domingo, 22 de janeiro de 2017

A capela do Calvário Novo e duas fotos intrigantes...

A capela do Senhor do Calvário erguia-se no local onde hoje se encontra a entrada do parque de estacionamento privado do Palácio da Justiça. Praticamente adjacente a ela encontrava-se a casa da Roda dos Expostos - triste reflexo de uma expressão social felizmente erradicada - e ao lado desta esteve o Mercado do Peixe no local onde se haviam já erguido outrora os celeiros da cidade. Confuso o leitor? Nada que as fotos não resolvam!

Local onde esteve a capela do Calvário Novo (foto SIPA). À esq. temos a íngreme rua Dr. António de Sousa Macedo (Ex-Travessa do Calvário) e a rua do Dr. Barbosa de Castro (Ex-Rua do Calvário).

Pormenor de uma panorâmica anterior, pelo menos, a 1864. 1- Celeiros da cidade onde mais tarde existirá o Mercado do Peixe também já desaparecido; 2 Roda dos Expostos (antigo Hospício dos Capuchos); 3 - Capela do Calvário; 4 - Reitoria da Univ. do Porto (em construção); 5 - Paredão das Virtudes; 6 - Igreja da Graça e Colégio dos Meninos Orfãos que viriam a ser demolidos para dar lugar a grande parte do edifício da Reitoria.
Neste pormenor de uma panorâmica dos anos 20 ou 30 do séc. XX vemos quase os mesmos edifícios (mantive a numeração), contudo o n.º 1 é agora o Mercado do Peixe, demolido nos anos 50 do séc. XX.

Neste extracto de uma planta do AHMP, vemos os edifícios que tenho vindo a referir com a indicação para melhor localização do local, da capela das Taipas (a) e o hospital de St. António (b).

Outro extrato de uma planta, desta feita a de Telles Ferreira de 1892, onde se vêm os edifícios em questão.
Mas, centrando a vossa atenção na capela, pude consultar a obra de 1972 de Bernardo Xavier Coutinho (História documental da Ordem da Trindade) onde consta um documento curioso para a história desta capela e sua confraria. Diz assim:

«ORIGEM DA CAPPELA E CONFRARIA DO CALVARIO NOVO
Teve principio a capella e confraria do Senhor do Calvario Novo com o titulo do Bom Jesus de Bouças pela via sacra que principiava na Senhora da Esperança - o Calvario Velho foi onde hoje se acha a Igreja e Convento das Carmelitas  [lado sul da Praça Guilherme Gomes Fernandes] - havia huma simples cruz de pedra quadrada antiguissima e nella uma imagem de Christo pintada junto a huma cerca de terra dizima a Deos. Consta do Prazo que fez à Camara João Baptista Ferreira, em 1683 haver já a Capellinha do Senhor, como se vê das confrontações, crescia em augmento esta Confraria de sorte que, no anno de 1700, fizerão huns Estatutos confirmados e sugeitos ao Ordinario. Tendo grande devoção, Magdalena da Cruz Campobello, da Villa de Guimarães com o Senhor, fez o contracto de doação à Confraria, em 1703, com a obrigação de lhe fazerem huma Caza junto à Capella que julgo ser a terra da cerquinha da dita Magdalena da Cruz, para a dita viver .... Consistia a Capella naquelle tempo ser pequena, baixa, com hum alpendre de fora e huma Caza ao pé da Fabrica e Ermitão...

Em o anno de 1703 emprazarão os Mordomos à Camera a terra para reedificarem o corpo da Capella com o alpendre por Prazo fateuzim ... acabarão o corpo da Capella em 1705 e continuarão a obras de 1737 ... Em 1734 forão inquietados pelos Religiozos vezinhoos capuchos, alem das demandas, em pedirem a Capella ao Rey o Senhor D. João Quinto. Em 1737 fizerão os assentos ao redor da Capella e outras obras, tudo á custa da Confraria, como se vê de huma pedra nella esculpida que diz: Esta obra assim cazas como pateo e assentos se mandou fazer à custa das do Calvario Novo anno 1737.

A capela e adjacências nos inícios do século XVIII.
Em 1739 para 1740, se tirou a cruz de pedra e se pôz na Sachristia; se colocarão as Imagens que tinhão mandado fazer em vulto do Senhor Crucificado, e morto.

Não se descuidarão os Capuchos em verem de que modo havião de uzurpar a Capella, de sorte que começarão a miná-la pela parte de traz que confina com a sua Cerca, e movendo-se pleitos sobre isto se fez vistoria que se julgou por sentença ... e de que dipois rezultou fazer-se o paredão. Da parte da Viella intentou o Galvão fazer humas Cazas terreas encostado ao muro do paceio e Logradouro da dita Capella e fazendo-se vistoria, se julgou ser a terra do Publico ....

Em 1784 tornaram a pedir a Capella os Capuchos à Raynha a Senhora D. Maria primeira, vindo a informar responderão até o anno de 1787 por motivo de que fizerão o contracto de transacção com a Ordem [da Trindade].»
A capela no fim do século XIX ou início do XX, já reduzida a armazém.
Com efeito, a Ordem da Trindade foi erecta na capela da Batalha (também já desaparecida) em 29 de junho de 1781, transferindo-se para a do Calvário em 26 de Novembro de 1786. No processo aglutinaram a confraria do Calvário: «... por isso fizerão aquelle comtracto, com os da Comfraria do Calvario, de tomar conta, e posse da Capella e todos os mais Bens, ficando a Comfraria extinta, emtrando para Irmãos terceiros todos que erão, e possuiô a dita Comfraria ... declarando somento que no dia da Festa da Santíssima Trindade no qual costumavam Festejar o Senhor do Calvario farião comemoração do mesmo Senhor....»

Mas os vizinhos Capuchos não deixaram de azucrinar a cabeça, agora à Ordem da Trindade. E assim pediram ao Chanceler Governador Roberto Vidal da Gama que lhes dispensasse a capela para nela poderem confessar. Este acedeu ao pedido e «...forão os Padres com offeciais de Justiça com hum comfencionario para emtravar a Capella ao que acodio o Reverendo Capellão que nella se achava actualmente e a pontapés sacodio tudo pella porta fora...»

A igreja da Trindade, na verdade, poderia nunca ter sido erguida no local onde hoje se encontra, caso os Capuchos não tivesse feito de tudo para ficar com aquela capela... Pois que a Ordem, querendo construir uma igreja maior, obteve uma provisão para emprazar terreno até à face da rua e com esse espaço mais o seu terreno próprio, teria área suficiente para uma igreja de tamanho mais decente, em acordo com o número de Irmãos. No entanto logo os Capuchos armaram desordem: «... e trabalhar já a respeito de votar pedra - na testada já com o embargo sobre o tilheiro da Cal de firmar sobre a parede da parte do Caminho, e no mesmo fazendo-se o aliserse sahirão com paus nas mãos para darem em alguns trabalhadores e Bemfeitores que depois do dia andavão no alicerse a tirar emtulhos para adiantamento da obra...». Os Capuchos vieram argumentar junto da rainha que aquela igreja era desnecessária por haver muitas à volta, que seria sumptuosa e assim esvaziaria os cofres da Ordem... E a ordem saiu para «que se conservasse tudo no Estado antiguo».

E assim, querendo os da Trindade se defender, «tractouse de mostrar a verdade porem como esta he mansa e anda de Vagar» os Irmãos já não conseguiram reverter a situação.
A antiga capela nos anos 30 do séc. XX, pouco antes da demolição. Notar que já se haviam rasgado quatro portais no seu rés-do-chão, fruto de uma utilização de décadas como edifício comercial. A seu lado a Roda dos Expostos (2) e o Mercado do Peixe (1) ao lado.
Assim, o sonho de construir ali uma igreja, tão ampla como a da Trindade que agora temos, esfumou-se e após as últimas alegações dos Capuchos que diziam que na abertura dos alicerces já tinham morrido 3 homens, deu ordem para «emtupir» esses mesmos alicerces o Juíz dos Orfãos da cidade e quando a Ordem da Trindade requerer um local para arrumar a pedra lavrada, «respondeo que a metesse pella Igreja Dentro...».

NOTA: Os capuchos que se referem no texto eram os Franciscanos do Vale da Piedade, em Gaia, que resolvendo construir um estabelecimento para a cura dos seus doentes, requereram à camara faze-lo dentro da cidade. Em 1722 foi-lhes concedido um local na praça da Cordoaria, onde segundo Sousa Reis construiram «huma enfermaria ... e de tal forma a levantaraõ que veio a ser hum bom Hospicio bem assente com otimas vistas, annexando lhe dous soberbos armazens de que colhiaõ pingue alugueres». Este edifício, com a extinção das Ordens religiosas em 1734 foi escolhido para fundação da Biblioteca Pública Municipal do Porto, contudo por ser desadequado, no mesmo foi depois estabelecida a Roda dos Expostos.

Nesta foto do AHMP vemos em destaque as traseiras do Mercado do Peixe e ao seu lado, com o nº 2 o edifício da Roda dos Expostos, antigo Hospício dos Capuchos.
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Finalizo com um enigma... As duas imagens que se mostram abaixo pertencem ao AHMP e não estão identificadas quanto ao edifício que representa mas onde se pode claramente verificar que foi na sua origem religioso. Se olharmos com alguma atenção, na parede interna visível existem muitos entalhes onde se colocaram traves por forma a formar um sobrado. Ora uma igreja nunca teria um sobrado, muito menos naquele local, na aproximação à capela-mor(!) pelo que aquele edifício desempenhou no fim da sua vida outras funções...

Tenho para mim, que estas fotos representam a demolição capela do Senhor do Calvário. Ajudou-me também a pensar desta forma a ausência de edifícios por trás, bem como o desnível aparente, que se vê para o edifício que surge á esquerda com a sua claraboia, que parece ser o mesmo que se encontra do outro lado da rua na segunda imagem desta postagem..

Obviamente que nunca ou dificilmente terei certeza deste meu pensar, mas e já agora, pergunto aos meus caros leitores: Estarei a querer ver demais?



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um pouco mais sobre o Largo de S. Roque

NESTA minha postagem me referi ao Largo de Santa Ana, também conhecida como de S. Roque ou do Souto. Hoje recupero, dentro do mesmo assunto, um artigo da Revista o Tripeiro, na sua 1ª série (1908-1911).

A p.124 do vol. 2 diz-nos um certo C. L. se refere a ela nestes moldes:

«... Ora, a escadaria era ornamentada com uns magníficos vasos de granito, muito bem trabalhados, os quais - por arte de berliques e berloques . apareceram, depois, a embelezar, exteriormente, o restaurante "Sentieiro", na rotunda da Boavista. E ainda lá estão expostos à veneração dos fiéis. É o que sei dos despojos do, para mim, saudosissimo largo do Souto.

O largo do Souto!... Parece-me que estou a vê-lo: todo lageado, com a imponente escadaria, a capelinha lá no alto e a fonte ao centro da meia laranja; era mais - em meia tigela; mas era bonitinho, lá isso era!

E a fonte? Que linda! Estou bem certo dela: era formada por uma grande concha de argamassa, que tinha dentro um fedelho de barro, montado num golfinho de pedra com uma bica de ferro na boca, por onde saía melhor água do que a que hoje se vende a dez réis o copo.

Ainda hoje se vê, formando beco, na rua do Souto, uma nesga , com cunhal, que sobejou do que foi preciso gastar, do largo, para talhar a rua do Mouzinho da Silveira.

A nesga referida acima (pertenceriam aqueles parcos degraus ao arranque da escadaria que subia para a capela?) Mesmo por baixo passa o rio da Vila que na verdade só passa por baixo do leito da rua Mouzinho da Silveira no seu percurso mais inferior.
O que restava do largo do Souto nos meados dos anos 80 do século XIX (2). O nº 1 indica o edifício da Adega do Olho e o 3 uma casa que se projetava construir no local outrora ocupado por parte da escadaria que subia para a capela, de onde se parece ver ainda alguns restos (reparar na curvatura).
Fronteira àquele beco, está uma porta (n.º 103) com a padieira em arco, que era a entrada de um túnel, por onde se ia ter ao "Rio da Vila", e aos "Aloques da Biquinha", e por onde passou, muitas noites, o ex-traquinas que isto escreve...»
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Esta casa com a padieira em arco ainda hoje se encontra na rua do Souto, sendo uma das poucas que sobreviveu do antigo largo por ser desnecessário expropriar para alinhamento da rua Mouzinho da Silveira (ver abaixo).
Casas sobreviventes do antigo largo do Souto assinaladas de 1 a 4, a casa 2 possuí o arco referido e todas elas fazem hoje parte da rua Afonso Martins Alho.
O rio da Vila parcialmente "à vista" ainda que bastante escondido por uma rede, aquando da obra de requalificação do eixo Mouzinho-Flores. Fotografia de Abril de 2013, na rua Afonso Martins Alho, local onde este passa naquelas imediações (e não o leito da rua do Mouzinho como normalmente se refere.)
Num artigo mais extenso (que transcrevo truncado) um senhor de nome João G. Oliveira e Torres descreve-nos muito bem este largo:

«... Era a praça ou largo do Souto, pelo lado do nascente, de forma semi-circular e encostava-se perfeitamente aos rochedos que formam o alto dos Pelames em seguida ao Corpo da Guarda; e neste lado foi que a Câmara mandou edificar a capela.

O largo representado na planta para a rua do Mouzinho, a amarelo as casas que sobreviveram, a vermelho o local onde agora temos a fonte monumental. Os pontos azuis indicam o rio da Vila.
Era ela exteriormente de forma oitavada e ficava como que encravada na parte central da frontaria; era de boa perspectiva e lindo gosto, e a respeito da qual o padre Rebelo da Costa, que escrevia em 1788, se exprime assim: "... a praça de S. Roque é formada em semi-circulo, lageada de pedra larga e fina, cercada de casas regulares com três andares, de janelas todas iguais e envidraçadas, uma capela feita à romana, que lhe serve de remate; duas bem repartidas escadas com balaústres da mesma pedra fina, vão formar diante dela um largo pátio, debaixo do qual aparece um lindo génio, cavalgado sobre um golfinho, que lança borbotões de água em uma bacia de pedra lavrada em forma de concha, merece alguma estimação do público apaixonado por similhantes obras."

O edifício era todo de pedra lavrada e tinha, por assim dizer, dos corpos: no primeiro sobrepujava-o uma cornija que corria pelas oito faces, e sobre este, mas mais dentro, assentava outro corpo de pouca elevação, que rematava em abóbada, sobre a qual se elevava um formoso zimbório por onde se coava a luz.
...
Ao lado do sul e pegado à capela existia uma pequena sacristia, onde o eclesiástico se paramentava, e em um armário com gavetões se guardavam os poucos paramentos e objetos do culto que possuía, e que pertencia a uma confraria a qual estava a cargo o culto e festividade de S. Gonçalo, confraria composta, na maior parte, de latoeiros que por aquelas proximidades moravam.

Além desta festa, também alguns anos ali se festejou ruidosamente a imagem de S. Vicente Mártir.
(...)
No largo havia feira às terças e sábados, de linho e seus derivados, como: estopa, tomentos e cobertas ás riscas.

Quando dali saiu o mercado os feirantes opuseram-se, e só em presença da guarda municipal é que submeteram a ir para o Bolhão, lugar que a Câmara lhe designou e onde atualmente se conserva.

O largo do Souto antes da hecatombe. A "micro" rua Afonso Martins Alho surgirá do desmembramento da rua do Souto, após o desaparecimento do largo.
Se nos últimos tempos o padroeiro S. Roque teve festa, não sei; o que sei é que as imagens que lá conheci eram: S. Roque, S. Gonçalo, S. Vicente e a Virgem das Dores.
(...)
Falemos agora do edifício.

A pedra, que era de boa esquadria, as escadas e o tanque, tudo foi empregado nas obras da nova rua Mouzinho da Silveira.

Os balaustres foram aformosear a parte superior do arco da fonte da mesma rua, e a água que caía no tanque, dizem ser agora a de uma das suas duas bicas.

A figura de granito que cavalgava o golfinho, e por muitos anos fora o enlevo dos rapazes e talvez o cismar das raparigas, essa dei-me ao trabalho de a procurar, e por fim encontrei-a.

Pouco depois da demolição da capela, era voz pública que aquela estátua fora, por ordem da Câmara, recolhida ao seu edifício, visto que ela era a proprietária de todo aquele monumento; mas passados alguns anos, mandaram-na para um recinto que há junto da casa da Desinfeção Municipal.

Aí me dirigi; mas já a tinham removido para as traseiras das obras em construção, lado norte da Biblioteca Municipal. Entre ruínas de arquitetura e destroços de escultura fui encontra-la; mas em que estado? como diria o poeta: nem sei como de nojo o conte! Estava mutilada, sem cabeça, sem um braço, sem um pé, servindo de calçar um pequeno muro, como coisa de nenhum valor!

A monte, talvez por se julgarem nulidades, ali encontrei brasões mutilados, cruzes lascadas, taças de fontes incompletas, capitéis partidos, e outras muitas peças truncadas que davam o aspeto de um grande cataclismo

A capela e a sua pequena sacristia ao lado. Abaixo da capela o tanque que dava de beber às pessoas às bestas e aos solípedes que por ali passavam (parece um desenho mas trata-se, creio eu, de uma foto).
Houve ideia de se aproveitar a capela e coloca-la em outro lugar; nesse sentido se empenhou uma comissão de influentes religiosos e políticos, com a Câmara para lhe permitir reconstrui-la na rua da Bainharia, lado do sul, no lugar onde depois se construíram dois prédios que naquela rua têm os n.º 40 a 52; mas o terreno tinha de ir à praça, e por essa razão a Câmara não o podia ceder, embora cedesse de boa vontade os materiais da demolição e lhe prestasse todo o auxilio em outro lugar que se escolhesse. Os influentes em vista disto, desistiram do seu propósito.

E assim desapareceu a capela, espalharam-se as imagens, mutilou-se a estátua, tudo se desfez, e deste naufrágio apenas escapou a devoção de S. Gonçalo cuja imagem, colocada na igreja dos frades franciscanos, é um símbolo de fé, uma memória de piedosa crença dos portuenses.»

(1) Como o escultor não tivesse o santo pronto no dia da festa, faltando ao prometido, arranjaram uma outra imagem e modificaram-na, pondo-lhe outra cabeça à semelhança da de S. Vicente!!!)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Um "favor" a Gaia e a fonte do Bonjardim

Vasculhando velhos jornais dou sempre de caras com algumas notícias, artigos de opinião, ou simples notas bastante interessantes. Algumas que desconhecia ou outras que conhecia por terceiros em obras sobre a história da cidade (e que já por algumas vezes comprovei que a informação prestada estava parcial ou totalmente errada!).

Não foi diferente com o Periódico dos Pobres no Porto referente a Julho e Agosto de 1846 que consultei. Os mais atentos à data verão que se está mesmo, mesmo antes da guerra civil da Patuleia (a segunda guerra civil num espaço de uma dúzia de anos) mas já depois da revolta da Maria da Fonte. Pelos relatos dos jornais se vê que por toda a cidade existiam caceteiros, termo usado contra os indivíduos ou grupos de indivíduos que agrediam gratuitamente os seus opositores (chegaram a matar um militar de alcunha O fajardo).

E no meio desta convulsão um jornal diz-nos que tudo está calmo, o outro que não se pode andar na rua por causa dos ratoneiros e caceteiros... Enfim, a luta entre Cartistas e Setembristas estava ao rubro e o pavio já quase todo queimado...

No meio de tudo isto surgem as eleições para a comissão municipal. Dirigia-a José Passos, irmão do mais célebre Passos Manuel, comprometido em gerir as contas da Câmara com muita cautela dado a penúria que existia nos cofres do concelho. Foi reconduzido no cargo em Agosto sendo o mais votado, com menos de 800 votos (poucos tinham direito a votar naquela época).

Durante o período que antecede esta votação, surgem no periódico referido (e opositor) umas pequenas achegas sobre a gestão da Câmara, a seu ver más decisões. Eis alguns excertos:

“Quem não senão ele [vereador Pinto da Silva] compreenderia a necessidade da fonte do Bonjardim? Quantas pessoas ou bestas tem sido vítimas de sede por não poderem alcançar uma gota de água das fontes da Praça de D. Pedro, largo de S. Bento das Freiras, e rua da Madeira pela desmesurada distância em que se acham?! Pode-se ter inveja aos habitantes desde o Bolhão para cima, que vivem na abundância d’água.: queira Deus que eles não sejam tão ingratos da solicitude do Sr. Pinto da Silva, no dia 30 deste mês, com os visinhaes da fonte do Bonjardim conta ele seguro, e muito mais porque o sr. Fiscal projeta macadamisar essa rua, e faça-lhe justiça, é um plano gigantesco, depois do qual ninguém se atreverá a borrar o nome do Sr. Pinto, o ela ter sido calcetada há muito pouco tempo, o ter-se gasto nisso bons e muitos patacos; o haverem muitíssimas outras em muito pior estado, isso são cousas que não entram em linha de conta: em fim é a rua do Bonjardim, e há-de parecer-se com o seu nome, ou o Sr. Pinto da Silva não há-de morar nela!”

Será esta a fonte do Bonjardim do artigo de opinião? Ficava na esquina da Rua do Bonjardim (à esquerda, agora Rua Sá da Bandeira) com a Rua de Sá da Bandeira (à direita, agora Rua de Sampaio Bruno). Por curiosidade, ao fundo não vemos "céu aberto" pois ali encontra-se a fachada nascente do antigo edifício da Câmara Municipal  elogo ao virar da esquina, mas já fora da imagem existia a capela dos Reis Magos

O anónimo continua a apontar a gestão, a seu ver ruinosa, do município pela comissão municipal, nomeadamente à extinção do imposto dos carros que de Gaia entravam na cidade e dos que da cidade para Gaia iam…, assim “a casinha da ribeira levantou-se, e com ela um prejuízo para o município do Porto de 60$ a 70$ - que rendia semanalmente”. E ironiza com o facto de a Câmara de Vila Nova não ter levantado o mesmo imposto para os carros que ali entravam vindos de Ovar. 

Convém esclarecer que a supressão deste imposto advém de um acordo entre os dois municípios em que ambos se comprometeram a suprimir as casinhas onde o mesmo se taxava, à entrada da ponte pênsil. Contudo, e aqui está a queixa de quem escreve, esse imposto rendia bastante aos cofres portuenses, bem mais do que aos gaienses por razões óbvias, pelo que não compreendia a decisão. Embora José Passos tenha explicado quando tomou posse, que a taxação dos carros quando entravam nas barreiras da cidade era já suficiente não havendo por isso necessidade de os sobretaxar.

Uns dias depois o anónimo continua a sua crítica: “E porque será que se planisão obras novas, deixando as principiadas e no coração da cidade! A obra de S. Domingos [rebaixe do murinho iniciado no ano anterior] merecerá desprezo, enquanto que a nova fonte do Bonjardim, próxima e muito próxima de outras, tantos obreiros contem que parece acabar-se antes da posse da Câmara a eleger!” Mais continua: “Será decente aos olhos do público praticar a avilês com que ontem [23 de Agosto] se mudava a pedra do largo e da obra de S. Domingos para a fonte do Bonjardim? Será isto economia, ou andará a pedra fazendo via sacra por economia do cofre?”

Não nos podemos esquecer que isto das opiniões de jornais, é sempre bom ouvir as duas partes. Neste caso a outra parte era o jornal O Nacional, que arrancara em maio, sendo na prática o mesmo que A coalisão apenas com o nome mudado (ele próprio o diz no seu número 1). Mas isso ficará para uma próxima vez.

É esta postagem uma pequena fresta para bisbilhotar o Porto daquela altura, outras mais irei abrindo por aqui se aos meus leitores interessar e eu as conseguir elaborar de forma concisa...

sábado, 31 de dezembro de 2016

A "Boca do Inferno"

Há umas semanas atrás, pesquisando nos livros que chegaram aos nossos dias do convento franciscano sobre locais e acontecimentos que os ligam aos dominicanos, encontrei uma referência curiosa a uma estrutura a que chamavam a Boca do Inferno.

Sem mais delongas apresento o texto tal como escrito pelo reformador do cartório no início do século XIX. A explicação virá a seguir:


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A BOCA DO INFERNO
Era este lugar da boca do inferno o sítio em que estava uma espécie de depósito de água em que se repartia a Manuel Cirne, senhor das casas que ficam mais chegadas a este convento, por trás da capela-mor.

Aquele depósito ficava sendo a bacia de um muito alto poço de pedra que tem a sua superfície na altura do segundo dormitório da parte do nascente, ao lado esquerdo do principio das escadinhas que antigamente serviam para ir ao campanário, e também para o telhado da igreja; como servem ainda hoje [c. 1820]. Este poço corre bem por trás da capela de Santa Luzia, ou altar da Trindade, e se observa pela frente do lado do evangelho da capela de Santo António.

Com o andar do tempo se fez inútil para todos este poço que em toda a sua altura tinha vários postigos ou frestas para lhe comunicar luz, e ar, e por fazer-se assim inútil e também perigoso, se entulhou todo em 1816 até ao lugar com que hoje se acha na superfície um passadiço para se compor quando é necessário, o telhado da dita capela de Santo António, ficando ainda à vista cousa de dez palmos [2,2m] que mostram qual é a extensão e forma do referido poço entulhado cuja bacia ficava na mesma altura, pouco mais ou menos, do atual plano da sancristia da nossa igreja.
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Perguntarão os leitores onde ficava então a Boca do Inferno. Melhor do que palavras talvez a imagem que aqui coloco nos dê uma ideia do local onde estava este poço. Não seria de estranhar se parte dele ainda lá esteja bem fundo entulhado na sapata que sustenta a capela-mor da igreja conventual.

1 - Capela de Santo António; 2 - O que resta das escadas para ir ao telhado; 3 - alinhamento antigo do convento; o X marca o local onde creio existia este poço.
Porque foi colocada esta descrição explicativa no tombo dedicado à água do convento? Bem, ela surge a seguir a um documento de 1704 que o refere, quando os frades cederam a um António Pereira Chaves a água que fora da casa de Manuel Cirne (este Manuel Cirne é um famoso portuense feitor na Flandres e um bom artigo sobre ele podem os interessados encontrar AQUI).

Contrariamente por exemplo aos seus congeneres dominicanos, o convento da Ordem dos Frades Menores foi sempre alimentado por uma boa nascente de água que provinha desde lá de cima do campo do meloal, sensivelmente onde existe hoje a zona da Trindade. Por canos vinha ela até ao convento e nessa boca do inferno infiro que fosse armazenada. Realmente essa fonte deveria ser abundante e de boa qualidade, pois os franciscanos para alem de cederem uma pena dela a Manuel Cirne também o fizeram aos padres lóios e aos dominicanos, conventos por onde passava o seu cano. Mais tarde cederam também água à Ordem Terceira, nomeadamente para o lavatório da sacristia e para o seu hospital na rua Comércio do Porto.

As casas de Manuel Cirne estiveram localizadas junto ao lado sul da cabeceira da igreja e englobaram o terreno que se encontrava por trás da capela-mor, cedido em 1529 por ser "lugar estéril e que não aproveitava cousa nenhua ao dito mosteiro, antes fazia dano e fedor, por assim se fazer ali monturo e se poderia fazer outras cousas ilícitas e deserviço de Deus".

É interessante cruzar esta informação com a tese do Dr. Manuel Real, antigo Diretor do Arquivo Histórico, de que os arcos que se vêm nas traseiras da capela-mor na celebre imagem desenhada em 1839 de James Holland, seriam possivelmente remanescêcias de um criptopórtico, localizando ali o Fórum da Cale romana. Modestamente confesso que não partilho da mesma opinião e creio que o documento de aforamento a Manuel Cirne da sua casa bem como esta boca do inferno e umas sepulturas medievais descobertas em 1871 em frente à porta principal do Palácio da Bolsa também poderá elucidar melhor sobre esta questão.

1 - Arcos em questão; 2 - "segundo dormitório" (ainda não existe o Palácio da Bolsa); 3 - inicio das casas da rua Infante D. Henrique (onde hoje está a entrada do parque de estacionamento do Infante); 4 - Rua Ferreira Borges (aquando da elaboração desta imagem a rua fora completada havia um ano).

Extrato de uma planta de 1835, quando o traçado da rua Ferreira Borges estava ainda em discussão.
A - local onde em 1871 foram encontradas sepulturas medievais; 3 - local do ponto 3 da imagem anterior; o círculo aponta a para o sítio onde terá estado a "boca do inferno".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um cenário para sempre irrepetível

Uma vez que no passado dia 22 a Ordem dos Pregadores (vulgo de São Domingos) celebrou oficialmente os seus 800 anos e dado ser este convento um dos temas mais queridos para mim da história portuense, aproveito para mostrar mais uma das raras imagens que mostra a sua desaparecida igreja, num ângulo em que surge "acompanhada" da sua congénere franciscana que felizmente ainda existe (ambas inseridas no tipo de construção que se costuma nomear de gótico mendicante).

Esta imagem, valiosa precisamente por mostrar ambos os templos, torna mais real o já conhecido facto de os dois conventos se encontrarem muito perto um do outro; ainda que em disposições espelhadas.
OBS: Estou em crer ser a foto de Maio/Junho de 1865, início da demolição do convento dominicano, por se encontrar já um pouco desbastada a parede do antigo cenóbio dos Padres Pregadores.

I

Para termo de comparação, veja-se abaixo uma imagem dos anos 80 do século XIX, onde se vêm já casas no local onde existiu o convento, bem como um terraplano mais ou menos uniforme onde viria a surgir em breves anos o Mercado Ferreira Borges e que por séculos fora a horta dos frades.

II


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri"

Não estranhem os meus caros leitores o título desta postagem. Os mais atentos verão que o mesmo se refere à presúria do Portucale por parte de Vimara Peres - que terá ocorrido no ano de 868 – para não mais sair de mãos cristãs. É pois pelos já longínquos séculos da alta idade média que pretendo levar-vos, mas fiquem descansados: não será uma viagem massuda pois as referências a ele se restringem a nem uma mão cheia delas.

Iniciemos então esta curta cronologia:

1. Em 715 ou 716 a cidade de Portucale foi conquistada por Abdelaziz, seguindo-se um período de cerca de 20 anos de efetiva ocupação muçulmana[1].

2. Logo em 742, Alfonso I (rei de um incipiente renascer “visigótico” acantonado no extremo norte da Galiza e Astúrias e Cantábria) recupera a cidade, matando todos os seus ocupantes ismaelitas. Esta ação foi supostamente facilitada nesta e noutras localidades pelo facto de a guarnição berbere que aqui estava ser pouco numerosa pois o grosso dela havia sido chamada para conter uma revolta a sul.

Segundo uma corrente historiográfica agora completamente caída em desuso, este rei teria deixado propositadamente ermo um vasto território que englobava todo o futuro Portugal a norte do Douro. Ninguém portanto teria sido deixado para trás pois o rei havia levado todos os cristãos "à pátria"[2].

Atualmente leva-se em consideração que de facto isso não ocorreu, contudo toda esta zona terá funcionado de forma mais ou menos autónoma, entregue a si mesma em "auto-gestão"; numa terra de ninguém entre o Califado Omíada (substituído em 756 pelo Califado de Córdova) e o reino Asturiano. Mas na realidade, por falta de documentos históricos contemporâneos, nunca saberemos como era viver por aqui nesses tempos e quais eram os verdadeiros senhores, se os havia. A população, mais ou menos entregue a si própria, sem dúvida se terá organizado localmente para sobreviver.

Em 868 dá-se a famosa presúria que referi acima, embora creia não a podermos ver como uma conquista (ainda que entre 866 e 868, aproveitando-se dos problemas dentro do reino asturiano os mouros tenham novamente chegado ao vale do Douro). Em contrapartida, este ato de força perante a população autóctone visou consolidar a influência do reino asturiano na área, bem como outros atos semelhantes se estenderam em várias outras regiões[3].

Era o início daquilo que se chama reconquista, e que só agora, no reinado de Alfonso III, começava a ter uma visão mais ampla de recuperação de território aos ismaelitas. Ainda assim, durante vários séculos mais, a península ibérica foi um palco de lutas entre estados e não somente entre religiões, havendo incluso lutas dentro dos próprios pequenos reinos islâmicos que depois se formaram, e os reinos cristãos que vieram a surgir da desmembração do reino asturo-leonês.

Voltando ao Porto, pessoalmente discordo que a cidade que hoje existe tenha nascido no século IX com Vimara Peres. Na verdade é após a entrega do burgo ao bispo D. Hugo em 1120 pela rainha D. Teresa (mãe de Afonso Henriques), acrescido do foral por este bispo outorgado em 1123; que o Porto moderno surge e a cidade não mais pára de crescer.

A própria precaridade da posição do Porto durante pelo menos o século X está no facto de ter sido no Douro que Almançor reuniu a sua frota vinda de Alcácer do Sal, com o seu exército que provinha de Viseu (e que incluía cristãos nas suas hostes), com o objetivo de atacar Santiago de Compostela.

Ainda incipiente no início, mas lentamente expandindo-se para fora das suas muralhas primordiais, com o desaparecimento dos ataques normandos numa primeira fase, a ameaça muçulmana por terra e mar mais tarde e o reforço das trocas comerciais sobretudo com a Ingraterra e a Frandres, a cidade chegará ao meados do século XV já como a segunda do reino para não mais perder esse título.

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Recentemente, num arruamento desativado desde o século XVIII que circundava exteriormente a muralha antiga da cidade pelo oeste indo terminar junto da porta de Santa Ana, foi recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, estas pedras serão as mais antigas que se encontram expostas. Mais antigas (embora sejam da mesma muralha) do que o cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo e seguramente mais antigas que a torre do Barredo que é a casa mais antiga que terá subsistido até aos dias de hoje na cidade. A foto não é bonita, vale apenas por aquilo que representa para os amantes da história da cidade.

Antiga Viela de S. Lourenço, hoje traseiras das casas da rua dos Mercadores e rua de Santana (acesso pelos lavadouros da Sé).


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[1] Abdelaziz cepit Olixbonam pacifice, deripuit Colimbriam, et totam regionem, quam tradidit Mahamet Alhamar Ibentarif. deinde Portucale, Bracham, Tudim, Luccum, Auriam vero depopulavis isque ad solum.
( in Cronica Albeldense )


[2] Qui cum fratre Froilane sepius exercitu mobens multas ciuitates bellando cepit, id est, Lucum, Tudem, Portucalem, Anegiam, Bracaram metropolitanam, Uiseo, Flauias, Letesma, Salamantica, Numantia qui nunc uocitatur Zamora, Abela, Astorica, Legionem, Septemmanca, Saldania, Amaia, Secobia, Oxoma, Septempuplica, Arganza, Clunia, Mabe, Auca, Miranda, Reuendeca, Carbonarica, Abeica, Cinasaria et Alesanzo seu castris cum uillis et uiculis suis, omnes quoque Arabes gladio interficiens, Xpianos autem secum ad patriam ducens. 
( in Cronica Rotense )



[3] Era dccccxi prenditus est Portugale ad Vimarani Petri.
( in Cronicão Laurbanense )

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A tristeza apodera-se-me do coração...

Esta postagem não é bem sobre história... ou será que é?

Os filmes Passarinho da Ribeira e A costureirinha da Sé, filmes produzidos na nossa cidade aí pelos anos 50, não serão provavelmente conhecidos de todos nomeadamente dos mais novos; e quando se fala de filmes antigos feitos no Porto o primeiro que salta à mente de todos será provavelmente o Aniki-bobo nem que seja por mera analogia com o nome de quem o realizou.

Contudo estes dois filmes, de história singela, fruto do seu tempo, são uma pequena janela para um Porto que já não volta mas é pertença de várias gerações ainda vivas e que por isso esse tempo está de uma certa forma ainda vivo (se me faço entender).

Ao (re)ver a Costureirinha da Sé não pude deixar de sentir uma certa tristeza pelo ambiente atual do seu cenário principal, a casa no pequeno largo à entrada da rua da Penaventosa, lar das protagonistas principais. Eu já por ali passei várias vezes e ainda não havia registado o estado do edifício atualmente, mas já havia na minha ideia esta postagem a mostrar um 1958 vs 2016.

Cá está ela, "desfrutem..."

1958 (1)
2 de Dezembro de 2016

1958 (2)

Como se vê aquela casinha do século XVII (ou melhor, a fachada) está em pardieiro. Até a Nossa Senhora já saiu da edícula e se foi refugiar num outro qualquer local... Para quando a restauração daquela casinha bem como de outras de igual têmpera e ancianidade que pela cidade existem? Muito se tem feito já, é verdade, mas muito mais, creio, falta fazer.

Mas faço votos de uma coisa: que não seja transformada em mais um hostel ou casa de aluguer para turistas. COLOQUEM LÁ PESSOAS A VIVER. Tenho a certeza que encontrarão pessoas que possam dizer: "aqui vou ser feliz!"