho, já após a revolução da Maria da Fonte e da queda em desgraça do cabralismo pela bancarrota do país, o jornal O Nacional pedia à Comissão Municipal liderada por José Passos simplesmente isto:

mudar «... o nome da rua que do largo da Aguardente vai à da Rainha [ou seja a rua 9 de julho, agora rua da Constituição que naquela época ia apenas do Marquês a Antero de Quental] por nos recordar um dia em que Portugal viu a mais infame e vil traição de um valido da coroa - e assim também o nome que se deu à nova rua que no dito largo principia a estrada de Guimarães, que nos mostra quem foi o traidor. Esperamos o deferimento, pois que o povo já mostrou quanto lhe era repugnante a denominação da rua Costa Cabral derrubando o pilar em que se lia essa denominação.»

Obviamente que esse deferimento não veio pois que a rua manteve o seu nome...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sacos de café dependurados na Torre dos Clérigos?

Conforme prometido na postagem sobre a Meridiana, coloco aqui algumas palavras que portuenses de há um século atrás (1908) nos arquivaram nas páginas d' O tripeiro sobre um outro mecanismo também ele dependente da Torre dos Clérigos. Tudo começou com uma pergunta colocada por um leitor no n.º 10 deste secular periódico que diz:

«Possuo uma gravura antiga onde se vê a Torre dos Clerigos com dois saccos de café, salvo seja, pendurados fóra da varanda superior, como indicadores de qualquer coisa. Em pequenito ouvi dizer que estava installada uma meridiana da Torre.»

Ora, em relação à Meridiana tem só o leitor que reler o ante-penúltmo post; agora trata-se de dar a conhecer as respostas que a este leitor para que também nós cem anos depois possamos ouvir a explicação por quem ainda conheceu o tema. Para isso recolho parte de três respostas que surgem no número imediatamente a seguir ao da pergunta d' O Tripeiro:

«Não eram saccos de café o que o snr. B. S. vê na antiga gravura que possue, representando a Torre dos Clerigos.
Eram bandeiras, como poderiam ser balões de folha de flandres, ou de zinco pintado. Eu explico:
Até 1856, pouco mais ou menos, o unico meio de transporte para a correspondencia do Porto com a Gran-Bretanha, eram os paquetes da companhia ingleza P. & O. (Peninsular and Oriental), que appareciam á vista da nossa barra de quinze em quinze dias. Os vapores, n'aquella epoca, eram de pequenas dimensões e pouca força, comparados com os que se empregam actualmente na navegação transatlantica; por isso, não se podendo contar, senão approximadamente, com o dia e hora da chegada, e para obtemperar ás conveniencias do commercio, que tinha interesse em receber a correspondencia no dia da chegada, foi combinado, entre a direcção da Associação Commercial e o director do correio, com consentimento da Irmandade dos Clerigos que, logo que, pelo telegrapho commercial, houvesse noticia de estar á vista o paquete, fosse colocado um signal na Torre dos Clerigos, que era avistada de quasi todos os pontos da cidade, avisando os commerciantes para mandarem buscar a correspondencia ao correio, que era então no extincto convento das Carmelitas [...].
A torre numa imagem já posterior à época aqui descrita (pormenor de postal antigo)
Aquelle signal consistia, para os dias de bom tempo, em duas bandeiras com as côres da Companhia P. & O. pendentes de um travessão de cada lado ( norte e sul) do varandim superior da Torre; e, para os dias de chuva, em dois balões de lata, pintados com as mesmas côres.
Os caixeiros, a quem competia o serviço de ir ao correio esperar pela distribuição da correspondencia para a levarem a casa dos patrões, tinham ordem de estar attentos á collocação do signal, nas proximidades da chegada dos paquetes, que principalmente de inverno, demoravam um ou mais dias, o que os fazia arreliar, porque os privava de algumas horas de descanso ou de recreio.
Os paquetes, apesar de pequenos, não podiam entrar a barra do Porto; por isso havia uma catraia do sota-piloto Manoel Francisco, encarregada de ir fóra da barra levar e receber as malas de correspondencia e alguns passageiros, que houvessem de embarcar ou desembarcar e que, n'aquelle tempo, eram raros: pois com o mar agitado era muito arriscada a entrada ou saida da catraia.
Muitas vezes sucedia a catraia entrar ao fim da tarde, obrigando os empregados do correio a irem fazer a separação de noite, serviço esse que algumas vezes levava até ás 10 ou 11 horas.»

De facto nos vários jornais que já consultei na Biblioteca Municipal muitas vezes se vê uma pequena notícia referindo a passagem do paquete. E algumas vezes este nem parava porque o tempo estava mau. Seria a correspondência desembarcada em Lisboa? Tempos muito diferentes, os que hoje vivemos...

Mais duas resposta aqui coloco, não tão completas, mas deveras interessantes:

«O que o snr. B.S. julga ser dois saccos de café, não o são, pois que n'essa epoca a Christina, da Cancella Velha, era a unica que tinha o monopolio do saboroso e aromatico producto, não tendo como rival o café da Brasileira, e por essa razão não precisava de réclame para chamar a freguezia ao seu estabelecimento bem conhecido na cidade e até nas provincias.
São, sim, dois signaes com bandeiras, indicando a entrada ou o estar para entrar vapor ou, como hoje se diz, paquete trazendo correio.»

E para finalizar:

«(...) Os taes dois saccos de café, salvo seja, que era costume exhibirem-se ás vistas do publico, já então respeitavel, dependurados nas extremidades de duas pequenas varas, ou páus, collocadas horizontalmente na ultima varanda da torre dos Clerigos, serviam para annunciar que era dia de paquete, isto é, para prevenir quem tivesse de mandar correspondencia pelo paquete para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, que devia entregal-a n'esse dia no Correio Geral, que então era no largo do Correio.»
O "Iberia" de 1836, um dos primeiros paquetes da P & O. (via http://www.pandosnco.co.uk/iberia.html)
Como se vê esta última resposta e a primeira não são propriamente coincidentes. Haverá alguma que fuja à verdade? Ou simplesmente reportar-se-ão a épocas diferentes?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Carro elétrico 163: a História e a Estória

No Museu do Carro Elétrico encontra-se em exposição um veículo que ostenta o número 163, tratando-se do mais antigo carro elétrico portuense preservado construído de raiz como tal. O seu restauro foi feito com o recurso, entre outros documentos, a uma belíssima fotografia de um carro do mesmo tipo puxando três atrelados no Passeio Alegre. Foi construído pela firma Campos e Moraes (também conhecida como A Constructura), fazendo parte de um lote de 24 veículos construídos entre 1904 e 1906 equipados com chassis Brill e material elétrico Siemens. Os seus bancos eram longitudinais, atravessando o veículo de uma ponta a outra e por isso chamadas de risca ao meio.
Carro elétrico modelo "A Construtora" (de Os velhos eléctricos do Porto - pormenor)
Posta esta pequena introdução vamos ao tema: por alguma razão que desconheço, criou-se o pequeno mito de que o veículo que se encontra em exposição no museu é o 163 da foto; contudo isso muito provavelmente não é verdade. Isto porque a frota de carros elétricos foi até aos anos 50 do século XX renumerada diversas vezes, não existindo registos precisos sobre os seus números anteriores ou posteriores. A ajudar a isto tudo houve um incêndio em 1928 na remise da Boavista, que destruiu bastantes carros e avariou alguns mais.

Vai ainda mais longe o pequeno mito dizendo que este carro foi o que descarrilou e caiu no Douro em Dezembro de 1911, juntamente com um atrelado, matando mais de uma dezena de passageiros. Recentemente deparei-me com um post do blogue do Museu do Carro Elétrico que nos mostra umas imagens surgidas na Illustração Portugueza e que acompanham a notícia do fatídico desastre. A imagem legendada como sendo o carro motor a ser retirado da água não é esclarecedora pois foi tirada de longe, sendo que o chassis está virado no sentido contrário: Mesmo admitindo que seja um veículo idêntico ao 163, nada nos diz (até agora) que fosse precisamente aquela unidade.
O acidente de Dezembro de 1911 no Cais das Pedras (foto Illustração Portugueza via Museu do Carro Elétrico)
A numeração inicial destes carros era 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 68, 69; ou seja nesta numeração nem figura o n.º 163 (será que 63 passou a 163 numa renumeração acrescentando a centena?). Contudo a centena deve ter sido acrescentada ainda muito cedo na vida destes veículos, uma vez que há vários exemplos em fotos e postais do início do século onde estes apresentam já o 1xx.
Um carro elétrico do mesmo modelo do "163" passando Monchique, nos anos próximos da tragédia (de O Comércio do Porto Ilustrado). Por curiosidade refira-se que, o local onde se encontra o edifício em primeiro plano era a horta das freiras.
Com o andar do tempo e com os veículos mais antigos a serem retirados e substituídos por outros novos, aos nossos dias acabaram por chegar apenas dois, já com a numeração final da STCP: o 107, que foi recuperado para o museu com o nº 163 e o 111 que foi adaptado a carro esmeril. Estes dois são os únicos sobreviventes da série original de 24, pelo que qualquer um deles pode ter sido o 163 da fotografia antiga. Contudo e como individualmente apenas existem 4,16% de hipóteses dado terem existido 24 unidades, o mais provável é não ter sido nem um nem outro.

O "163" já devidamente restaurado, à parte o lanternim e a caixa de destino (foto de https://hiveminer.com/ - pormenor).
O "163" ainda em serviço, como 107 e já muito descaracterizado do seu aspeto original (foto de https://hiveminer.com/ - pormenor).

Não é portanto taxativo que o exemplar que se encontra no museu seja quer o da foto, quer o do acidente, sendo mais provável que não seja esse o caso. Ainda assim continua a ser, para mim, um elétrico precioso pela antiguidade e por ser original.

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NOTA:
Muita desta informação colhi pessoalmente dos meus encontros com o Sr. Ernst Kers que é para mim a pessoa que melhor conhece a história da frota de carros elétricos da CCFP/STCP. Para saber mais sobre estes veículos: The trams of Porto

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A meridiana da Torre dos Clérigos

Já ouvira há tempos falar deste mecanismo que esteve instalado no topo da Torre dos Clérigos, sobretudo dos escritos arquivados por quem ainda dela se lembravam, nas antigas páginas d' O Tripeiro. Pela meridiana acertaram os portuenses, durante décadas, os seus relógios. Depois de subsistir na torre durante largos anos, esteve a engenhoca instalada na casa mais alta (qual?) da rua 31 de Janeiro, onde ainda existiu durante pouco mais de um ano.

Nos apontamentos recolhidos n' O Tripeiro não recolhiqualquer referência à data em que havia sido instalada, por isso foi com grande alegria que descobri o texto escrito pelo próprio autor do automatismo no jornal O Nacional. Este vem datado de Maio de 1846 mas surge apenas publicado em Julho. Ainda nesse mês, no dia 13, o presidente da Comissão Municipal, José Passos juntamente com  Filipe José de Almeida, Martins dos Santos e Ribeiro Pereira ali se deslocaram em vistoria.

Eis então o relato sobre o funcionamento do mecanismo, pelo punho do seu autor.


«»

«Snr. Redactor, - Nem tudo será eivado do phrenesi do seculo, nem tudo será politica no nosso reino. Nesse vortice immenso em que giramos, onde mais vezes se batem as paixões que os interesses do paiz, tambem alguma cousa ha-de surgir de verdadeira utilidade. O Porto acaba de fazer uma adquisição desta especie, e por fortuna minha coube-me a mim o seu desempenho. Ahi tem elle uma meridiana sonante, ahi tem ele por tanto satisfeita uma das suas grandes necessidades.

A simples meridiana é uma maquina demasiado comprehensivel e de facil obra, mas não assim se este instrumento se encarrega de transmittir a hora que marca para um ponto longinquo por meio do toque de sinos. A meridiana que hoje tem o Porto pratica isto.

Acha-se ella colocada no magnifico e a todos os respeitos muito apropriado edificio da torre dos Clerigos, e a seguinte é a descrição abreviada do seu maquinismo e effeitos.

Passando o sol pela linha norte-sul da cidade (segundo a fraze ainda hoje recebida) um de oito delgados cordões feitos de quatro fios de retroz preto, que se acha na mesma linha, se queima quando ferido pelo foco de uma lente, e immediatamente pelos espaço de quasi dous minutos, se faz ouvir um repique em muitos sinos, e a detonação de um morteiro. Isto se passa na altura de 52 metros, ou pouco mais ou menos 235 palmos acima da baze da torre, e portanto dá aviso à maior parte da cidade de quando é o seu verdadeiro meio dia, e convida a todos para que regulem os seus relogios talvez duzentas e tantas vezes por anno que tantos são os dias presumiveis em que a atmosfera do Porto deixa ver a face do sol, devendo ao mesmo tempo fazer-se uso das tabuas d’equação, que muito bom seria, snr. redactor, se um qualquer periodico nos desse a sua publicação de futuro para mais commodidade dos habitantes.

Não obstante estar a meridiana collocada fóra da torre: e distante da máquina que tange os sinos, cousa de 50 palmos [11m], e esta afastada delles uns 102 [22,44m], o que tornou um pouco dificil a communicação deste lado; tudo se venceu, e uma vez truncado o cordão que se expoz á acção dos raios solares convergidos pela lente, os sinos tocam, echôa o morteiro, e a peça que contem os 8 cordões foge da sua posição, para depois de dar tempo á deslocalisação do fóco, vir offerecer, por um outro movimento que faz sobre o seu eixo, um novo cordão que no outro dia ha-de repetir esta mesma scena. E porque são 8 os cordões, e 8 tambem os dias de corda que aquella maquina tem, só depois de sectionado o ultimo cordão, é que é preciso refaze-la de novos cordões, e de nova corda que é necessario dar-lhe.
Pormenor de uma imagem de Frederic Flower que mostra a Torre dos Clérigos na altura em que a meridiana ali se encontrava instalada.
Se alguma meridiana semelhante a esta existe na Europa ou na America, eu não tenho disso conhecimento, e se as leis da mecanica não fossem circumcriptas a certos respeitos, e por isso mais faceis de se repetirem os seus resultados do que é possível renovarem-se as figuras do Kaleidoscopo, eu não teria duvida em sustentar que de certo outra meridiana igual não ha, por isso que ella é de minha pura invenção, e execução no mais delicado de suas partes. E ainda me lisongeio, que tão feliz fui em suas combinações, que nenhuma me falhou, e não tive que perder uma unica peça, salvo as que engeitei por menos consistentes, e ainda algumas outros em consequência do novo acordo tomado para serem tangidos mais sinos, e não um só.

Convencido como estou de que a minha obra é de inquestionavel utilidade, não quererei para mim o exclusivo dos ganhos que d’ahi possam provir; e por isso direi que o Porto a deve à Ex.ma. Camara municipal que a mandou fazer, aos seus commissionados, os Ill.mos snrs. Antonio Alves de Sousa Guimarães, e Manuel Joaquim Gomes Guimarães que comigo trataram; a s. Exc.ª o snr. bispo da diocese, aos Ill.mos mesarios da irmandade dos clerigos e seu secretario o Ill.mo snr. D. Francisco da Piedade Silveira, que prestaram o edificio, e finalmente aos meus amigos os Ill.mos. Snrs. Francisco Joaquim da Silva Natividade, João Vieira Pinto, Luiz Ferreira de Sousa Cruz, que particularmente me prestaram todo o auxilio de que careci para a levar a cabo, e outras mais pessoas que muito me obsequiaram, e que por não ser nimiamente prolixo deixo de mencionar, e a quem peço desculpa, e agradeço.

Sou, snr. redactor, de V. muito attento venerador e criado,
Verissimo Alves Pereira -  Porto 10 de Maio de 1846»

«»


Os Tripeiros que este aparelho conheceram e eram ainda vivos em 1908 escreveram nas páginas d' O Tripeiro várias notas das quais destaco a seguinte:

«... a tal meridiana, era um morteiro, carregado com pólvora grossa, chamada de pedreira, por ser da tal que servia para carregar os tiros abertos por meio de broca nas pedreiras, e que cheirava mal a tres kilometros de distancia, e proximo d'esse morteiro estava colocado um pequeno aparelho com uma lente cujos raios á hora do meio dia convergiam para o rastilho que estava á entrada do ouvido do morteiro, inflammavam a polvora d'elle, e zás... púm-úm-úm!

Toda a gente que trazia relogio no bolso, puchava por elle, não para saber se era meio dia, que annunciava o tal púm!, mas para vêr se os jornaes que traziam a equação do tempo, prevenindo do minuto ou segundos em que o morteiro fazia púm, antes ou depois do meio dia verdadeiro, falavam certo.

Escusado será dizer que nos dias em que não havia sol a descoberto, não havia meio dia.

Tres, quatro, ou mais dias de chuva ou de nevoa, como acontece durante o inverno, e a respeito do meio dia... nicles!

Ora como o tal púm ao meio dia fazia estremecer as pedras da tal varanda onde collocavam os taes páus com os saccos de café (salvo seja) e  ia-as desconjuntando pouco a pouco, resolveu quem d'isso tratava, supprimir o ta púm! com grave desgosto para os pedreiros e carpinteiros principalmente, que tinham grande sympathia pelos relogios de sol, que só regulavam quando havia sol, mas que elles colocavam sobre uma pedra, para quando désse o tiro na torre dos Clérigos, irem vêr se estavam certos!...»

Extraído de uma correspondência de um senhor que simplemente assinou F e que apareceu n' O Tripeiro, ano 1, p. 176.

NOTA: A observação sobre os paus e o sacos de café fica - prometo! - para o próximo post. Acreditem que é deveras interessante para sabermos mais um pouco de como se regulava o mundo do século XIX com os seus sucessivos avanços tecnológicos, mas ainda com bastantes limitações!

domingo, 29 de janeiro de 2017

Um naufrágio no rio da Vila

Bom, ainda não saímos da zona de Mouzinho da Silveira, pois desta feita pretendo mostrar um escrito curioso de um indivíduo que conheceu o rio da Vila.. digamos que, intimamente....

Como se trata de um registo puramente pessoal, poderão os meus caros leitores não pensar grande coisa dele. Contudo, dado a realidade já extinta de que trata creio que é interessante recupera-lo das páginas da centenária revista em que foi arquivada para as "páginas" deste blogue.
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«(...)

Fui vegetando por esta boa terra, até que, um dia, me domiciliaram numa casa da rua das Flores, que tinha quintal com porta para o Rio da Vila.

Chegou o mês de janeiro (fazia um frio dos demónios) e em todos os teatros havia bailes de máscaras animadíssimos, elogiados por toda a gente, onde, ao que eu ouvia dizer, se me afigurava que seria tal o encantamento, a voluptuosidade, que a tudo quanto era belo suplantaria! Não mais deixou de me assediar a ideia de me transportar àquele lugar delicioso. O baile de máscaras! O baile de máscaras!! Na minha imaginação, só ali se conglobavam todas as delícias!

De mais a mais, eu tinha visto, lá em casa uma coleção de fatos para máscaras, e, entre eles, uma farpela de zuavo... que estava mesmo a calhar cá para o rapaz!

A minha preocupação em achar o meio de realisar aquele ardente desejo, era inabalável.

Tinha já uns amigalhotes, tão bons como eu, e com três deles permutei impressões a respeito dos bailes. Como era de presumir, concordamos logo todos em que estudasse cada um o modo mais fácil de, num determinado sábado, irmos juntos gozar do tripúdio carnavalesco.

Eu projetei, então, a minha saída pelo Rio da Vila, porque em vista da regra do recolheimento, não podia ser de outra maneira. Os meus sócios planearam a saída pela porta da rua, e numa última conferência que tivemos, combinamos que a reunião fosse na rua da Ponte Nova, onde eles iriam esperar que eu aparecesse, visto que a minha saída era a mais receada.

Chegou o almejado sábado, e eu só pensava na hora de poder ir para a minha alcova, e que toda a gente se deitasse, para eu por em prática o meu projeto.

Enfim, às nove horas da noite, já eu estava no meu quarto, já tinha apanhado o fato e só esperava a oportunidade de me por ao fresco.

Pouco depois, revia-me eu, cheio de bazófia, vestido de zuavo, com um enorme bigode, parecendo-me até que tudo em volta de mim era argelino.

Quanto (sic) vi que era ocasião, desci ao quintal, e, num passo cadênciado, como cá imaginei que devia caminhar um destemido zuavo, segui, ovante, até à porta do Rio da Vila. Coragem de soldado...macanjo!

Ali apareceu logo um empecilho: foi o estafermo da porta que não abria nem pelo diabo; mas à força de empurrões com toda a gana, lá consegui uma greta, por onde, de esguelha, me escoei.

Eu já disse que esta cena se passava no mês de janeiro; portanto, o rio, naquela ocasião, corria caudaloso, pelos seus afluentes, de diversas espécies de líquidos, mais ou menos densos, com os seus sólidos à mistura.

Não obstante o volume líquido, estava eu muito persuadido de que o leito do rio seria facílimo de transpor, e, por isso, foi com toda a afoiteza - afoiteza de zuavo, e zuavo uniformisado! - que avancei uns passos em frente da porta de saída; mas, mal diria eu que bem triste, cruel e vergonhosamente seria logo reprimida a minha audácia.

Naquele fundo havia um acomulamento de limo, talvez coevo dos godos, e à superfície daquelas cachopos, estava aderente uma camada escorregadia sobre que se não podia firmar um pé.

Ao segundo ou terceiro passo que tentei dar dentro de água, sem que me fosse possível evita-lo, fui, de repente, precipitado naquele amálgama tenebroso, onde, ao querer encontrar um apoio que me sustivesse, só dava com substâncias massudas e viscosas, que ora se me escapavam, ora se me desfaziam nas mãos! Um horror!
O trajeto (aproximado) do rio da Vila que o Sr. L. C. percorreu na sua agonia lodosa surge aqui representado a amarelo. Por curiosidade, no tracejado a preto e branco, represento uma viela que ia da rua da Ponte Nova ao rio da Vila, onde terminava  abruptamente. Hoje ainda é visível do ar mas foi absorvida há muito pelos edifícios que repartia.
À maneira que, em porfiada luta, eu esbracejava, para que a corrente me não arrastasse, mais repetidas vezes mergulhava e me sentia envolto em fragmentos de matérias consistentes, exquisitamente moldadas, que se remexiam comigo, em todos os sentidos, sem que, por modo nenhum, eu pudesse resistir à impetuosidade daquela enxurrada!

Que tremendo desastre!

Aquilo é que foi ver-me entre as dez e as onze, porque, precisamente a essa hora é que eu sofria esse suplício!

Ora calculem, se podem, a minha crítica situação: retrogradar não era possível, porque já estava muito afastado do ponto de partida, e mesmo a força da corrente não deixava; grtiar por socorro, isso nem pensa-lo, porque era, a meu ver, a maior desgraça!...

Enfim, fui-me esforçando quanto pude, fui galgando aqueles cachopos, fui evitando, o mais possível, a passagem pelas guelas... daquilo, líquido ou sólido (e sempre passou qualquer coisa) e assim me aguentei - que remédio! - até ver... eu sabia lá o quê!

Mas, oh fatalidade! O caso, de repente, tornou-se ainda muito mais tétrico! Sucedeu que, no meu barafustar, me fui aproximando tanto de um açude, que eu não sabia existir ali, que repentinamente, faltando-me os pés, faltando-me as mãos, e não sei se mais alguma coisa, senti-me ir, de escantilhão, por um declive, que parecia arremessar comigo prás profundas do inferno!

Então, sim! Então houve um minuto em que me vi seriamente atrapalhado!...

Quando parou aquele diabólico movimento rolante do meu corpo, achava-me lá em baixo, nos Aloques da Biquinha!...

Não sei nada do que se passou, durante aqueles momentos em que rebolei; sei só que, quando cheguei aos Aloques, o vistoso gorro, e o façanhudo bigode, que me completavam o garboso donaire de zuavo, tinham ido pela água abaixo - naufragaram!

Ali, porém, já me considerava liberto de perigo, em sítio propício a uma imediata retirada; portanto, procurei ver algum ponto por onde podesse sair daquele atascadeiro, e - oh! maravilha! - eis que lobriguei, sobre as alpondras da margem direita, os três meus associados, atónitos e em atitude protetiva.

Que alegrão! Que suprema ventura para este pobre naufrago!

Rapidamente se me improvisaram socorros, e pouco depois, saltava eu para junto dos meus colegas, carecente de lhes ouvir palavras de conforto, pelas torturas que eu tinha passado, e de que lhes ia fazer exata narrativa.

Aqueles manganões, porém, vendo o estado lastimoso em que eu me apresentava, de braços pendidos, tudo pendido, tudo encharcado, tudo a tresandar, - largaram a rir, a rir, sem me dirigirem uma única frase consoladora, e sem, ao menos, quererem chegar-se a mim!... Que bárbaros!

E ali estava eu exposto, a tiritar, tal e qual:

À meia noite
Saiu de um cano
..............
O Crispiniano.

Por fim, lá se fartaram de rir à custa da minha desgraça, e eu pude relatar-lhe todas as fases da crise aflitiva por que passei.

Comoveram-se, e, então, resolvemos empregar todos os esforços para eu regressar a casa. Assim, depois de apreciados diferentes alvitres, assentou-se em que fossemos pelo túnel do lado da rua do Souto, observar se seria possível passar pelo fundo dos quintais das casas da viela do Anjo, na margem esquerda do Rio da Vila, até ao ponto fronteiro à porta da casa onde eu tinha de regressar, a ver se lá poderia atravessar o rio.

Subimos, pois, umas escadas que iam ter à rua da Ponte Nova, seguimos pela viela do Anjo, voltamos à rua do Souto e lá entramos no túnel.

Eu, cada vez mais tiritante, com a farpela empastada e grudada á pele, lá seguia os outros, cabisbaixo e acabrunhadissimo!

O baile, esse já nem passava pela ideia: má hora em que eu tive tão infortunada lembrança!

Chegamos aos quintais da viela do Anjo, e, por uma felicidade enorme, podemos atravessa-los, pela beirinha do rio, até defronte da porta, por onde eu tinha saido como um altivo zuavo, e pretendia depois entrar como... um indecente pingão.

Uma vez ali, não havia tempo a perder: era preciso completar a obra.

Efetivamente, depois de tomadas umas ligeiras precauções, e de eu recuperar ânimo, até onde pode ser, fiz uma atrapalhada investida...

recuei, tomei folego... tornei a investir, formei um salto, tornei a recuar... - mas por fim, empertigado, todo arrogante - zás! - dei um pulo, com todo o meu arreganho e... fui cair, de cócoras, próximo da porta.

Ali, engatinhei um bocado, enfureci-me, esperneei com todo o meu vigor e intrépidez de que podia dispor em tão difícil conjentura, e... finalmente estava salvo!

Alcancei a soleira da porta, voltei-me, de lá, para os companheiros, enviei-lhes um punhado de saudações, e fui encerrar-me no dormitório . de onde não devia ter saído.

Deixo, agora, cá só para mim, o que se passou a respeito da farpela de zuavo, que foi preciso desaparecer, como sucedeu ao gorro e ao bigode.

Ora, creio ficar bem demonstrado, que foi retumbante aquele meu batismo na rapioca; mas saiba-se também que, por falta de vocação, não correspondi ás atrações. É verdade que, depois de saber da facilidade com que podia sair do túnel, por lá passei muitas vezes, mas... com certo recato, quando o rio levava pouca água e... sem vestuário de máscara

(...)

C.L.»

de O tripeiro (ano 3, p. 50-51)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O Motim das Maçarocas

Creio que as pessoas que se dedicam a conhecer a história da nossa cidade conhecerão ou pelo menos já ouviu ou leu em tempos, algo sobre este motim. Foi, ao que parece, uma sublevação do povo contra a opressão fiscal imposta por Filipe III (IV de Espanha e último dos nossos Filipes) que necessitava sempre e cada vez mais, de dinheiro para o negócio do socorro da Índia, ou seja, defender as possessões portuguesas do Indico.

Todos os autores que a ele se referem desde os inícios do séc. XX até hoje, vão busca-lo sobretudo a Agostinho Rebelo da Costa, que viveu quase duzentos anos depois dele. Contudo o que muita gente desconhece é que a fonte principal do autor da Descrição topográfica e histórica da cidade do Porto terá sido Manoel Pereira de Novaes, beneditino que passou a maior parte da sua vida na Galiza, mas portuense de origem e que aqui terá passado muita da sua juventude. Não se julgue que Novaes é contemporâneo dos acontecimentos uma vez que ele escreve pelos anos 80 do séc. XVII e estes deram-se ainda nos anos 20 do mesmo século. Quando muito seria um jovem de tenra idade. Me parece que a sua narrativa não poderia ter vindo da memória... Seja como for, dada a descrição cheia de colorido e pormenor que faz da sublevação, leva-me a crer tivesse consultado pessoas que presenciassem os factos que abaixo se vão ler.

Uma advertência: pelo menos a data de 1628 estará erradamente atribuída. Segundo informação que colho da História da Cidade do Porto, coordenada pelo Prof. Damião Peres e publicada pela Portucalense Editora, ter-se-á dado o caso no ano seguinte.

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Sigamos então Manoel Pereira de Novaes:
«(…) por el año de 1628, llegò Don Francisco de Lucena, Secretario del Consejo de Estado de Portugal, que residia en Madrid, mandado por el mesmo Real Consejo a efecto de poner en esta ciudad de o Porto cierto impuesto y tributo, que llamauan el Real de Agoa, y, por otro estilo, de las Massarocas.

De lo qual, por la sospecha que yà corria en el pueblo, que temia se lleuasse a execusion este nuebo tributo, se leuantò tan grande aluoroto y mouimiento popular que apenas, sin euidente peligro, se pudo escapar el mesmo Don Francisco de Lucena y vno hijo suyo, que le acompañaua, acogiendose ambos al conuento de Santo Domingo, y de alli, por la huerta deste monasterio, a la huerta de San Francisco, y alli se puso en mayor y màs notorio peligro; porque el pueblo, lleuado de la sospecha, e de vn furor indomito, ciego y sin discursso, se ajuntò a la puerta deste conuento, assi de la iglesia, como a la de la Portaria, y con tanto desacato al sagrado deste monasterio, que quasi se atreuiò a romper la de la portaria, que sale a la calle que baxa a los Baños, y con tanta intrepidez, que, como digo, quasi la huuo arrombada para entrar en la clausura del conuento; e lo hisiera sin duda alguna si no fuera Don Francisco de Saa y Menezes, Camarero Mayor de su magestad, y Conde de Penaguiam y Matosiños, que, como es Alcalde y Capitan General de las armas de la ciudad, se puso luego a cauallo, mandò tocar caxas y juntò las banderas de milicia de los vezinos, y, con esta buena disposicion, y mandar que, desde la portaria del counento hasta la plaça de la Ribera y embarcadero del caiz, estuuiessen las companias de la ciudad puestas en ala, con sus mosquetes e arcabuzes calados y ceuados, de vna parte y otra de las calles, y mandar que las barcas del passaje del rio con los vergantines y bateles de todas las naos estuuiessen de prompto para el passaje, sacò del monasterio a Don Francisco y a su hijo, y, lleuandolos por medio de las companias que estauan animadas a las calles y ruas, les passò de la otra parte de la ciudad y puso en el monasterio de la sierra, sin peligro alguno; y luego mandò que los mesmos barcos y bateles y esquifes de la ciudad se passassen allà, a Villa Nueba, iuitando assi que los del motin no tuuiessen en que se pudiessen atreuer al passar de la otra banda.
Sítio onde Lucena e seu filho poderão ter atravessado a cerca do horta dominicana (D) para a franciscana (F). A linha marcada aponta sensivelmente o local onde existia o muro divisório.
Puesto assi Don Francisco de Lucena y su hijo en el monasterio de San Saluador de la Sierra, que es de Canonigos Reglares de San Agustin de la Congregacion de Santa Cruz de Coimbra, fuè visitado de nuestro obispo, Don Fray Iuan de Valladares, y de los señores de la camara; porque estes no tuuieron influxo en este atrebimiento, porque todo ello procediò en todo lo màs asqueroso y vil de la plebe, y sin cabeça, nin disposicion, solo guiados de su libertad y de lo primero que se les puso en la aprehencion de su indiscreto furor; con que, ciegos obraron esta inaduertida insolencia, con que los senadores de la ciudad le quisieron boluer a ella para poner en execucion el orden del real consejo, lo qual no quiso haser el mesmo señor Don Francisco de Luçena.
Portaria do convento e entrada da Igreja franciscana, onde os revoltosos se terão aglomerado (a portaria não era ainda esta mas o local é o mesmo).
Nuestro señor obispo se offreciò a lo mismo, como tan interezado en la amistad, que el secretario Lucena tenia com Mendo da Mota Valladares, su hermano, que era oydor del mesmo real consejo, y le offreciò su palacio que el Lucena no acceptò; no por desconfiança del praelado, que bien conocia su sinceridad, sinò por obuiar algun otro peligro que acarreasse el tienpo, como assi luego aconteciò; porque los amotinados, como gente indomita y cerril, cerrando los ojos al discursso, buscando barcos en San Iuan da Foz, Ouro y Maçarellos, passaron el conuento de la sierra, a tienpo que estaua visitando a Don Francisco de Lucena el Corregedor, Pedro Ferraz de Nouaes, y el Iuez de Fora.

De suerte que del tropel y estrondo de los tumultuosos no tuuo otro remedio el secretario Lucena y su hijo sinò de metersse a dentro del bosque de la tapada del conuento y passarsse a Quebrantones, y aqui, montado a cauallo se partieron desconocidos a Madrid, a dar quenta al consejo del lançe del sucesso, que fuè notable en el desalino y desacato, acompañandole el mesmo Iuez de Fora y Corregedor.
Mosteiro dos Conegos Regrantes de Santo Agostinho, onde Lucena se refugiou e dali fugiu, pelo bosque, em direção a Quebrantões, a salvo da populaça.
En esta ocasion deste tumulto, no estaua en la ciudad el Gouernador de la Chancilleria, Diego Lopez de Souza, Conde II de Miranda, que, a estar, no sè como passara tan leuemente el castigo deste motin tan ciego y indiscreto; porque aunque se castigò, no fuè con la acrimonia que merecia este popular y soez atreuimiento. 
Nuestro obispo se huuo con notable dolor de sentimiento; pero, no lo pudo remediar, aunque despues, con cartas para su hermano, Mendo da Mota de Valladares, y para el Praesidente del Consejo, Don Carlos de Aragon, en que intercedia por la ciudad, y su indemnidad, fuè de mucha consequencia, para que el castigo tuuiesse termino, y no se passasse adelante en el castigo de los delinquentes, con que se le deue, a el, el poco cazo que se hizo del delito. (...)»
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E assim voltou para Madrid o enviado de Filipe III...

Com efeito e aparentemente, a admoestação de Filipe III nem existiu, apenas chegando ao Porto uma carta felicitando os do Concelho pelo modo como haviam defendido a vida do seu enviado, particularmente no que toca "ao excesso que alguuns moços e povo miudo commetterão".

Terá tudo acontecido como o pinta Novaes? Quem o poderá firmar com plena certeza hoje? A história é feita e contada pelos sobreviventes sejam eles pessoas, relatos ou documentos. E este é o relato mais antigo do suposto motim, ao qual como atrás referido, todos os outros vão beber e por vezes estropiar.

Quem quiser tomar conhecimento de uma outra revolta no Porto contra o governo de Filipe III poderá ler este trabalho. Este aconteceu já nas vésperas da conjura de 1640 que veio a eleger de novo um monarca português.

domingo, 22 de janeiro de 2017

A capela do Calvário Novo e duas fotos intrigantes...

A capela do Senhor do Calvário erguia-se no local onde hoje se encontra a entrada do parque de estacionamento privado do Palácio da Justiça. Praticamente adjacente a ela encontrava-se a casa da Roda dos Expostos - triste reflexo de uma expressão social felizmente erradicada - e ao lado desta esteve o Mercado do Peixe no local onde se haviam já erguido outrora os celeiros da cidade. Confuso o leitor? Nada que as fotos não resolvam!

Local onde esteve a capela do Calvário Novo (foto SIPA). À esq. temos a íngreme rua Dr. António de Sousa Macedo (Ex-Travessa do Calvário) e a rua do Dr. Barbosa de Castro (Ex-Rua do Calvário).

Pormenor de uma panorâmica anterior, pelo menos, a 1864. 1- Celeiros da cidade onde mais tarde existirá o Mercado do Peixe também já desaparecido; 2 Roda dos Expostos (antigo Hospício dos Capuchos); 3 - Capela do Calvário; 4 - Reitoria da Univ. do Porto (em construção); 5 - Paredão das Virtudes; 6 - Igreja da Graça e Colégio dos Meninos Orfãos que viriam a ser demolidos para dar lugar a grande parte do edifício da Reitoria.
Neste pormenor de uma panorâmica dos anos 20 ou 30 do séc. XX vemos quase os mesmos edifícios (mantive a numeração), contudo o n.º 1 é agora o Mercado do Peixe, demolido nos anos 50 do séc. XX.

Neste extracto de uma planta do AHMP, vemos os edifícios que tenho vindo a referir com a indicação para melhor localização do local, da capela das Taipas (a) e o hospital de St. António (b).

Outro extrato de uma planta, desta feita a de Telles Ferreira de 1892, onde se vêm os edifícios em questão.
Mas, centrando a vossa atenção na capela, pude consultar a obra de 1972 de Bernardo Xavier Coutinho (História documental da Ordem da Trindade) onde consta um documento curioso para a história desta capela e sua confraria. Diz assim:

«ORIGEM DA CAPPELA E CONFRARIA DO CALVARIO NOVO
Teve principio a capella e confraria do Senhor do Calvario Novo com o titulo do Bom Jesus de Bouças pela via sacra que principiava na Senhora da Esperança - o Calvario Velho foi onde hoje se acha a Igreja e Convento das Carmelitas  [lado sul da Praça Guilherme Gomes Fernandes] - havia huma simples cruz de pedra quadrada antiguissima e nella uma imagem de Christo pintada junto a huma cerca de terra dizima a Deos. Consta do Prazo que fez à Camara João Baptista Ferreira, em 1683 haver já a Capellinha do Senhor, como se vê das confrontações, crescia em augmento esta Confraria de sorte que, no anno de 1700, fizerão huns Estatutos confirmados e sugeitos ao Ordinario. Tendo grande devoção, Magdalena da Cruz Campobello, da Villa de Guimarães com o Senhor, fez o contracto de doação à Confraria, em 1703, com a obrigação de lhe fazerem huma Caza junto à Capella que julgo ser a terra da cerquinha da dita Magdalena da Cruz, para a dita viver .... Consistia a Capella naquelle tempo ser pequena, baixa, com hum alpendre de fora e huma Caza ao pé da Fabrica e Ermitão...

Em o anno de 1703 emprazarão os Mordomos à Camera a terra para reedificarem o corpo da Capella com o alpendre por Prazo fateuzim ... acabarão o corpo da Capella em 1705 e continuarão a obras de 1737 ... Em 1734 forão inquietados pelos Religiozos vezinhoos capuchos, alem das demandas, em pedirem a Capella ao Rey o Senhor D. João Quinto. Em 1737 fizerão os assentos ao redor da Capella e outras obras, tudo á custa da Confraria, como se vê de huma pedra nella esculpida que diz: Esta obra assim cazas como pateo e assentos se mandou fazer à custa das do Calvario Novo anno 1737.

A capela e adjacências nos inícios do século XVIII.
Em 1739 para 1740, se tirou a cruz de pedra e se pôz na Sachristia; se colocarão as Imagens que tinhão mandado fazer em vulto do Senhor Crucificado, e morto.

Não se descuidarão os Capuchos em verem de que modo havião de uzurpar a Capella, de sorte que começarão a miná-la pela parte de traz que confina com a sua Cerca, e movendo-se pleitos sobre isto se fez vistoria que se julgou por sentença ... e de que dipois rezultou fazer-se o paredão. Da parte da Viella intentou o Galvão fazer humas Cazas terreas encostado ao muro do paceio e Logradouro da dita Capella e fazendo-se vistoria, se julgou ser a terra do Publico ....

Em 1784 tornaram a pedir a Capella os Capuchos à Raynha a Senhora D. Maria primeira, vindo a informar responderão até o anno de 1787 por motivo de que fizerão o contracto de transacção com a Ordem [da Trindade].»
A capela no fim do século XIX ou início do XX, já reduzida a armazém.
Com efeito, a Ordem da Trindade foi erecta na capela da Batalha (também já desaparecida) em 29 de junho de 1781, transferindo-se para a do Calvário em 26 de Novembro de 1786. No processo aglutinaram a confraria do Calvário: «... por isso fizerão aquelle comtracto, com os da Comfraria do Calvario, de tomar conta, e posse da Capella e todos os mais Bens, ficando a Comfraria extinta, emtrando para Irmãos terceiros todos que erão, e possuiô a dita Comfraria ... declarando somento que no dia da Festa da Santíssima Trindade no qual costumavam Festejar o Senhor do Calvario farião comemoração do mesmo Senhor....»

Mas os vizinhos Capuchos não deixaram de azucrinar a cabeça, agora à Ordem da Trindade. E assim pediram ao Chanceler Governador Roberto Vidal da Gama que lhes dispensasse a capela para nela poderem confessar. Este acedeu ao pedido e «...forão os Padres com offeciais de Justiça com hum comfencionario para emtravar a Capella ao que acodio o Reverendo Capellão que nella se achava actualmente e a pontapés sacodio tudo pella porta fora...»

A igreja da Trindade, na verdade, poderia nunca ter sido erguida no local onde hoje se encontra, caso os Capuchos não tivesse feito de tudo para ficar com aquela capela... Pois que a Ordem, querendo construir uma igreja maior, obteve uma provisão para emprazar terreno até à face da rua e com esse espaço mais o seu terreno próprio, teria área suficiente para uma igreja de tamanho mais decente, em acordo com o número de Irmãos. No entanto logo os Capuchos armaram desordem: «... e trabalhar já a respeito de votar pedra - na testada já com o embargo sobre o tilheiro da Cal de firmar sobre a parede da parte do Caminho, e no mesmo fazendo-se o aliserse sahirão com paus nas mãos para darem em alguns trabalhadores e Bemfeitores que depois do dia andavão no alicerse a tirar emtulhos para adiantamento da obra...». Os Capuchos vieram argumentar junto da rainha que aquela igreja era desnecessária por haver muitas à volta, que seria sumptuosa e assim esvaziaria os cofres da Ordem... E a ordem saiu para «que se conservasse tudo no Estado antiguo».

E assim, querendo os da Trindade se defender, «tractouse de mostrar a verdade porem como esta he mansa e anda de Vagar» os Irmãos já não conseguiram reverter a situação.
A antiga capela nos anos 30 do séc. XX, pouco antes da demolição. Notar que já se haviam rasgado quatro portais no seu rés-do-chão, fruto de uma utilização de décadas como edifício comercial. A seu lado a Roda dos Expostos (2) e o Mercado do Peixe (1) ao lado.
Assim, o sonho de construir ali uma igreja, tão ampla como a da Trindade que agora temos, esfumou-se e após as últimas alegações dos Capuchos que diziam que na abertura dos alicerces já tinham morrido 3 homens, deu ordem para «emtupir» esses mesmos alicerces o Juíz dos Orfãos da cidade e quando a Ordem da Trindade requerer um local para arrumar a pedra lavrada, «respondeo que a metesse pella Igreja Dentro...».

NOTA: Os capuchos que se referem no texto eram os Franciscanos do Vale da Piedade, em Gaia, que resolvendo construir um estabelecimento para a cura dos seus doentes, requereram à camara faze-lo dentro da cidade. Em 1722 foi-lhes concedido um local na praça da Cordoaria, onde segundo Sousa Reis construiram «huma enfermaria ... e de tal forma a levantaraõ que veio a ser hum bom Hospicio bem assente com otimas vistas, annexando lhe dous soberbos armazens de que colhiaõ pingue alugueres». Este edifício, com a extinção das Ordens religiosas em 1734 foi escolhido para fundação da Biblioteca Pública Municipal do Porto, contudo por ser desadequado, no mesmo foi depois estabelecida a Roda dos Expostos.

Nesta foto do AHMP vemos em destaque as traseiras do Mercado do Peixe e ao seu lado, com o nº 2 o edifício da Roda dos Expostos, antigo Hospício dos Capuchos.
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Finalizo com um enigma... As duas imagens que se mostram abaixo pertencem ao AHMP e não estão identificadas quanto ao edifício que representa mas onde se pode claramente verificar que foi na sua origem religioso. Se olharmos com alguma atenção, na parede interna visível existem muitos entalhes onde se colocaram traves por forma a formar um sobrado. Ora uma igreja nunca teria um sobrado, muito menos naquele local, na aproximação à capela-mor(!) pelo que aquele edifício desempenhou no fim da sua vida outras funções...

Tenho para mim, que estas fotos representam a demolição capela do Senhor do Calvário. Ajudou-me também a pensar desta forma a ausência de edifícios por trás, bem como o desnível aparente, que se vê para o edifício que surge á esquerda com a sua claraboia, que parece ser o mesmo que se encontra do outro lado da rua na segunda imagem desta postagem..

Obviamente que nunca ou dificilmente terei certeza deste meu pensar, mas e já agora, pergunto aos meus caros leitores: Estarei a querer ver demais?