quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri"

Não estranhem os meus caros leitores o título desta postagem. Os mais atentos verão que o mesmo se refere à presúria do Portucale por parte de Vimara Peres - que terá ocorrido no ano de 868 – para não mais sair de mãos cristãs. É pois pelos já longínquos séculos da alta idade média que pretendo levar-vos, mas fiquem descansados: não será uma viagem massuda pois as referências a ele se restringem a nem uma mão cheia delas.

Iniciemos então esta curta cronologia:

1. Em 715 ou 716 a cidade de Portucale foi conquistada por Abdelaziz, seguindo-se um período de cerca de 20 anos de efetiva ocupação muçulmana[1].

2. Logo em 742, Alfonso I (rei de um incipiente renascer “visigótico” acantonado no extremo norte da Galiza e Astúrias e Cantábria) recupera a cidade, matando todos os seus ocupantes ismaelitas. Esta ação foi supostamente facilitada nesta e noutras localidades pelo facto de a guarnição berbere que aqui estava ser pouco numerosa pois o grosso dela havia sido chamada para conter uma revolta a sul.

Segundo uma corrente historiográfica agora completamente caída em desuso, este rei teria deixado propositadamente ermo um vasto território que englobava todo o futuro Portugal a norte do Douro. Ninguém portanto teria sido deixado para trás pois o rei havia levado todos os cristãos "à pátria"[2].

Atualmente leva-se em consideração que de facto isso não ocorreu, contudo toda esta zona terá funcionado de forma mais ou menos autónoma, entregue a si mesma em "auto-gestão"; numa terra de ninguém entre o Califado Omíada (substituído em 756 pelo Califado de Córdova) e o reino Asturiano. Mas na realidade, por falta de documentos históricos contemporâneos, nunca saberemos como era viver por aqui nesses tempos e quais eram os verdadeiros senhores, se os havia. A população, mais ou menos entregue a si própria, sem dúvida se terá organizado localmente para sobreviver.

Em 868 dá-se a famosa presúria que referi acima, embora creia não a podermos ver como uma conquista (ainda que entre 866 e 868, aproveitando-se dos problemas dentro do reino asturiano os mouros tenham novamente chegado ao vale do Douro). Em contrapartida, este ato de força perante a população autóctone visou consolidar a influência do reino asturiano na área, bem como outros atos semelhantes se estenderam em várias outras regiões[3].

Era o início daquilo que se chama reconquista, e que só agora, no reinado de Alfonso III, começava a ter uma visão mais ampla de recuperação de território aos ismaelitas. Ainda assim, durante vários séculos mais, a península ibérica foi um palco de lutas entre estados e não somente entre religiões, havendo incluso lutas dentro dos próprios pequenos reinos islâmicos que depois se formaram, e os reinos cristãos que vieram a surgir da desmembração do reino asturo-leonês.

Voltando ao Porto, pessoalmente discordo que a cidade que hoje existe tenha nascido no século IX com Vimara Peres. Na verdade é após a entrega do burgo ao bispo D. Hugo em 1120 pela rainha D. Teresa (mãe de Afonso Henriques), acrescido do foral por este bispo outorgado em 1123; que o Porto moderno surge e a cidade não mais pára de crescer.

A própria precaridade da posição do Porto durante pelo menos o século X está no facto de ter sido no Douro que Almançor reuniu a sua frota vinda de Alcácer do Sal, com o seu exército que provinha de Viseu (e que incluía cristãos nas suas hostes), com o objetivo de atacar Santiago de Compostela.

Ainda incipiente no início, mas lentamente expandindo-se para fora das suas muralhas primordiais, com o desaparecimento dos ataques normandos numa primeira fase, a ameaça muçulmana por terra e mar mais tarde e o reforço das trocas comerciais sobretudo com a Ingraterra e a Frandres, a cidade chegará ao meados do século XV já como a segunda do reino para não mais perder esse título.

_________________________________________________
Recentemente, num arruamento desativado desde o século XVIII que circundava exteriormente a muralha antiga da cidade pelo oeste indo terminar junto da porta de Santa Ana, foi recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, estas pedras serão as mais antigas que se encontram expostas. Mais antigas (embora sejam da mesma muralha) do que o cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo e seguramente mais antigas que a torre do Barredo que é a casa mais antiga que terá subsistido até aos dias de hoje na cidade. A foto não é bonita, vale apenas por aquilo que representa para os amantes da história da cidade.

Antiga Viela de S. Lourenço, hoje traseiras das casas da rua dos Mercadores e rua de Santana (acesso pelos lavadouros da Sé).


___________________
[1] Abdelaziz cepit Olixbonam pacifice, deripuit Colimbriam, et totam regionem, quam tradidit Mahamet Alhamar Ibentarif. deinde Portucale, Bracham, Tudim, Luccum, Auriam vero depopulavis isque ad solum.
( in Cronica Albeldense )


[2] Qui cum fratre Froilane sepius exercitu mobens multas ciuitates bellando cepit, id est, Lucum, Tudem, Portucalem, Anegiam, Bracaram metropolitanam, Uiseo, Flauias, Letesma, Salamantica, Numantia qui nunc uocitatur Zamora, Abela, Astorica, Legionem, Septemmanca, Saldania, Amaia, Secobia, Oxoma, Septempuplica, Arganza, Clunia, Mabe, Auca, Miranda, Reuendeca, Carbonarica, Abeica, Cinasaria et Alesanzo seu castris cum uillis et uiculis suis, omnes quoque Arabes gladio interficiens, Xpianos autem secum ad patriam ducens. 
( in Cronica Rotense )



[3] Era dccccxi prenditus est Portugale ad Vimarani Petri.
( in Cronicão Laurbanense )

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A tristeza apodera-se-me do coração...

Esta postagem não é bem sobre história... ou será que é?

Os filmes Passarinho da Ribeira e A costureirinha da Sé, filmes produzidos na nossa cidade aí pelos anos 50, não serão provavelmente conhecidos de todos nomeadamente dos mais novos; e quando se fala de filmes antigos feitos no Porto o primeiro que salta à mente de todos será provavelmente o Aniki-bobo nem que seja por mera analogia com o nome de quem o realizou.

Contudo estes dois filmes, de história singela, fruto do seu tempo, são uma pequena janela para um Porto que já não volta mas é pertença de várias gerações ainda vivas e que por isso esse tempo está de uma certa forma ainda vivo (se me faço entender).

Ao (re)ver a Costureirinha da Sé não pude deixar de sentir uma certa tristeza pelo ambiente atual do seu cenário principal, a casa no pequeno largo à entrada da rua da Penaventosa, lar das protagonistas principais. Eu já por ali passei várias vezes e ainda não havia registado o estado do edifício atualmente, mas já havia na minha ideia esta postagem a mostrar um 1958 vs 2016.

Cá está ela, "desfrutem..."

1958 (1)
2 de Dezembro de 2016

1958 (2)

Como se vê aquela casinha do século XVII (ou melhor, a fachada) está em pardieiro. Até a Nossa Senhora já saiu da edícula e se foi refugiar num outro qualquer local... Para quando a restauração daquela casinha bem como de outras de igual têmpera e ancianidade que pela cidade existem? Muito se tem feito já, é verdade, mas muito mais, creio, falta fazer.

Mas faço votos de uma coisa: que não seja transformada em mais um hostel ou casa de aluguer para turistas. COLOQUEM LÁ PESSOAS A VIVER. Tenho a certeza que encontrarão pessoas que possam dizer: "aqui vou ser feliz!"

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O vapor Veloz

Já vira algumas fotos deste pequeno vaporzinho que durante décadas fez parte da paisagem do Douro, contudo ainda não houvera conhecimento de como o mesmo chegara ao Porto e a quem pertencera. Contudo, vasculhando jornais velhos vão-se descobrindo notícias novas... Eis aqui um extrato de um relatório de 1873 da Companhia de Reboques Maritimos e Fluviaes.

__________________________________________________

" A commissão eleita por vós em reunião de assembleia geral de 12 de março do corrente anno, para tractar da aquisição d'um rebocador para esta companhia, tem a honra de vos apresentar o resultado dos seus trabalhos.

A commisão desejando mandar construir um barco a vapor, de força e tamanho proprio para o serviço de reboques na barra do nosso porto, principiou por solicitar para Inglaterra informações circumstanciadas de custo e clausulas, que exigem os fabricantes, pela construcção do mesmo vapor, nas condições de servir para o fim a que era destinado: reconheceu, porém, pelos esclarecimentos obtidos, que em consequencia dos altos preços dos materiaes, e dos salarios, e da falta de operarios, o custo na actualidade, do rebocador novo, como se pretendia, ficava por somma tão elevada, que, alem de exceder bastante a quantia votada para elle, viria sobrecarregar a companhia, d'um modo que muito a affectaria nos seus interesses.

Em vista d'isto, a commissão, na impossibilidade de dar cumprimento ao seu honroso encargo, estava a ponto de desistir, e resignar em assembleia geral o mandato, que por esta lhe fora conferido, quando teve conhecimento de que estava para se vender o vapor Scotia, barco construido em Blockwall, no anno de 1864, com a força de 100 cavalos nominaes, proprio para rebocador, e pertencente á companhia Coledonian Steam Towing.



A comissão solicitou, por intermedio dos snrs. Dickinson Aknoyd & C.ª de Londres, esclarecimentos das dimensões, qualidades, estado e custo d'este barco, e mandou, alem disso, examinal-o pessoalmente pelo capitão Kavanaugh: e em resultado de tudo, pôde saber, que o mencionado vapor convinha perfeitamente a esta companhia, por ser do tamanho e força propria para a nossa barra, e achar-se no melhor estado de conservação, precisando apenas de ser forrado de cobre, e d'algumas pequenas obras no machinismo e no casco.

Entrou, portanto, a commisão, em negociações para a compra, e tendo-se trocado, e assentado, por intermedio dos referidos snrs. Dickinson Aknoyd & C.ª, as bases do ajuste, foi realisada a compra do referido barco a vapor por libras 6:000 » 0 » 0, onforme a escriptura lavrada em Londres no dia 2 de julho proximo passado: achando-se já surto no rio Douro, com o nome de Veloz o mesmo vapor.

(...)

Cremos que a companhia ficou completamente bem servida com a acquisição do vapor Veloz, não só por que o seu custo foi o mais rasoavel possivel, como porque a sua construcção e machinismo são excellentes, e o tamanho e força perfeitamente adequados para a nossa barra: ficando assim a companhia convenientemente habilitada a satisfazer bem ao serviço dos reboques.

(...)

Porto, 14 de Novembro de 1873

_______________________________________________________________
[extraído de O Jornal do Porto de 15 de novembro de 1873, que pode ser consultado on line no sítio da BND.]

domingo, 13 de novembro de 2016

A fonte de Mouzinho da Silveira (dois documentos para a sua história)

Existe uma série de livros no AHMP chamado Documentos avulsos, que creio tem alguns documentos interessantes para a história do Porto do século XIX e XX, e que talvez não sejam dos mais conhecidos. Os dois de onde retiro estas notas são relativos à fonte monumental que se construiu naquela rua, por forma a ocupar terrenos que não se prestavam à edificação.

Como nota histórica mais antiga, refira-se que naquele preciso local existiu uma penadia que foi desde muito cedo usado pela celebremente poluidora industria dos pelames, despejando o subproduto da sua atividade no Rio da Vila que corria um pouco mais abaixo. É daí mesmo que vem o nome Rua dos Pelames, hoje em parte sustentada pela referida fonte. Em tempo dos Almadas, aquela indústria foi deslocalizada para zonas mais afastadas da cidade, nomeadamente para as Fontainhas.

A Rua de Mouzinho da Silveira foi aberta na segunda metade da década de 70 do séc. XIX, contudo data apenas de 18 de Setembro de 1884 o projeto da fonte. O que se lê abaixo é extraído do documento que deveria provavelmente acompanhar o projeto aquando da entrega deste à presidência camarária, e que foi preservado separadamente. Vejamos o que nos diz o documento:

Junto o projeto da fonte que, segundo a deliberação de V. Exa. na Rua de Mouzinho da Silveira, utilizando as águas das fontes do Largo de S. Bento e S. Roque que tem de ser inutilizadas.

O projeto desta obra, além de satisfazer aqueles requisitos, obedeceu ainda à necessidade:
- de ocupar parte do terreno livre, que não podia alienar-se para edificação por ter pequeno fundo;
- de amparar ou revestir a massa de rocha granítica, onde assenta a Rua dos Pelames;
- de dar finalmente maior largura aquela rua.

As diferentes peças de que se compõem este projeto mostraram a V. Exa. que ele satisfaz simultaneamente a todas aquelas exigências tendo um tanque com 8,0m de comprimento, 3,10 de largura e 0,70m de altura; duas bicas, e dois espaços de 3,0m de comprimento por 2,70m de largura, livres do passeio da rua, destinado ao depósito dos canecos dos aguadeiros. Na frente do tanque há um gradil que se abrirá em ocasião de incêndio, permitindo o livre acesso ao pessoal destinado ao fornecimento da água.

O orçamento desta obra feita detalhadamente monta a 4.303$118 reis.
A fonte em meados do século XX
Vejamos agora o documento que reputo de mais interessante, que consiste num protesto dos fresquíssimos moradores da rua, que não queriam a fonte ali.

Com efeito, 59 moradores apresentaram uma petição ao presidente da câmara contra a construção da fonte que se está fazendo naquela rua. Argumentando:

- as fontes são frequentadas por pessoas das mais ínfimas classes sociais a que falta a educação e a luz do ensino;
- do ajuntamento dessas pessoas resultam constantes rixas e desordens, acompanhadas de palavras obscenas que escandalizam permanentemente os moradores das proximidades e os transeuntes;
- seria muito para lastimar que estas cenas se dessem na Rua Mouzinho que já é uma rua importante e que mais importante tem de ser no futuro.

Assim, sem mais! Nesta petição lembravam os requerentes que a câmara poderia adquirir a casa da Rua dos Pelames que fica na parte posterior da fonte em construção e vender por preço elevado, para edificação, os terrenos da Rua Mouzinho da Silveira, depois de deslocar para o interior a Rua dos Pelames(!) e com o produto desta venda adquirir terreno em frente à Rua do Souto ou da Ponte Nova para colocar a fonte. Mais diziam que os terrenos da rua poderiam chegar ao valor de 16.000$000 reis.

A petição, que tinha de ser respondida ou atendida, foi entregue para consideração ao técnico que elaborara o projeto da fonte que em fevereiro de 1885 respondeu:

...nem os inconvenientes apresentados com a construção da fonte não desapareciam ou atenuariam para o local apontado ou outro ponto da mesma rua, nem a Rua dos Pelames melhoraria com a disposição que lhe desejavam em relação àquela que vai ter conforme se acha projetada e mais ainda a operação não seria financeiramente proveitosa para o município pois os terreno nunca poderiam atingir aquele valor, atendando à enorme escavação que neles seria necessário fazer para edificar; assim como o valor do terreno, não edificado, cobriria a despesa de expropriação do terreno edificado necessário a adquirir em substituição daqueles; finalmente, a lei permite ao município expropriar o terreno que lhe pertence, para assim facilitar a sua venda.

Creio que são inéditos estes documentos, como aliás alguns outros que volta e meia vou aqui colocando. Fica aqui expressa a vontade de prosseguir com este objetivo de dar a conhecer documentos que, apesar de contarem uma parte pequena da história, servem para enriquecer o conjunto global de conhecimento da evolução da nossa cidade.
______
Confesso que, quer num quer noutro documento, não se mostrou para mim completamente legível o nome do técnico da Câmara, pese embora esteja convencido que o seu sobrenome seja Cruz.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A chegada do 'Porto'

Finalmente encontrei! Confesso que fiquei muito contente, por ter encontrado a notícia da chegada do 'Porto' para o início da sua carreira de pouco mais de 15 anos, que infelizmente terminou de uma forma bastante trágica e que marcou a cidade durante muito tempo. Peço contudo, aos meus leitores que por agora se concentrem na novidade da sua chegada e aquilo tudo que representava para a cidade, o seu primeiro vapor, quase diria que não podia deixar de ser, levou o seu nome: PORTO.

'Sabbado 24 do corrente ao meio dia entrou na barra desta Cidade, e ancorou defronte do Postigo da Alfandega, o novo Barco movido por vapor = PORTO = que construído em Liverpool por conta de huma Associação Portuense, deve andar em carreira d'aqui para Lisboa. Ao annuncio que o Telegrafo Commercial deu da sua aproximação, entrada, e subida pelo Rio, todo o muro, e cáes desde a Porta Nobre até ao Codeçal se apinhárão de gente desejosa de vê-lo, e he forçoso confessar que preencheu a expectação de todos, especialmente da maior parte dos Accionistas, que immediatamente se dirigírão a bordo, assim como alguns dos mais respeitaveis Commerciantes Nacionaes e Estrangeiros, que se achavão na Praça.

A Administração, que tinha entrado a bordo na Foz, teve sobre tudo motivos para muito particular satisfação, por vêr que seus esforços, escolha de correspondentes, e intrucções a bem da Empreza, tiverão effeito pleno, manifestado na approvação geral patenteada a todos os respeitos. A magnifica, e economica distribuição de Camarotes, e Sofas na Camara grande; Camara de Senhoras; Camara de Proa; e  alguns Camarins particulares para familias, nada deixa a desejar para se tirar partido da sua configuração e arranjo. O aceio, sem ser de luxo dispendioso, he da maior propriedade e decencia, ; os moveis d'uso são excellentes; ainda que he preciso confessar, que exceptuando a riqueza, e gôsto do Barco de Vapor em que Suas Magestades vierão ao Porto em 1834, nenhum outro ainda aqui se vio mais elegante, e lindamente mobilado e ornado.

O Commandante, e a Tripulação, , todos Portuguezes, que forão de propôsito a Liverpool para tomarem conta da embarcação, e mareá-la para Portugal, dizem maravilhas da maneira de sua navegação, docilidade de leme, etc. Acoçado o Barco ao sahir de Liverpool, por huma violentissima tempestade, foi obrigado a arribar a Cork, e d'alli veio ao Porto em 3 dias de viagem.

O Commandante para obzequiar a Mesa da Direcção, e a Administração, tinha servido na Camara grande, hum mui decente Ambigu: e estes Senhores convidando os seus Amigos a tomarem alguma refeição, os penhorárão em extremo. Dous dos convidados, tomando a palavra, levantarão cordeaes saudes ao mesmo Commandante, e á Administração, e o Snr. Domingos Ribeiro de Faria invocou a saúde dos Correspondentes de Liverpool, os Snrs. Duarte Irmãos & C.ª He escusado dizer que a amisade, o respeito, e a delicadeza do obzequio tiverão o acolhimento merecido.

Por esta occasião teve logar de se vêr o serviço de louça para uso do Barco: tem pintadas as Armas da Heroica Cidade do Porto, e o nome do Navio. O serviço de cristal he de lindo gôsto. Os Camarins tinhão as suas cobertas e travesseiros, e póde por consequencia fazer-se huma idéa do tratamento aceado, e ordinario do uso do comum.

Tem por consequencia o Porto o seu primeiro Barco de Vapor: esta epoca he por certo notavel, e marca hum periodo de progresso na escala de suas communicações commerciaes.

Está-se pois preparando, segundo nos consta, para começar as suas viagens no principio do novo anno; e logo que se fação públicas as condições de transporte nos seus diversos logares, nós os transcreveremos immediatamente, para que o Público desta Cidade, e Provincias possão ser informados disso convenientemente.


-- --

Consta-nos que no Domingos, e hontem dia Santo de guarda, achando-se o Barco embandeirado, e havendo-se aproximado ao Cáes da Ribeira, concorrêrão muitas Familias a bordo a vêr os arranjos designados, recebendo todos do Commandante e Tripulação hum acolhimento benevolo, e informações attenciosas, que a curiosidade exigia á vista da inspecção minuciosa, franqueada tão amplamente como nunca antes tem havido.

Foi-nos agora mesmo remettida a seguinte declaração, que he como hum preludio do Regulamento ordinario.

-- --

Os Administradores do mesmo annuncião que elle principiará as suas viagens entre esta Cidade e a de Lisboa, no dia 1º de Janeiro de 1837.

Este Paquete que foi mandado construir de propósito para navegar na costa de Portugal, com engenhos de grande fôrça, e com todos os melhoramentos que a experiencia dos ultimos annos tem mostrado proficuos para maior segurança e fortaleza, acha-se com a sua tripulaçao (Nacional) completa, e escolhida, offerecendo por tanto ás pessoas que se servirem d'este transporte toda a confiança, e nelle encontrarão não só o maior grau de segurança, que se póde esperar; mas o melhor tratamento possivel. Os Administradores desejando animar, e facilitar a concorrencia dos Passageiros das Camaras fizárão os preços aproximados aos que até agora se pagavão em outros Barcos de Vapor, com a differenºa porém de que aos Passageiros das Camaras se fornecerá, gratuitamente, almôço, jantar (com vinhos, cervveja, etc) e chá á noite, com toda a decencia, e tudo a horas regulares, e entre estas o mais que apetecerem, de comer ou beber, e que fôr susceptivel de haver a bordo, durante a viagem: intendendo-se por viagem desde que o Paquete levantar ferro até fundear, e não o tempo em que estiver arribado em qualquer porto, que não seja o do seu destino. Os Bilhetes para a recepção a bordo são pagos no acto de os receberem, pelos preços abaixo notados.
Primeiras Camara, cada Passageiro Rs. 16$000
Segunda Camara, '' '' Rs. 12$000
Convés ......., '' '' Rs. 4$800

Na Camara grande ha dous Camarins, cada hum para quatro pessoas e na 2ª outros dous cada hum para duas pessoas, os quaes se justaráõ em separado. Cada Passageiro poderá levar a sua bagagem, não excedendo toda reúnida a 4 pés cubicos, e ao pêso de 128 arrateis; excedendo, pagará pelo excesso a 180 rs. por pé cubico, hindo debaixo da coberta, e no Convés a 120 rs. e ppelo pêso a maior o que se convencionar no Escriptorio.

Os Passageiros na occasião de hirem tomar os Bilhetes, devem levar os seus passaportes, que deixaráõ no Escriptorio, e lhes serão entregues a bordo pelo Commandante. Sem passaporte ninguem hirá de passagem - Este Paquete póde receber grande porção de carga, o frete da qual será muito rasoavel, e se póde ajustar com os Administradores. A carga pesada, ou volumosa só será recebida a bordo hindo acompanhada d'huma ordem dos Administradores, e do competente despacho da Alfandega, até ao meio dia da vespera da sahida, e as encommendas se receberáõ no Escriptorio até ás 3 horas da tarde do mesmo dia.

O Paquete largará da amarração ás 9 horas e meia da manhãa impreterivelmente (se o tempo o permittir.)

Os Passageiros devem achar-se a bordo ás 8 horas e meia (conforme o Regulamento que se lhes dará no Escriptorio, assim como os mais esclarecimentos que desejarem.) - As pesoas que pretenderem hir de passagem, ou carregar, dirijão-se ao Escriptorio da Administração na Rua Nova de S. João nº 76, todos os dias desde as 10 horas da manhãa até ás 3 da tarde. Porto 27 de Dezembro de 1836.

Os Administradores:
Antonio Ribeiro de Faria,
João Baptista Machado,
José Perry.'

____________________
Extraído do jornal O Artilheiro, 27 de Dezembro de 1836, tendo a ortografia original sido mantida.

domingo, 2 de outubro de 2016

Um alinhamento polémico

Algumas das plantas que se nos apresentam à disposição no site do Arquivo Histórico Municipal do Porto, embora de uma forma geral elucidativas, vêm muitas vezes descontextualizadas dos seus suportes escritos, que nos permitem melhor avaliar o projeto que se nos apresenta. Por mais de uma vez dei por mim a consultar pareceres em que as referências a essas plantas existem, mas as plantas não estão junto deles. É o caso de um texto que se refere à planta que apresento abaixo e que, creio, se não foi feito para ela, está intimamente relacionado com ela.

Planta aprovada em 1838, provavelmente datada do ano anterior.

A planta acima mostra-nos a parte final do alinhamento da Rua Ferreira Borges e que deu bastante polémica nos jornais da época aquando da sua abertura (1835-1838); nomeadamente mostra-nos a dúvida sobre como deveria ser rematada a rua no seu extremo sul em que passava por detrás de igreja de S. Francisco.

Convêm elucidar que a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto (ACP) que a tomou a cargo desde o início e com o apoio camarário. Contudo, após a Revolução de Setembro (1836), esse apoio desvaneceu.

Já em 1837, a comissão daquela instituição encarregada de superintender a obra da rua propõe à ACP a destruição da capela-mor da igreja, para o correto alinhamento da rua. Num ato de lucidez a mesma rejeita essa proposta sendo elaborado um novo projeto que a substitui, posteriormente apresentado à Câmara. Ainda assim, convêm não esquecer que o projeto original para esta rua, aprovado em 1835, aparentemente incluía a demolição daquela parte da igreja gótica, tendo sido aprovada com a conivência da Câmara da altura (talvez neste particular se possa desabafar bendita revolução setembrista...). Isto porque em consequência da resolução (interna) de manter aquela parte da igreja, a Associação solicita-a à Câmara informando ao mesmo tempo que outra planta estava já em preparação.

A edilidade aproveita o momento para tomar um pouco as rédeas de uma obra que de todo estivera fora da sua alçada fazendo uma vistoria ao local. Ainda assim, não querendo tomar parte definitiva na resolução do problema, elabora também ela a sua proposta para o remate da rua. Explica a Câmara que se o edifício do Tribunal do Comércio não fica na frente desse alinhamento, nem por isso se peora o aformoseamento, estabelecendo dele ao pavimento da rua um paredão que forme um terraço, no qual colocada uma baranda muito concorre à boa vista que apresentará, e à perfeita segurança que ainda se torna indispensável aos alicerces daquele edifício, que no estado em que se acham, carecem indispensavelmente de alguma atenção para poder-se tirar proveito de tal edifício, podendo nesse mesmo paredão formar-se uma arcaria que poderia ter bom rendimento pela sua localidade. A Câmara exigia também que a ACP revertesse o uso da igreja para o seu original intento do culto divino e não seja usado como armazém alfandegário, e também que o alinhamento se faça pela sua planta.

Área em questão, com a visível ameaça de ruína da capela-mor, numa gravura da época.

Assim decorre durante quase todo o ano de 1837, uma polémica sobre os três alinhamentos agora propostos: o original que faz demolir a capela-mor, o alternativo da ACP e o da Câmara. A juntar a tudo isto existe também envolvido o pedido de licenciamento para um edifício naquele local, que ficaria situado à entrada da rua do seu lado poente por parte de um particular, projeto esse que aguardava a conclusão da rua e que tardava a arrancar dado o "imbróglio" que ali se apresentava.

Em outubro de 1837 o administrador geral do distrito do Porto requer à Câmara um parecer sobre a conservação da capela-mor e a sua transformação em armazém da alfândega, mandando também o arquiteto da cidade levantar a planta da Rua Ferreira Borges de modo a conservar a capela. Neste parecer, elaborado por Joaquim da Costa Sampaio Lima onde este refere que, excluída que estava a demolição da capela-mor, o alinhamento da Câmara é preferível com vantagem de com o projetado terraço exterior ao edifício, o mesmo edifício recuperaria maior solidez do que muito precisa por se achar ameaçando ruína, e bastantemente desaprumado e também que esta rua alinharia mais exatamente com a frente de S. Nicolau. Além de que o seu alinhamento destruiria em parte a agudeza do ângulo formado com a rua dos Ingleses, e o tornaria mais vizinho à linha perpendicular e claro, que se pouparia a demolição daquela parte do templo que algum respeito merece. Mas diz mais:

Como a Associação (digo) não aceita o novo projecto, e prescinde das suas respectivas vantagens, então julgo que de necessidade se deve abraçar o primeiro plano, o qual consigo arrasta a demolição da referida parte daquele templo que aliás ficaria servindo ali de um perpétuo estorvo. Não concordo porém no que propõe a Associação Comercial quanto a estorvar-se que José Ferreira dos Santos Silva, edifique na porção triangular colocada na extremidade da rua; seria sem dúvida muito mais defeituosa a porção mutilada, o alinhamento interrompido, e o número de ângulos multiplicado ... sendo claro que um ângulo agudo não é senão um defeito, e para fugir deste cairíamos no ângulo obtuso ... que se reduz a um defeito do mesmo valor mas em sentido contrário, portanto sou do parecer que por nenhum modo se estorve que as duas linhas se cruzem no vértice onde as conduz a sua primitiva inclinação e por conseguinte se permita ao mencionado proprietário de edificar no terreno ponte-agudo. (Nota: Embora uma casa ali nos possa causar atualmente estranheza, temos de ter presente que toda a Rua do Infante estava edificada, não existindo ainda o jardim.)

Arrastando-se ainda por mais uns anos, a questão apenas ficou resolvida em janeiro de 1839, quando o governo concedeu a igreja que outrora fora do convento franciscano à sua Ordem Terceira, que ainda hoje a possui. A partir desta altura pode a Associação Comercial concentrar todos os seus esforços na construção do Palácio da Bolsa. Quanto à casa particular esta nunca chegou a ser edificada.

O paredão construído para suster os alicerces da capela-mor, em meados do séc. XIX (em primeiro plano parte da cerca do convento de S. Domingos).
_______________

Fontes:
Arquivo Histórico Municipal do Porto
Porto, 1763/1852 - a construção da cidade entre despotismo e liberalismo de Anni Günther Nonell

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Por onde se rasgou a Rua das Flores

A Rua das Flores, agora renascida do seu agonizante calvário de mais de vinte anos e plenamente integrada no Porto do século XXI, remonta ao início do XVI, tendo portanto aproximadamente a vetusta idade de 500 anos.

Naquele tempo, num progressivo aumento de importância do Porto que ocupava já plenamente o lugar de segunda cidade de Portugal (ultrapassando Évora e Santarém), foram rasgadas várias ruas naquilo que hoje convencionamos chamar centro histórico. A Rua Nova surge-nos ainda no final do século XIV por iniciativa de D. João I, mas a grande "febre" urbanizadora dá-se no início do século XVI, quando a cidade se expande numa malha que vem a abranger grandes áreas ainda disponíveis intramuros.

Aberta em terrenos pertencentes uns à Mitra e outros ao Cabido da Sé num local ocupado até aquela altura quase exclusivamente por hortas, o início da sua construção remonta ao ano de 1521, motivada para além do crescimento da cidade que impunha o crescer da urbanização dela, pela construção do Mosteiro de São Bento das Freiras em 1518, também ela em terrenos propriedade da igreja (que obrigou a mudar o troço final da Rua do Loureiro).

"... a qual rua era pelo meio meio dos chãos e enchidos e hortas..."
Não sendo prova disso por ser bastante anterior (1387) mas elucidando ainda assim da parca urbanização de toda aquela área, é esta passagem da Crónica de D. João I, aquando do casamento do monarca:
"...E fizeram mui à pressa ũa grão praça ante São Domingos da rua do Souto, que eram então tudo hortas, u* justavam e torneavam grandes fidalgos e cavaleiros que o bem sabiam fazer...": ou seja, era naquele local, entre o convento dominicano e a Rua do Souto que se faziam os torneios que hoje tão habituados estamos a ver recreados nas feiras medievais.

A prova de que toda a aquela área era usada para atividade lúdica está, por exemplo, no facto de ser bem ali próximo também, no local hoje ocupado por parte da Rua da Vitória, que se encontravam as chamadas Barreiras, ou seja, "... sítio das Barreiras onde os besteiros jogam a besta entre a Rua das Flores e a de S. Miguel" [1534]; ou mesmo ainda no século XIV, uma das confrontações da judiaria era "uma careira que ora vai  acima do caminho unde cragam a beesta que esta acima das almoinhas"; estas almoinhas serão provavelmente as hortas onde se rasgaria a Rua das Flores mais de cem anos depois.

Dá-nos também uma ideia do que ali existia antes da rua este excerto relativo ao aforamento de um terreno na mesma, em 1523:

...el rei nosso senhor mandara hora novamente abrir na dita cidade uma rua por nome chamada de Santa Caterina das Flores ... por ser muito necessária à dita cidade para por ela se servir e se não poder passar para serventia do Mosteiro novo [S. Bento] ... e assi para a dita cidade pelo crescimento que ela vai a Deus louvores, a qual rua era pelo meio dos chãos e enchidos e hortas que da mesa episcopal são ... os quais chãos jazem no meio quasi da dita cidade e pelos ditos chãos jazerem assi no meio da dita cidade e a disformavam por não serem feitos em edifícios ... além da necessidade que para nobrecimento da dita cidade na dita rua se fizessem casas nobres e não houvessem enxidos de hortas para que a dita cidade não estivesse assi desformada ... e a cidade cresser em povoadores e não ter tão bons lugares para edificar dentro dos muros senão nos ditos chãos ...

Nesta imagem do googlemaps assinalei: A - Largo do Chafariz de S. Domingos ou Largo de Santa Catarina das Flores (hoje Largo de S. Domingos) / B - Rua das Flores (original) / C - Rua dos Canos (hoje Rua das Flores) / D - Largo da Feira de S. Bento (atualmente Praça Almeida Garret)
Embora tecnicamente existissem duas ruas, a Rua das Flores e a Rua dos Canos, logo no início da sua existência eram elas tidas como uma só, pelo menos a julgar pela referência que faz João de Barros na sua Geografia d'entre Douro e Minho e Trás-os-Montes:
A outra rua mui nobre é a Rua de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o Mosteiro de S. Domingos com um fermoso chafariz de muita água, com outra fonte muito grande, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Elói, com outra fonte muito grande...

À semelhança da Rua Nova também os aforadores estavam obrigados a construir casas nobres, i. é, de pedra pelo menos no rés-do-chão (o que também nos diz algo sobre as casas das restantes ruas da cidade).

A Rua das Flores foi durante bastante tempo o local de eleição preferido pelas elites para morada, em terreno que até ali servira apenas senão para semearem neles hortaliça.

Mas ainda que desde cedo confundidas, a Rua dos Canos por várias formas se distinguia da sua vizinha, que era habitada maioritariamente por indivíduos ligados aos misteres. Diferenciava-a também o facto das casas ali construidas serem regra geral de menores dimensões dado estarem compactadas entre o muro da cerca de Santo Elói (próximo da saída do parque de estacionamento das Cardosas) e o Rio da Vila (que naquele local se encontra agora por baixo das casas da Mouzinho da Silveira e não tanto sob o leito da mesma rua).

Para quem estiver interessado em conhecer a história desta rua profunda e completamente (mesmo casa a casa!) bem como uma boa apresentação da cidade dos inícios do século XVI recomendo a leitura do livro do Prof. Dr. Ferrão Afonso, A Rua das Flores no século XVI: elementos para a história urbana do Porto quinhentista; de onde vieram quase todas as notas aqui colocadas, sendo a outra fonte deste humilde post o Censual da Mitra da Sé do Porto.

Convido também a visitarem o blogue do Porto e não só onde existe mais informação sobre ela AQUI

___

* português antigo para onde.