domingo, 28 de agosto de 2016

Uma fotografia insignificante...

A imagem que deu razão a esta postagem é uma insignificante (feia até) fotografia de uma parte dos cobertos de Miragaia. Contudo, melhor a analisando podemos verificar que se trata de um documento único apesar do o confrangedor cenário de semi-ruina que ali se apresenta. Eis a fotografia:
A - Rua dos Cobertos (agora de Miragaia)
Ora olhando e re-olhando para ele verifica-se que estas casas são aquelas que se apresentam no pormenor da imagem abaixo assinaladas com o rectângulo. A ladeá-las estava aquela que agora é a primeira casa na Rua de Miragaia vindo do Largo Artur Arcos (assinalada na foto B com o n.º 2 mas não presente na foto A) e a casa que se encontra agora com a sua frente para o mesmo largo mas que originalmente tinha a fachada sustentada por dois arcos que davam para a praia de Miragaia.

Para melhor localizar assinala-se com o n.º 3 a Porta Nova ou Nobre e o seu fortim, tão amplamente referido neste blogue, na imagem B.
B - Pormenor de panorâmica antiga
A foto C mostra o local na atualidade. Será de reparar que a foto A foi já tirada de cima da sapata da rua da nova alfândega que foi construída dali para Poente, em direção ao edifício alfandegário, primeiro do que o lado nascente, pelo que a C só tem a beneficiar disso em termos de perspetiva... A casa 1 e 2 estão assinaladas para melhor localização e o X marca o local onde estavam as casinhas.
C - O local literalmente hoje
Como curiosidade, na imagem D que consiste num pormenor da gravura de 1736 de Duncalf, podem-se vislumbrar os edifícios referenciados, em parte apresentando já varandas que parecem ser de ferro e outras ainda usando um sistema com portadas de madeira que abrem debaixo para cima e não para os lados como estamos modernamente acostumados. Um sistema sem dúvida mais antigo, talvez remontando ao tempo em que ter vidros nas janelas era um luxo...
D - Gravura de Duncalf (1736)
Sem dúvida terá sido mais o seu estado de ruína aliado à necessidade de alargar aquele espaço em vista a perda que aquela zona acabara de sofrer com o desaparecimento da praia de Miragaia, que terá ditado o desaparecimento daquelas singelas construções não históricas. Felizmente ficou-nos esta fotografia, outros verdadeiros monumentos pudessem ter tido essa sorte...

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CORREÇÃO:

A casa marcada com o n,º 1 não é, como originalmente refiro, a mesma que lá se encontrava antes das demolições do Bairro dos Banhos. Em baixo se comprova isso mesmo num pormenor de uma fotografia tirada aquando das demolições, onde a casa em questão já não existe. Sensivelmente no mesmo local foi construída a que lá vemos agora e que tem do seu lado nascente um bonito mural dedicado a Artur Arcos ( que dá nome ao largo).

Peço aos meus leitores a desculpa pelo lapso.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Nota de rodapé n.º 7 - da Capela de João Gordo

Uma pequena notícia recolhida num jornal de 15 de maio 1835. Sem comentários....

"Esta madrugada pelas 3 horas e meia deram sinal de rebate os sinos. Foi numa antiga capela, hoje loja de madeireiro, nos baixos da casa capitular da Sé: foi apegado por descuido de um oficial que havia ali feito a comida ... Nessa loja existe um antigo sepulcro com uma estátua de pedra. O edifício capitular esteve em perigo iminente de se incendiar, apesar de ser de abobado a loja."

 

Fotos: Wikipedia e AHMP (GisaWeb)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O Carroção pela pena de Ramalho Ortigão

Excerto de um texto de Ramalho Ortigão de 1876 em que este se refere ao carroção, o primeiro transporte coletivo do Porto.

"(...) Muita gente vinha do Porto, de madrugada [à Foz], tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinário inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção.

O carroção era um pequeno prédio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Dentro havia duas bancadas paralelas, em que se sentavam os viajantes. Por fora, sobre uma faixa pintada por uma cor alegre, lia-se o nome do proprietário e do inventor da máquina: Manoel José de Oliveira.

Quanta gente cabia num carroção? Nunca se pôde saber. Um carroção levava uma família. Que esta fosse pequena ou grande, o carroção não se importava com isso e levava-a. Levava-a de vagar, mas ia-a levando sempre.

O carroção

Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do teatro de S. João. A portinhola abria-se; havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se de que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora!


Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Matosinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes e penso para os bois! Para este fim havia bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidades, poderia arrumar-se -- outra família.

Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções, por um pinto (...). Por tão módica quantia teve Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pelos diversos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.

Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro dele e de se por a olhar para fora pelos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.

O primeiro golpe na popularidade enorme de Manel Zé  foi-lhe verberado pelo segeiro Tavares, da rua da Boavista. Em certo dia de função suburbana Tavares pôs na rua três carroções novos, de cores extraordinárias, maiores do que os de Manel Zé e aperfeiçoados com o apenso festival de uma bandeira. Estes três carroções chamavam-se o Rápido, o Veloz e o Ligeiro. Do Porto à Foz, uma légua, ida e volta, grande celeridade, a toda a força dos bois, - um dia.

Manel Zé, vendo passar o Ligeiro, - e só Deus sabe o tempo que o Ligeiro levava a passar! - desmaiou de desgosto.

Carroção particular
Além destes carroções de aluguer puxados por bois, havia os carroções particulares, puxados por vacas.

Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento. (...)"

Completo estas notas com o apontamento de uma curiosa notícia que li num jornal de 1836 na BPMP em que se refere precisamente a um acidente que sofreu uma distinta família da cidade que descia Cimo de Vila para vir ao teatro, no seu carroção. Acontece que, estando a passar uma banda marcial do exército em pleno toque, os bois lançaram-se, assustados, e botaram  a correr rua abaixo. Separaram-se do carro que aos trambolhões se imobilizou em frente à fonte e continuaram a sua marcha rebocando apenas as rodas frontais, até populares os imobilizarem em frente à igreja da Misericórdia!!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A Rua da Almea, artéria esquecida da cidade

Há ruas agora extintas que pela sua importância no passado ou pelo seu relativamente recente desaparecimento ficaram melhor vincadas na memória da cidade do que outras. Basta lembrar por exemplo a Rua das Congostas (que para mim ainda existe, mas isso seriam outros "quinhentos"...).

A enorme mortandade de ruas que ocorreu com o quase completo arrasamento do chamado Bairro dos Banhos obliterou-as da memória da cidade, ao ponto de alguns historiadores amadores de hoje - onde humildemente me insiro - falarem por exemplo na Rua da Minhota localizada naquele bairro, como se essa designação fosse a de oitocentos; misturando designações mais recentes com antigas. Sem levarem em consideração que essa designação desapareceu bem antes da rua em si, tal como por exemplo no mesmo bairro o nome Rua da Ourivesaria deu lugar à Rua de S. Nicolau (e parte dela ainda existe!). Este cuidado urge para que não se misturem épocas de vida da cidade por vezes separados por séculos.

Então e a Rua da Almea? Pois já alguém ouviu falar dela? Na verdade dificilmente os interessados por estas coisas terão tido essa oportunidade, pois que a rua desapareceu por completo e de uma assentada no início do século XVII. Os responsáveis foram os Eremitas de Santo Agostinho que no seu local construíram o Convento de S. João Novo, agora transformado em tribunal.

Pelo ano 1602 foi entregue a esta religião a igreja paroquial de Belomonte após extinção daquela paróquia (que acabou retalhada entre S. Nicolau e Vitória). A igreja estava ainda inacabada, sem capela-mor: mas os frades optaram por demoli-la e construir um novo templo naquele espaço. Juntamente com ele foram também construídas as restantes dependências conventuais, que em última análise ditaram o fim da Rua da Boa Vista, nome pelo qual naquela altura era conhecida a Rua da Almea. Assim, foram compradas vinte e uma casas com quintais e outros cinco quintais separados para se poder dar início às fundações da casa monacal. Daqui se vê a razia que resultou pois a rua foi completamente obliterada do mapa da cidade, quase ao ponto, arriscamos escrever, de também desaparecer da memória dela.

A rua e sua vizinhança a sul (AHMP)
Esta artéria correria na direção Norte-Sul sensivelmente paralela à muralha fernandina, desde a Porta Nova (ou Nobre) até ao pequeno rossio formado junto ao Postigo da Cordoaria, i, é, a porta da muralha que abria para o início da atual Rua Tomás Gonzaga (antes Calçada da Esperança). Unia-se ao bairro dos banhos pela Minhota (ou Munhota), a julgar por estas descrições de casas que os dominicanos possuíam nas redondezas no século XVI e que dizia "esta rua é abaixo de Belmonte entre a porta nova e o postigo de S. Pedro, perto do muro...", mais à frente: "rua detrás da minhota ou almea" ou ainda: "rua da porta nova (Rua dos Banho) ... da banda do norte, pegada com a escada que vai da porta nova para cima para a rua da almeia ao longo do muro".

Localização conjetural da rua (bingmaps)
São tão poucas as referências a esta rua que ela não aparece nos mapas sobre estudos da cidade, nem mesmo na maqueta medieval do Porto (podendo contudo ainda não existir nesta época...). O que não será totalmente estranho, pelo facto de a maioria das ruas e vielas desta área terem cessado de existir em 1871 e 1872 e também pelo facto de este local se encontrar em plano secundário em relação à restante cidade histórica. Ainda assim, aqui fica um apontamento sobre a existência dela e que o seu desaparecimento se deu para ali se erguer o Convento de S. João Novo.

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Fontes: Cartório do convento dominicano do Porto e A imagem tem de saltar da Autoria de José Ferrão Afonso

sexta-feira, 29 de julho de 2016

As litografias de James Forrester de 1835

-- In, O Artilheiro, 4 de Março de 1836:


 BELAS ARTES

"É com o sentimento do mais entusiástico amor da pátria, que lançamos mãos da pena para noticiar que a heróica cidade do Porto principia a desenvolver de si o gosto particular de fazer conhecer os magníficos pontos de vista, que a fazem saliente entre as mais pitorescas cidades da Europa. De gravuras representando algumas paragens do Porto, só temos notícia da grande e antiga estampa, de antes de 1790, de toda a elevação da cidade, vista do Choupelo, a qual foi depois resumida para a Descrição de Agostinho Rebelo da Silva [sic]; bem como de uma vista de S. João da Foz, na mesma Descrição.

Há seis anos pouco mais ou menos, que numa obra periódica publicada em Londres, das principais cidades da Europa, se incluiu a cidade do Porto em um dos Folhetos, contendo somente 4 vistas - de quatro diferentes pontos, duas ao nascente, e duas ao poente dela.

Estava porém reservado para esta época, que Mr. Joseph James Forrester, mancebo inglês pertencente à casa comercial da firma aqui estabelecida com este sobrenome, principiasse a dar uma regular descrição de todas as belezas pitorescas do Porto, de que acabam de publicar-se duas partes, em 9 finíssimas estampas, gravadas primorosamente, e tiras em papel da China.

Os objetos escolhidos para princípio dessa coleção são:

O Porto visto do alto da Serra da Arrábida, olhando para o nascente.

O convento da Serra, visto do lado do sul fora da estrada que fechava a posição militar deste baluarte da liberdade no sítio de 1833, em um momento de ataque e defesa.

A vista do anfiteatro de toda a cidade, desde as Escadas do Codeçal até à Porta Nobre, tomado o ponto de vista do sítio das Alminhas nos Guindais de Vila Nova.


A vista de todo o lado da Serra, desde a Bateria da Eira, até à Bateria do Castelo de Gaia tomada do sítio em meio caminho da Corticeira.


 A vista do cais, e frontespicio da escadaria e igreja de Vale da Piedade, tomada da barreira que lhe fica contígua.


Uma vista tomada do muro do Jardim do Freixo, olhando pelo rio abaixo até às Baterias no alto e no Cais do Prado.

Uma vista tomada do alto de Avintes, sobre a margem oposta, desde Valbom até ao Freixo.

Além destas sete estampas, de cenas pitorescas em agradáveis pontos de vista, juntou-lhe o habilidosíssimo autor duas cenas domésticas, de merecimento igualmente distinto.

O interior da paroquial igreja de S. Nicolau em ocasião da celebração da missa do dia.


Uma cena no Mercado da Cordoaria, em ocasião de dia de Feira.

Por certo, que tudo quanto disséssemos de correção de desenho, beleza de edição, e merecimento geral da obra, seria gastar palavras supérfluas em elogios, que num lance de olhos se podem prestar vendo-se obra tão primorosa e tão lisonjeira para os portuenses, e seus admiradores.

O autor juntou a estas 9 vistas do Porto, um do Castelo da Figueira, tomada da parte da terra, em posição que mostra abranger três ou quatro milhas de costa.

Nós não sabemos que Mr. Forrester tenha de venda estes dous Cadernos, que abrangem as 10 mencionadas vistas: sabemos só que muitos dos seus amigos foram subscritores (em cujo número tivemos a honra de entrar) e que a subscrição foi de 4$800 reis. Não há nada mais barato, nem que tanto mostre o gosto e independência do autor, do que tratar ele de dar à luz estes ensaios de seu génio tão distinto em pintura de perspectiva, sem mais algum interesse, porque estamos certos de que estampas iguais, e do mesmo cunho, custam ordinariamente muito mais do dobro.

Como portuense, é nosso único fim agradecer por este modo publicamente ao Snr. Forrester este tributo da sua afeição a uma cidade, em cujo seio ele foi nosso companheiro no tempo do memorável sitio, defendido debaixo das ordens do imortal Duque de Bragança."

-- Adenda publicada no dia seguinte:

"No artigo a respeito do merecimento das estampas da cidade do Porto por Mr. Forrester, escapou-nos mencionar, que também tínhamos noticia de uma vista da entrada do Rio Douro pelo Snr. Kopke."

-- No dia 24 de Março surge também:

"Já no Artilheiro demos conta da publicação de várias vistas do Porto, pelo Snr. Forrester.

Para que se não julgue que o nosso juízo foi apaixonado no todo, sabemos que uma das pessoas inteligentes e de gosto desta cidade, a quem foram mandadas, por se achar ao presente numa quinta, escreveu a um amigo o seu juízo critico parcial sobre cada uma das estampas, o qual é o seguinte:
"Restituo as Vistas e agradeço o obséquio: resta-me dizer o juízo que faço delas. Quanto ao desenho está bom - a litografia é da melhor que se faz em Inglaterra, mas de algumas Vistas não sei se foram escolhidos os pontos para as tomar.

A Vista da Arrábida para cima, não faz grande efeito: o ponto junto ao rio para dar a mesma vista, abrangendo ambas as margens, parecia-me melhor escolhido: se o A. tomasse o ponto para esta vista de cima da montanha da Torre da Marca, em forma que abrangesse a linda vista do Candal até ao rio, e para cima, parte de Vila Nova &c seria de muito melhor efeito.

A do interior da igreja de S. Nicolau, está muito exata e linda: é pena que não fosse antes o interior da antiga e bela igreja dos frades de S. Francisco, ou a de S. Bento.

A perspetiva do Freixo, apresenta o Seminário e a China, demasiado pequenos, e nada mais dos muitos cotages que seguem para cima: esta vista seria melhor toada da Pedra Salgada, abrangendo o Freixo quasi na sua totalidade, o Esteiro de Campanhã e suas imediações.

O convento da Serra no tempo do cerco, está excelente em todo o sentido.

A da cidade tomada do princípio da Calçada da Serra, igualmente está muito boa: porém precisav para complemento, de outra vista da cidade tomada do Alto da Bandeira, para abranger até à Lapa &c e outra tomada do Castelo de Gaia, para abranger de Miragaia, às Virtudes, Hospital Novo, &c. Certo estou que quem tão bem soube desenhar as duas precedentes, igualmente o faria a estas, que em parte viriam a completar os três lados principais, donde o Porto precisa ser visto, e donde apresenta perspectivas diferentes.

A da feira da Cordoaria está linda e exata, mas se fosse tomada mais de longe, e não tanto no centro do local, talvez fizesse melhor efeito: talvez que do mercado do peixe, ou mais no Norte donde a vista abrangesse melhor espaço, seria melhor.

A de Santo António de Vale da Piedade está muito exata e boa.

A do Freixo parece demasiado pequena, e que se podia tirar mais partido deste belo edifício e local.

O Castelo da Figueira não o conheço; porém a vista é bela; só lhe acho lá um pescador, que me fez lembrar os napolitanos na bela peça do Massaniello: os portugueses não trazem botas, nem se ataviam tanto; ao menos os que tenho visto na maior parte das costas.

A Serra vista das Fontainhas está muito exata e linda."

terça-feira, 26 de julho de 2016

Local para os "Miros" no Porto?

Na sequência da notícia ontem avançada na comunicação social, dizendo que a coleção de obras de Miro poderão vir para o Porto; apresento a minha humilde "solução" para o espaço que o poderá albergar.

Trata-se do extinto museu de Etnografia e História - que ainda cheguei a visitar quando era miúdo - e que se encontra encerrado há décadas! Que melhor motivo para recuperar aquele palacete, e colocar uma importante coleção bem no coração da cidade, dando uma nova centralidade aquela pequena praça que atualmente quase passa despercebida de todos?
(imagem do googlemaps)


Que vos parece, distintos leitores?

domingo, 24 de julho de 2016

O fortim da Porta Nobre

Já aqui coloquei várias informações sobre a Porta Nobre e o desaparecido Bairro dos Banhos, para sempre destruído. Nunca duvidei - embora para isso careça da provas documentais - que grande parte da muralha bem como parte da Porta Nobre e do fortim não foram de facto destruídos, mas ficaram como já referido, sepultados no imenso sarcófago que é a sapata da rua Nova da Alfândega e sobretudo o local onde agora existe o parque de estacionamento. Alguns destes restos acabaram por ver a luz do dia, quando se fez uma sondagem prévia naquele local sensivelmente em frente à rua Comércio do Porto, no ano de 2004. Estava em vista fazer-se ali um projeto Docas como em Lisboa, mas talvez porque de facto apareceu um grande trecho da muralha - que antigamente era a continuação do chamado muro dos bacalhoeiros mais conhecida por rua de Cima do Muro, a coisa felizmente não avançou. Nessa altura, salvo erro o presidente da Junta de Freguesia de São Nicolau, teve a meu ver o infeliz comentário que ali aparecera um ninho de ratos... Certo é que ali está muita coisa ainda escondida... e a prova é que há uns anos aquando da reabilitação de uma casa da rua Nova da Alfândega foi descoberta outra por baixo dela, a rua que lhe estava contígua (não a dos Banho) e a parede da casa que se encontrava antigamente do outro lado da rua! Mas é óbvio, para quê demolir tudo, quando no fundo o que é preciso é encher tudo com entulho? Ora, atrás escrevi que carecia de obras documentais sobre a manutenção de parte das estruturas da muralha fernandina naquela área. Contudo algumas fotografias parecem corroborar pelo menos em parte esta teoria. Essas fotografias centram-se sobretudo no fortim que ali existiu.

à esquerda a praia de Miragaia com os cobertos, à direita a rua de Cima do Muro e ao centro o fortim da Porta Nobre.
O fortim e a sua moldura: ao lado deste é possível ver os torreões que ladeavam a Porta Nobre, atrás dele a escadaria que dava acesso à desaparecida rua de Cima do Muro.
Este pequeno baluarte foi construído sensivelmente ao mesmo tempo que o de S. João da Foz e talvez já estivesse finalizado em 1578 (certo é que em 1570 estava em construção). Brás Pereira foi o vedor da sua construção. O seu objetivo era claro, como diz na carta da sua construção: "...pera aí se assentar a artelharia para varejar o rio por não haver outro lugar mais conveniente onde se possa assetar; e era muito necessário para defensão da cidade..." As linhas atrás foram retiradas do estudo de Carlos Eduardo de Resende Fernandes Jorge de 2014, que pode ser consultado on line no repositório aberto da Universidade do Porto. Contudo num estudo mais antigo publicado em dois volumes e intitulado O Porto e o seu termo, parece indicar que aquela estrutura foi erguida nos últimos anos do reinado de Filipe II, tendo sido construído no local da muralha por ventura mais vulnerável a um ataque fluvial. Para sua construção uma casa que se encostava à muralha (que pelo lado de fora e que pelo seu telhado permitia o fácil acesso ao interior da cidade) foi adquirida à proprietária por 95$000 reis e no seu local edificado o fortim onde durante meses trabalharam oficiais de construção orientados pelo mestre pedreiro Manuel Luís. De uma forma ou de outra, não será de duvidar que cedo terá ficado obsoleto há medida que a tecnologia piroblástica ia evoluindo...
O fortim ainda intocado(?) com o bairro dos banhos já demolido. Todo o troço da muralha assinalado presumivelmente ainda lá se encontra soterrado e parte dela viu de novo a luz do dia em 2004, só para ser novamente soterrada.
E ele ali ficou, usado nos seus últimos dias entre outras coisas como prisão militar à espera de desaparecer às mãos do progresso do século XIX ou ser mantido pelo seu valor histórico no século XX. Infelizmente a primeira opção "adiantou-se". Ficam para memória as imagens que felizmente chegaram até nós e onde podemos comprovar, qual cobra digerindo a sua refeição, a sua aglutinação por parte do tal progresso sob o nome de ramal da alfândega.

O fortim já quase completamente engolido nas novas construções, atrás dele ainda corre um substancial pano de muralha que também viria a desaparecer.
Uma outra perspectiva. Nota-se perfeitamente a forma arredondada do baluarte bem como a existência ainda de um grande pano de muralha.
Foto recente indicando o posicionamento do fortim. Depois da desativação das rampas para trânsito de mercadorias que ali existiram, mais área foi tomada ao rio cristalizando-se na sua forma atual.