terça-feira, 20 de setembro de 2016

Por onde se rasgou a Rua das Flores

A Rua das Flores, agora renascida do seu agonizante calvário de mais de vinte anos e plenamente integrada no Porto do século XXI, remonta ao início do XVI, tendo portanto aproximadamente a vetusta idade de 500 anos.

Naquele tempo, num progressivo aumento de importância do Porto que ocupava já plenamente o lugar de segunda cidade de Portugal (ultrapassando Évora e Santarém), foram rasgadas várias ruas naquilo que hoje convencionamos chamar centro histórico. A Rua Nova surge-nos ainda no final do século XIV por iniciativa de D. João I, mas a grande "febre" urbanizadora dá-se no início do século XVI, quando a cidade se expande numa malha que vem a abranger grandes áreas ainda disponíveis intramuros.

Aberta em terrenos pertencentes uns à Mitra e outros ao Cabido da Sé num local ocupado até aquela altura quase exclusivamente por hortas, o início da sua construção remonta ao ano de 1521, motivada para além do crescimento da cidade que impunha o crescer da urbanização dela, pela construção do Mosteiro de São Bento das Freiras em 1518, também ela em terrenos propriedade da igreja (que obrigou a mudar o troço final da Rua do Loureiro).

"... a qual rua era pelo meio meio dos chãos e enchidos e hortas..."
Não sendo prova disso por ser bastante anterior (1387) mas elucidando ainda assim da parca urbanização de toda aquela área, é esta passagem da Crónica de D. João I, aquando do casamento do monarca:
"...E fizeram mui à pressa ũa grão praça ante São Domingos da rua do Souto, que eram então tudo hortas, u* justavam e torneavam grandes fidalgos e cavaleiros que o bem sabiam fazer...": ou seja, era naquele local, entre o convento dominicano e a Rua do Souto que se faziam os torneios que hoje tão habituados estamos a ver recreados nas feiras medievais.

A prova de que toda a aquela área era usada para atividade lúdica está, por exemplo, no facto de ser bem ali próximo também, no local hoje ocupado por parte da Rua da Vitória, que se encontravam as chamadas Barreiras, ou seja, "... sítio das Barreiras onde os besteiros jogam a besta entre a Rua das Flores e a de S. Miguel" [1534]; ou mesmo ainda no século XIV, uma das confrontações da judiaria era "uma careira que ora vai  acima do caminho unde cragam a beesta que esta acima das almoinhas"; estas almoinhas serão provavelmente as hortas onde se rasgaria a Rua das Flores mais de cem anos depois.

Dá-nos também uma ideia do que ali existia antes da rua este excerto relativo ao aforamento de um terreno na mesma, em 1523:

...el rei nosso senhor mandara hora novamente abrir na dita cidade uma rua por nome chamada de Santa Caterina das Flores ... por ser muito necessária à dita cidade para por ela se servir e se não poder passar para serventia do Mosteiro novo [S. Bento] ... e assi para a dita cidade pelo crescimento que ela vai a Deus louvores, a qual rua era pelo meio dos chãos e enchidos e hortas que da mesa episcopal são ... os quais chãos jazem no meio quasi da dita cidade e pelos ditos chãos jazerem assi no meio da dita cidade e a disformavam por não serem feitos em edifícios ... além da necessidade que para nobrecimento da dita cidade na dita rua se fizessem casas nobres e não houvessem enxidos de hortas para que a dita cidade não estivesse assi desformada ... e a cidade cresser em povoadores e não ter tão bons lugares para edificar dentro dos muros senão nos ditos chãos ...

Nesta imagem do googlemaps assinalei: A - Largo do Chafariz de S. Domingos ou Largo de Santa Catarina das Flores (hoje Largo de S. Domingos) / B - Rua das Flores (original) / C - Rua dos Canos (hoje Rua das Flores) / D - Largo da Feira de S. Bento (atualmente Praça Almeida Garret)
Embora tecnicamente existissem duas ruas, a Rua das Flores e a Rua dos Canos, logo no início da sua existência eram elas tidas como uma só, pelo menos a julgar pela referência que faz João de Barros na sua Geografia d'entre Douro e Minho e Trás-os-Montes:
A outra rua mui nobre é a Rua de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o Mosteiro de S. Domingos com um fermoso chafariz de muita água, com outra fonte muito grande, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Elói, com outra fonte muito grande...

À semelhança da Rua Nova também os aforadores estavam obrigados a construir casas nobres, i. é, de pedra pelo menos no rés-do-chão (o que também nos diz algo sobre as casas das restantes ruas da cidade).

A Rua das Flores foi durante bastante tempo o local de eleição preferido pelas elites para morada, em terreno que até ali servira apenas senão para semearem neles hortaliça.

Mas ainda que desde cedo confundidas, a Rua dos Canos por várias formas se distinguia da sua vizinha, que era habitada maioritariamente por indivíduos ligados aos misteres. Diferenciava-a também o facto das casas ali construidas serem regra geral de menores dimensões dado estarem compactadas entre o muro da cerca de Santo Elói (próximo da saída do parque de estacionamento das Cardosas) e o Rio da Vila (que naquele local se encontra agora por baixo das casas da Mouzinho da Silveira e não tanto sob o leito da mesma rua).

Para quem estiver interessado em conhecer a história desta rua profunda e completamente (mesmo casa a casa!) bem como uma boa apresentação da cidade dos inícios do século XVI recomendo a leitura do livro do Prof. Dr. Ferrão Afonso, A Rua das Flores no século XVI: elementos para a história urbana do Porto quinhentista; de onde vieram quase todas as notas aqui colocadas, sendo a outra fonte deste humilde post o Censual da Mitra da Sé do Porto.

Convido também a visitarem o blogue do Porto e não só onde existe mais informação sobre ela AQUI

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* português antigo para onde.

domingo, 11 de setembro de 2016

As Escadas da Vitória

As Escadas da Vitória são um equipamento que não constituem nem um monumento ou ponto de referência emblemático da cidade. Trata-se de uma pura granítica serventia que permite com mais facilidade galgar a encosta do belo monte naquela área, dando acesso rápido à zona da Cordoaria.

Não posso contudo deixar de iniciar este périplo histórico sem fazer referência ao triste estado em que se encontram atualmente votadas. Fiz uso delas precisamente na deslocação ao AHMP, perseguindo o objetivo de conhecer melhor a história destas escadas e confesso que as encontrei num estado lastimável de desleixo higiénico. Um cheiro fétido a excreções humanas ali está presente, num local usado por muitos turistas que dispensam o caminho mais longo via Rua das Flores para chegarem à zona mais baixa da cidade e vice-versa. Na verdade por ali se corta muito caminho, mas quem saí das cuidadas ruas da área mais turística, mal entra naquelas escadas, dá de cara com um aspeto nada agradável, fazendo-me lembrar as histórias que ouvi sobre Veneza onde naquelas águas lamacentas percorridas pelas esguias gondolas se sente por vezes o cheiro a esgoto... Não é possível a Câmara limpar com água aquela área ao menos semanalmente? Os turistas e os portuenses agradeceriam e sobretudo a imagem da cidade também.

Mas entremos finalmente no âmbito deste artigo.

As Escadas da Vitória atuais não são muito antigas; aliás os seus grandes e bem cortados blocos de granito isso denunciam. Mas a prova está no projeto delas, arquivado no AHMP e que data de 1878.

Ainda antes desse projeto, podemos verificar num pormenor da planta apresentada à Câmara 1851 por Joaquim da Costa Lima Júnior a propósito do alinhamento da Rua da Vitória, que as escadas daquela época tinham três entradas separadas por umas dezenas de metros entre si (acredito que este alinhamento nunca tenha sido levado a efeito pois as edificações que ainda hoje lá se conservam apresentam forma quase idêntica).
a) Alinhamento proposto para a Rua de São Roque (Rua da Vitória).

No que toca às escadas, surge em 1878 o projeto para melhorar substancialmente aquela passagem, projeto esse que devemos enquadrar na época a que se reporta, i. é, quando estava já em pleno funcionamento os novos acessos à zona baixa da cidade via Rua Mouzinho da Silveira e Rua Nova de São Domingos (depois de Sousa Viterbo) embora estas ruas tenham sido rasgadas a pensar no trânsito em geral, sobretudo no cada vez maior tráfego de carros. Mas isso só demonstra que este acesso, secundário por assim dizer, tinha ainda um papel a desempenhar no trânsito de pessoas. Isso mesmo o expressa a memória descritiva do projeto que abaixo se apresenta:

"A escadaria da Esnoga é pela sua situação a passagem mais concorrida das que deste género existem entre a parte baixa, ou marginal desta cidade do Porto, e o alto do bairro ocidental da mesma cidade. As pessoas que deste bairro se dirigem a pé para a Ribeira, para a alfândega ou vice-versa, preferem aquele caminho ou para encurtarem a grande distância a percorrer pela rua das Flores, ou evitar o incómodo e perigoso trânsito das ingremes calçadas que de diversos pontos da cidade descem para a margem do Douro, tais são as ruas do Ferraz, Caldeireiros, S. João Novo, e outros mais.

A escadaria porém, pela sua má disformação em parte, e pelo seu estado de ruína, necessita de uma reforma radical para satisfazer convinientemente às condições de viabilidade.

Na reforma da escadaria o projeto mais elegante, e que contribuiria consideravelmente para o melhoramento da localidade, seria o que em largura igual à da rua Ferreira Borges, seguisse no prolongamento da mesma rua em lanços de escada duplos, que de patins laterais convergissem em patins centrais, correspondentes ao mais da escadaria. Este projeto, além de obras dispendiosas exegiria o corte de prédios, cuja expropriação não seria inferior a vinte e quatro contos de reis e o custo total elevar-se-ia a quarenta contos. A adoção portanto deste projeto importaria num grave erro de administração, em consequência das finanças municipais não permitirem obras de luxo com prejuízo de outras de urgente e primeira necessidade.

Abandonada a ideia deste luxuoso projeto, delineei aquele, que em ante-projeto apresentei em 2 de Novembro de 1877, e que passo a justificar.
Ante projeto das escadas, elaborado em 1877. Nele ainda se podem ver as escadas antigas que foram depois demolidas bem como o lanço assinalado na planta anterior, entretanto já desativado(?).

Segundo este projeto aproveita-se o traçado da atual escadaria a partir da rua de Belomonte até ao perfil c c3; abandonando-o deste ponto em diante em consequência do terreno não permitir dar à escada a devida largura, e o desenvolvimento conveniente e em ordem a poder dar aos degraus as dimensões exigidas pela comodidade do trânsito (...).

Na parte em que aproveito o leito da atual escadaria projeto seis patins de comprimentos desiguais e irregulares, separados por lanços de escada em que o número de degraus varia de lanço para lanço. Esta irregular disposição é devida à imperiosa necessidade de estabelecer os patins ao nivel das soleiras das portas traseiras de diversos prédios da rua de Belomonte. Se não fosse obrigado a respeitar estas serventias, disporia os patins alternando com os lanços de escada, dando-lhe dimensões uniformes e constantes como sucede do patim n.º 6 em diante.

Corte transversal do mesmo ante projeto de 1877.

Do patim n.º 6 até ao fim a escadaria segue em dois ramais em zig-zag tendo de comum o patim n.º 8,  e sendo cada ramal constituído de dois lanços de escada, separados pelos respetivos patins (...)

A largura da escadaria é variável; da origem ao patim n.º 2 é de 2,1 em média para se evitar o corte no prédio adjacente; do patim n. 2 ao n. 6 a largura é de 3; e do patim n.6 ao fim da escada a largura é de 2,7 entre os parapeitos; mas não se dando medir largura nesta parte; porque se 2,10 que a escada tem na sua origem, é largura suficiente para as necessidades de trânsito com mais razão satisfará a largura de 2,70.

Pelo traçado proposto vence-se a diferença de nivel de 21,44 entre os pontos extremos por meio de uma escadaria de 80 metros de extensão em excelentes condições, porque os degraus tem geralmente 30 a 35 centímetros de piso, por 14 a 15 centimetros de altura, além disso a maior altura de cada lanço não excede a 2,66, contribuindo todas estas disposições e os descanços nos patins para tornar menos penosa e fatigante a subida e descida da escadaria.

O traçado, cujos detalhes acabo de justificar, parece-me o preferível a qualquer outro, porque sendo obrigado por motivos de economia o aproveitamento de parte do leito da atual escada a contar de origem, não pude deixar de ser considerado como obrigado o ponto em que projeto o patim n.6 em consequência da disposiçao dos degraus existentes neste ponto, do nivel das soleiras das portas dos prédios confinantes, e da necessidade de no terreno compreendido entre aqueles prédios e a rua de S. Roque haver 6 metros de largura para se poder estabelecer os dois ramais que em zig-zag se seguem ao patim n.6, terminando na rua de S. Roque em ponto correspondente a esse mesmo patim, e que é obrigado em consideração à disposição dos ramais da escada intermédios, a |por acima a saida|*.

A preferência de qualquer outro ponto quer seja situado abaixo do ponto de saída ou acima é inadmissível, porque nos primeiros casos haveria entre os pontos extremos menos diferença de nível, e por conseguinte mais facilidade em obter um melhor perfil para a escada, o terreno porém não oferece a largura suficiente para a sua colocação. No segundo caso, isto é, se fosse preferido para ponto extremo ou de saída outro qualquer acima do projetado haveria terreno em que aos ramais da escada se pudesse aumentar a largura, entretanto o perfil da escada tornava-se mais difícil para se obter em boas condições, obrigando a um traçado mais dispendioso e extenso sem que o trânsito colhesse do aumento de largura vantagens, que compensasse o excesso de despesa.

(...)"

Projeto final das escadas, datado já de 1878.

Este documento tem a data de 15 de Julho de 1878 e é assinado pelo engenheiro Agnello José Moreira. O projeto poderá ser consultado na íntegra no Arquivo Histórico da Câmara do Porto, onde existe também a memória descritiva da plano de obra e de engenharia, mapa de materiais e custos, bem como os alçados laterais do mesmo.

Localização das antigas escadas

Assim termino, esperando ter dado a conhecer mais um pouco da história da nossa cidade, que a meu ver se faz também muito destas obras de engenharia aparentemente insignificantes e por onde muitas vezes passamos sem as valorizarmos, aliás sem darmos por isso por não se tratarem de um qualquer monumento ou ícone da cidade. Renovo o apelo à Câmara Municipal do Porto para que faça uma limpeza mais assídua daquele equipamento, que é também um miradouro para a cidade e que muito desprezado se encontra.
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* leitura duvidosa

sábado, 3 de setembro de 2016

O bueiro da Natividade

Recordam-se os leitores de ler em crónicas do insigne historiador da cidade Germano Silva (creio que a notícia original surge na 2ª série de O Tripeiro) sobre uma remodelação dos aquedutos das águas ocorrido na Praça da Liberdade aí pelos anos vinte do século passado? E recordam-se também de ler que o povo dizia que eram túneis para os frades se encontrarem com as freiras?... Bem disparates à parte que a imaginação popular por vezes cria na sua santa ignorância, verdade é que esses túneis existiam mesmo, mas não seguramente com a intenção imaginativa que a eles se queria dar.

Abaixo podemos ler uma notícia de um periódico dos anos 30 do século XIX, onde esses túneis se viram envolvidos numa banal tentativa de roubo, mas de onde extraímos alguma informação preciosa sobre os mesmos; levando em conta que esta história é cerca de 100 anos mais antiga do que a remodelação que acima referi.

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Todo o Porto sabe que há um aqueduto geral chamado Rio da Vila, que vai desaguar ao Douro, e corre a descoberto desde a Viela do Largo do Souto, até à Biquinha, pelas traseiras da Rua das Flores. Este aqueduto recebe em si as vertentes do regato de Liceiras, e os enxurros das ruas, que entram por bueiros abertos em várias partes, como no fim da Rua de Santo António, Largo da Praça de D. Pedro, no sítio onde foi a Natividade, no lado dos Congregados, Caldeireiros, etc.

Estes bueiros tinham todos na sua permitiva (sic); isto é, anos há, travessões de ferro, que apenas deixavam passar as águas; e é tanto verdade, que ás vezes, a terra e as areias arrastadas na corrente, os tapavam, e faziam inundações nas vizinhanças a ponto de ser necessário grande esforço e tempo para os desentulhar e deixar passar grande quantidade de povo, que era obrigado a interromper o seu trânsito em ocasiões de grandes bátegas de chuva. Alguns destes varões de ferro hão desaparecido de vez em quando, e ninguém tem prestado atenção a esta falta.

Ainda mais: o bueiro do sítio onde foi a Natividade, não só deixa de ter os ferros há muito tempo, mas está de tal maneira esburacado, que parece mais uma entrada de funda cova, do que bueiro para a água. Pode entrar uma pessoa sem grande dificuldade. Esta abertura, assim mais praticável, data do tempo da demolição da Natividade; época em que o tal bueiro esteve metido entre as pedras e entulho que na demolição se iam acumulando em redor, enquanto se não alimpou o sítio inteiramente; e então buraco ficou como estava, e ninguém lhe prestou atenção, porque não houve motivo para isso. Um caso imprevisto veio porém dar celebridade ao bueiro do Rio da Vila no sítio a Natividade!

1- localização da antiga Fonte da Natividade / 2- traseiras das casas das Cardosas onde se vê que originalmente eram edifícios distintos, apesar da fachada regular em comum / 3- local onde os diversos regatos se juntam formando o Rio da Vila. 

Domingo passado, em uma casa da Praça de D. Pedro, das que tem traseiras para a cerca do extinto Convento dos Lóios, seriam 2 para 3 horas da noite, sentiu-se rumor em uma pequena janela, ou postigo, que ao nível do tecto da loja dá luz à parte detrás dela. Aplicou-se atenção; o rumor cessou; e abrindo-se pela manhã a portada que fecha a tal janela, viu-se que a vidraça interior estava fechada com a cravelha costumada, e nenhuma aparência fazia desconfiança.

Porém o tal rumor, pelo que agora se descobriu, foi originado por se tirar o betume de um vidro, e tentear-se um buraco que apenas serve para mostrar que é dia, o qual está aberto na porta ao direito do tal vidro que se tirou. Tornaram a por o vidro, com novo betume, depois de verem a grossura da janela para os seus planos, e como os vidros são abetumados pela parte de fora, ninguém tal viu, até ontem, que as circunstâncias fizeram inspecionar a janela.

Ontem às 3 horas da noite, tornou-se a sentir o mesmo rumor, no mesmo sítio, e ouviu-se tinir vidro quebrado. Então gente da casa se levantou e pode conhecer que com um trado se faziam furos na janela.

Como a janela é forrada com chapas de ferro de arcos de pipas, deu lugar a operação dos ladrões, a tomarem-se medidas pelo lado da praça, pedindo auxílio à Guarda do Trem dos Congregados, a quem se ministrou um lampeão; (tudo isto da janela, para que não se abrisse a porta da rua ao direito do sítio da operação, e se espantasse a caça) e se lhe ensinou que fosse a escolta pedir entrada ao Quartel dos Lóios, para entrar na cerca, e pilhar os ladrões. Assim se fez. À baioneta calada caiu a escolta com ímpeto sobre o sítio do assalto, aonde estavam 4 homens. Dous deles tiveram a coragem de se lançar abaixo de uma alta parede, e os outros dous que estavam em cima da escada para chegar à janela, foram presos. Perguntados por onde entraram para esta cerca murada de todos os lados, apontaram para um bueiro, que está dentro da mesma, e que serve de escoadouro de águas no seu plano inclinado, tendo entrado eles dous pelo bueiro da Natividade, dizendo que não sabiam por onde tinham entrado os outros dous, os quaes já se achavam no sítio. E parece que talvez eles entrassem por onde saltaram!

A escolta deixando seguros os presos teve a coragem de descer pelo bueiro e foi seguindo uma das seis ramificações em que diz que a certa distância se divide o aqueduto, e foi dar com uma casa subterrânea, com porta e fechadura que estava aberta! Dentro desta casa havia uma cama de palha, parecendo à escolta que um vulto fugia para um dos lados. A quentura da palha indicava que pouco antes ali estaria alguém deitado. Nesta casa estavam duas cadeira, alguns pipinhos de vinho, bastantes cebolas, uns paus como tocheiras de por à janela com tocos, em ocasiões de luminárias, e alguns estofos velhos, que dizem parecer ser de igreja... Esta casinhola tem comunicação para a casa de D. António de Amorim na Praça de D. Pedro, por cuja porta da rua veio a sair a escolta.

Tal é o facto, segundo por diversas vias nos informamos.

No sitio do roubo, existem dous vidros quebrados na vidraça, e três furos na portada, um que varou, e dous que vieram de encontro às chapas dos arcos que a forram.

Os presos atravessaram a cidade no meio de imensa multidão, quando foram à presença do Ministro de Polícia Correcional, e depois para a cadeia.

Todo o dia, grande ajuntamento concorria a ver o célebre bueiro, e não há mais em que falar nesta cidade.

Por esta razão, e para fazer rir os nossos leitores como se estivéssemos a ler a história do Gil Brás de Santilhana, resolvemo-nos a relatar o facto, para ver se alguém cuida em providenciar como convêm a similhante respeito!
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O Artilheiro de Quinta-feira, 24 de Março de 1836.
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domingo, 28 de agosto de 2016

Uma fotografia insignificante...

A imagem que deu razão a esta postagem é uma insignificante (feia até) fotografia de uma parte dos cobertos de Miragaia. Contudo, melhor a analisando podemos verificar que se trata de um documento único apesar do o confrangedor cenário de semi-ruina que ali se apresenta. Eis a fotografia:
A - Rua dos Cobertos (agora de Miragaia)
Ora olhando e re-olhando para ele verifica-se que estas casas são aquelas que se apresentam no pormenor da imagem abaixo assinaladas com o rectângulo. A ladeá-las estava aquela que agora é a primeira casa na Rua de Miragaia vindo do Largo Artur Arcos (assinalada na foto B com o n.º 2 mas não presente na foto A) e a casa que se encontra agora com a sua frente para o mesmo largo mas que originalmente tinha a fachada sustentada por dois arcos que davam para a praia de Miragaia.

Para melhor localizar assinala-se com o n.º 3 a Porta Nova ou Nobre e o seu fortim, tão amplamente referido neste blogue, na imagem B.
B - Pormenor de panorâmica antiga
A foto C mostra o local na atualidade. Será de reparar que a foto A foi já tirada de cima da sapata da rua da nova alfândega que foi construída dali para Poente, em direção ao edifício alfandegário, primeiro do que o lado nascente, pelo que a C só tem a beneficiar disso em termos de perspetiva... A casa 1 e 2 estão assinaladas para melhor localização e o X marca o local onde estavam as casinhas.
C - O local literalmente hoje
Como curiosidade, na imagem D que consiste num pormenor da gravura de 1736 de Duncalf, podem-se vislumbrar os edifícios referenciados, em parte apresentando já varandas que parecem ser de ferro e outras ainda usando um sistema com portadas de madeira que abrem debaixo para cima e não para os lados como estamos modernamente acostumados. Um sistema sem dúvida mais antigo, talvez remontando ao tempo em que ter vidros nas janelas era um luxo...
D - Gravura de Duncalf (1736)
Sem dúvida terá sido mais o seu estado de ruína aliado à necessidade de alargar aquele espaço em vista a perda que aquela zona acabara de sofrer com o desaparecimento da praia de Miragaia, que terá ditado o desaparecimento daquelas singelas construções não históricas. Felizmente ficou-nos esta fotografia, outros verdadeiros monumentos pudessem ter tido essa sorte...

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CORREÇÃO:

A casa marcada com o n,º 1 não é, como originalmente refiro, a mesma que lá se encontrava antes das demolições do Bairro dos Banhos. Em baixo se comprova isso mesmo num pormenor de uma fotografia tirada aquando das demolições, onde a casa em questão já não existe. Sensivelmente no mesmo local foi construída a que lá vemos agora e que tem do seu lado nascente um bonito mural dedicado a Artur Arcos ( que dá nome ao largo).

Peço aos meus leitores a desculpa pelo lapso.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Nota de rodapé n.º 7 - da Capela de João Gordo

Uma pequena notícia recolhida num jornal de 15 de maio 1835. Sem comentários....

"Esta madrugada pelas 3 horas e meia deram sinal de rebate os sinos. Foi numa antiga capela, hoje loja de madeireiro, nos baixos da casa capitular da Sé: foi apegado por descuido de um oficial que havia ali feito a comida ... Nessa loja existe um antigo sepulcro com uma estátua de pedra. O edifício capitular esteve em perigo iminente de se incendiar, apesar de ser de abobado a loja."

 

Fotos: Wikipedia e AHMP (GisaWeb)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O Carroção pela pena de Ramalho Ortigão

Excerto de um texto de Ramalho Ortigão de 1876 em que este se refere ao carroção, o primeiro transporte coletivo do Porto.

"(...) Muita gente vinha do Porto, de madrugada [à Foz], tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinário inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção.

O carroção era um pequeno prédio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Dentro havia duas bancadas paralelas, em que se sentavam os viajantes. Por fora, sobre uma faixa pintada por uma cor alegre, lia-se o nome do proprietário e do inventor da máquina: Manoel José de Oliveira.

Quanta gente cabia num carroção? Nunca se pôde saber. Um carroção levava uma família. Que esta fosse pequena ou grande, o carroção não se importava com isso e levava-a. Levava-a de vagar, mas ia-a levando sempre.

O carroção

Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do teatro de S. João. A portinhola abria-se; havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se de que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora!


Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Matosinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes e penso para os bois! Para este fim havia bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidades, poderia arrumar-se -- outra família.

Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções, por um pinto (...). Por tão módica quantia teve Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pelos diversos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.

Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro dele e de se por a olhar para fora pelos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.

O primeiro golpe na popularidade enorme de Manel Zé  foi-lhe verberado pelo segeiro Tavares, da rua da Boavista. Em certo dia de função suburbana Tavares pôs na rua três carroções novos, de cores extraordinárias, maiores do que os de Manel Zé e aperfeiçoados com o apenso festival de uma bandeira. Estes três carroções chamavam-se o Rápido, o Veloz e o Ligeiro. Do Porto à Foz, uma légua, ida e volta, grande celeridade, a toda a força dos bois, - um dia.

Manel Zé, vendo passar o Ligeiro, - e só Deus sabe o tempo que o Ligeiro levava a passar! - desmaiou de desgosto.

Carroção particular
Além destes carroções de aluguer puxados por bois, havia os carroções particulares, puxados por vacas.

Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento. (...)"

Completo estas notas com o apontamento de uma curiosa notícia que li num jornal de 1836 na BPMP em que se refere precisamente a um acidente que sofreu uma distinta família da cidade que descia Cimo de Vila para vir ao teatro, no seu carroção. Acontece que, estando a passar uma banda marcial do exército em pleno toque, os bois lançaram-se, assustados, e botaram  a correr rua abaixo. Separaram-se do carro que aos trambolhões se imobilizou em frente à fonte e continuaram a sua marcha rebocando apenas as rodas frontais, até populares os imobilizarem em frente à igreja da Misericórdia!!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A Rua da Almea, artéria esquecida da cidade

Há ruas agora extintas que pela sua importância no passado ou pelo seu relativamente recente desaparecimento ficaram melhor vincadas na memória da cidade do que outras. Basta lembrar por exemplo a Rua das Congostas (que para mim ainda existe, mas isso seriam outros "quinhentos"...).

A enorme mortandade de ruas que ocorreu com o quase completo arrasamento do chamado Bairro dos Banhos obliterou-as da memória da cidade, ao ponto de alguns historiadores amadores de hoje - onde humildemente me insiro - falarem por exemplo na Rua da Minhota localizada naquele bairro, como se essa designação fosse a de oitocentos; misturando designações mais recentes com antigas. Sem levarem em consideração que essa designação desapareceu bem antes da rua em si, tal como por exemplo no mesmo bairro o nome Rua da Ourivesaria deu lugar à Rua de S. Nicolau (e parte dela ainda existe!). Este cuidado urge para que não se misturem épocas de vida da cidade por vezes separados por séculos.

Então e a Rua da Almea? Pois já alguém ouviu falar dela? Na verdade dificilmente os interessados por estas coisas terão tido essa oportunidade, pois que a rua desapareceu por completo e de uma assentada no início do século XVII. Os responsáveis foram os Eremitas de Santo Agostinho que no seu local construíram o Convento de S. João Novo, agora transformado em tribunal.

Pelo ano 1602 foi entregue a esta religião a igreja paroquial de Belomonte após extinção daquela paróquia (que acabou retalhada entre S. Nicolau e Vitória). A igreja estava ainda inacabada, sem capela-mor: mas os frades optaram por demoli-la e construir um novo templo naquele espaço. Juntamente com ele foram também construídas as restantes dependências conventuais, que em última análise ditaram o fim da Rua da Boa Vista, nome pelo qual naquela altura era conhecida a Rua da Almea. Assim, foram compradas vinte e uma casas com quintais e outros cinco quintais separados para se poder dar início às fundações da casa monacal. Daqui se vê a razia que resultou pois a rua foi completamente obliterada do mapa da cidade, quase ao ponto, arriscamos escrever, de também desaparecer da memória dela.

A rua e sua vizinhança a sul (AHMP)
Esta artéria correria na direção Norte-Sul sensivelmente paralela à muralha fernandina, desde a Porta Nova (ou Nobre) até ao pequeno rossio formado junto ao Postigo da Cordoaria, i, é, a porta da muralha que abria para o início da atual Rua Tomás Gonzaga (antes Calçada da Esperança). Unia-se ao bairro dos banhos pela Minhota (ou Munhota), a julgar por estas descrições de casas que os dominicanos possuíam nas redondezas no século XVI e que dizia "esta rua é abaixo de Belmonte entre a porta nova e o postigo de S. Pedro, perto do muro...", mais à frente: "rua detrás da minhota ou almea" ou ainda: "rua da porta nova (Rua dos Banho) ... da banda do norte, pegada com a escada que vai da porta nova para cima para a rua da almeia ao longo do muro".

Localização conjetural da rua (bingmaps)
São tão poucas as referências a esta rua que ela não aparece nos mapas sobre estudos da cidade, nem mesmo na maqueta medieval do Porto (podendo contudo ainda não existir nesta época...). O que não será totalmente estranho, pelo facto de a maioria das ruas e vielas desta área terem cessado de existir em 1871 e 1872 e também pelo facto de este local se encontrar em plano secundário em relação à restante cidade histórica. Ainda assim, aqui fica um apontamento sobre a existência dela e que o seu desaparecimento se deu para ali se erguer o Convento de S. João Novo.

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Fontes: Cartório do convento dominicano do Porto e A imagem tem de saltar da Autoria de José Ferrão Afonso